A partir de dezembro de 1995, houve um efeito prático e direto no futebol europeu no seguimento daquela que ficou conhecida como a lei Bosman: os jogadores voltaram a ser donos do seu destino. Depois houve prós e contras, como em quase tudo o que mexe com o que está instalado, mas essa foi a principal marca que ficou. O jogador belga corporizou em termos individuais uma das grandes revoluções no mundo desportivo (e não só); o Ajax é exemplo paradigmático no plano coletivo de como uma regra pode acabar por completo com uma era – depois da vitória em 1995 e da derrota em 1996, não mais o conjunto de Amesterdão voltou a chegar a uma final da Liga dos Campeões. Nem sequer voltou a reunir tanto talento num só plantel.

Entre os últimos campeões europeus estavam Van der Sar, Reiziger, Blind (o pai), Bogarde, os irmãos de Boer, Davids, Overmars, Rijkaard, Seedorf, Finidi, Litmanen, Kluivert e Kanu. No ano seguinte, chegou Márcio Santos, reformou-se Rijkaard, saiu Seedorf e manteve-se tudo o resto. Depois, foram saindo todos os jogadores a conta gotas. A própria formação do Ajax viveu momentos de menor exuberância, numa primeira instância por algumas mudanças falhadas na política de observação e recrutamento e depois pelo natural crescimento da concorrência nacional e nã0 só. Entretanto nasceu a Arena de Amesterdão, renomeada em 2017 como Johan Cruyff em homenagem ao antigo tricampeão europeu pelo clube que falecera no ano anterior. E foi já com esse nome que se começou a assistir a um regresso do Ajax mais próximo mas ainda longe daquele dos anos 90.

Cruyff nem sempre aparece naquelas listas com os melhores de sempre. Aquelas listas que começaram com Di Stéfano, que mais tarde passaram a contar com Pelé e Maradona, que hoje têm Cristiano Ronaldo e Messi. Mas poucos terão dúvidas que o número 14 foi a figura que mais revolucionou o futebol como jogador e técnico. Mais do que títulos de campeão europeu de clubes nos dois papéis, foi com os pés de Cruyff que se escreveu o Futebol Total e foi a cabeça de Cruyff que começou a criar Dream Teams que, com as devidas adaptações, inspirou fenómenos como o tiki taka de Pep Guardiola no Barça e na Roja. Hoje, Cruyff teria muito orgulho desta equipa do Ajax. Mesmo saindo derrotado na primeira mão dos oitavos da Champions.

De forma surpreendente, esta nova geração de miúdos onde se destacam o central De Ligt ou o médio Frenkie De Jong (que já está contratado pelo Barcelona para a próxima temporada) encostou quase sempre o tricampeão europeu ao seu meio-campo, fruto de uma pressão alta e agressiva que condicionava quase por completo a construção dos merengues por Casemiro, Modric ou – e só quando a bola passava essa barreira, o que não aconteceu assim tantas vezes, o Real Madrid criou perigo, com tentativas de Vinicius e Bale para defesa de Onana. Antes e depois, foi a formação holandesa a dominar. Com uma bola de Ziyech a passar pouco ao lado (7′), com um remate de Tadic a acertar no poste (25′), com nova oportunidade flagrante de Ziyech isolado para grande intervenção de Courtois (36′), com um golo anulado pelo VAR a Tagliafico (38′) – e que mereceu reparos de… Futre.

No segundo tempo, Neres voltou a colocar à prova o guarda-redes belga mas seria o Real, com uma eficácia muito maior do que o adversário, a inaugurar o marcador no seguimento de uma jogada de Vinicius na esquerda com assistência para o remate final de Benzema na área. O avançado francês que tantas vezes foi o patinho feito da equipa espanhola (e que não mais voltou à seleção do seu país) voltou a ser dono do seu destino e consegue também decidir o destino dos merengues com um golo determinante em termos de eliminatória, o sétimo alcançado nos últimos sete encontros com seis vitórias e um empate (em Barcelona). E, com isso, tornou-se apenas o quarto jogador a ter 60 ou mais golos na Champions, depois de Ronaldo, Messi e Raúl.

O Ajax atirou-se de cabeça para o empate, perdendo equilíbrios e partindo por completo o encontro numa estratégia arriscada, e Solari abdicou de Benzema, optando por ter Asensio, Lucas Vázquez e Vinicius (depois Mariano) na frente. Dois minutos depois dessa alteração, após mais um grande lance ofensivo dos visitados iniciado com uma recuperação de bola em zona adiantada, Ziyech fez mesmo o 1-1 (75′) já depois do suplente Dolberg ter atirado por cima uma boa oportunidade mas seria o Real Madrid a voltar à vantagem perto do final, com Asensio a empurrar na área ao segundo poste depois de um cruzamento de Carvajal (87′). Uma meia hora de loucos que começou com o golo do agora suspeito do costume, Karim Benzema.