Moda Lisboa

Eles criam, dançam e usam os tecidos que ninguém quer: os talentos do último dia da ModaLisboa

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Nuno Gama reinventou o cavalheiro português dos anos 30. Olga Noronha explorou campos magnéticos. E Ricardo Andrez usou os tecidos que ninguém quer. Veja as imagens do último dia de ModaLisboa.

Para domingo ficou a última leva de desfiles da 52ª edição da ModaLisboa. No Pavilhão Carlos Lopes, Nuno Gama apresentou “Mutantes”, a coleção para o próximo outono-inverno. O criador voltou a fugir ao formato tradicional de desfile, embora não com a megalomania a que tem habituado o público da semana da moda lisboeta. Durante uma hora, dezenas de manequins ficaram dispersos pela sala, enquanto outros subiram e desceram as bancadas. À vez, o designer convidou músicos para atuarem durante a apresentação — piano, guitarra e gaita de foles, para sermos mais exatos. O povo circulou como quis, fotografou, posou e tocou. Para a coleção, Nuno Gama seguiu uma linha tradicional. O criador revisitou códigos de vestuário dos anos 30, utilizando lãs de aspeto rústico, fatos de três peças, sobretudos robustos, suspensórios, boina e camisas de colarinhos redondos. Um clássico português, portanto.

Nuno Gama © DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Andrew Coimbra regressou pela segunda vez consecutiva ao LAB da ModaLisboa. O lusodescendente radicado no Canadá continua a cruzar o vestuário clássico com influências desportivas, com destaque para peças como o corta-vento, o trench coat, os fatos com blazers assertoados e ainda peças em veludo devoré.

Na mesma plataforma dedicada a jovens designers, Gonçalo Peixoto protagonizou o primeiro ponto alto deste último dia. Depois de ter apresentado a sua melhor coleção na estação anterior, feito que, inevitavelmente, deixa as expectativas lá em cima, o criador do Porto abriu o álbum de família, literalmente. “Era da minha mãe, tinha imensas memórias dela e fazia sentido para mim expô-las”, refere, em conversa com o Observador. Mas nada de inconfidências familiares. Foram as silhuetas de uma mulher em particular, e de outras com quem se foi cruzando, ao longo das últimas décadas a lançar as bases da coleção do próximo inverno.

E, se até aqui, Gonçalo Peixoto alicerçou a sua marca, jovem porém já com uma personalidade bem vincada, no diálogo entre o clássico e o desportivo, desta vez o criador adicionou uma terceira dimensão: o kitsch. O tecido brocado com motivos florais que espreitou nos últimos coordenados é um de muitos exemplos. “É o sofá da minha bisavó”, revela. “Dos anos 80, havia imensas fotos com os ombros volumosos. A minha mãe é minúscula, aquilo ficava-lhe péssimo. Mas fez todo o sentido ter esses super shoulders na coleção. Depois, chegámos à parte mais clássica. Tenho blazers, mas complementei-os com a minha cultura pop e acrescentei-lhes os capuzes amovíveis”, explica.

Gonçalo Peixoto © DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Dúvidas houvesse, Gonçalo Peixoto, que completou 22 anos há uma semana, tem um poder, o de transformar o potencialmente piroso em cool. E a coleção que apresentou este domingo deixou isso bem claro. Exemplos? Comecemos pela organza de seda, caminho perigoso que pode facilmente resultar em desastre ou então virar ouro nas mãos de um millennial que remistura tudo à imagem de um streetwear universalmente desejável. Com ela, Gonçalo fez blusas e vestidos, perdeu a cabeça entre folhos e deixou-as a desfiar, tal era a confiança na qualidade da produção italiana. Combinou-as com hoodies, pintou-as de verde e laranja néon. Subverteu o que havia de Barbie Rapunzel e transformou-o num agradável exagero de volume e movimento. “Foram os primeiros looks que fiz. Podia ser um abismo, mas quando vi as peças, percebi que era por ali que queria ir”, refere. A viagem pelos materiais continua — neoprene, lurex, latex, veludo, flores, bordados e até um estampado serpente deu um ar da sua graça, carregando de excesso “a piada do passado”, expressão usada pelo próprio para sumarizar a coleção.

Depois de um desfile convencional, veio a performance. Olga Noronha voltou a reinventar o momento de apresentação de uma coleção. Convidou o bailarino Rui Marques, um amigo de longa data, e proporcionou ao público no Pavilhão Carlos Lopes um espetáculo com várias artes. “Há muito tempo que queria trazer dança clássica ou contemporânea para a passerelle, sempre no sentido de descontextualizar, de criar um momento disruptivo. Não queria que fosse só uma questão cenográfica, mas um elemento central que alimentasse o trabalho e que o transformasse”, explicou ao Observador.

Olga Noronha © DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Com cinco peças apenas, uma usada pelo bailarino e as restantes por quatro manequins, a designer explorou o potencial criativo das ondas magnéticas. Escondidos por entre camadas de pele animal, os circuitos magnéticos formaram desenhos invisíveis, que apenas se revelaram quando, enquanto dançava, Rui Marques atirou um pó cinzento (também magnético) sobre as peças. Foi o efeito de um íman, ao som do tema “Beija-Flor”, de Johnny Hooker. As imagens reveladas ao vivo mostraram flores, mas não umas flores quaisquer. “Aquelas flores têm mensagens subliminares fálicas”, explica. Entre as pétalas, representações de pénis e vulvas começaram a desenhar-se. “É o desvendar do ego físico e emocional num corpo que não cabe na sua própria pele.”, conclui. O processo foi testado pela designer em pequenas porções de pele, mas não nas peças que levou para o desfile. Se por um lado, a desmagnetização foi um risco até ao último minuto, por outro, Olga Noronha assistiu a tudo pela primeira vez, tal como o público.

“Já não me lembrava como era pôr tudo dentro de um carro e vir para Lisboa”. As palavras são de Tânia Nicole, a criadora por detrás da marca Nycole. Em tempos, foi uma jovem principiante a tentar a sua sorte no Sangue Novo. Três anos depois da última apresentação na capital, a designer regressou com um desfile promovido pelo Portugal Fashion no calendário da ModaLisboa. Em três anos, muita coisa mudou. A marca ganhou alcance internacional, sobretudo no mercado asiático, e as criações de Tânia Nicole ganharam consistência. Na coleção do próximo inverno, refletiu sobre um futuro em que, cansadas de uma (falsa) interação no universo digital, as pessoas voltam a unir-se fisicamente. Inspirou-se na música do DJ britânico Rival Consels, “uma mistura de eletrónica e clássica, um bocado como a minha roupa”, explica. Por outro lado, o futebol, enquanto desporto que une multidões. Daí, recuperou camisolas vintage dos guarda-redes, uma das muitas silhuetas oversized que usou também para dissipar os separadores de género dentro do guarda-roupa.

Nycole © DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ricardo Andrez veio a seguir e, à semelhança do que já tinha acontecido no sábado, o foco voltou a estar sobre a sustentabilidade. A partir de tecidos esquecidos e inutilizados em fábricas — o chamado dead stock — o criador fez nascer uma coleção inteira. “Há milhares e milhares de metros à nossa espera e eu visitei montes de fábricas até chegar aqui. A questão é: porque é que temos sempre de comprar ou desenvolver materiais novos?”, questiona Ricardo. A busca foi morosa e desafiante, porque nem todas as fábricas abrem as portas — muitas preferem destruir estes stocks — e porque estar limitado aos materiais que encontra é inverter a lógica que dá origem a uma coleção. “Aqui, o conceito é o processo”, remata.

E o processo levou Ricardo Andrez a desbravar outros caminhos. “Obrigou-me a trabalhar toda a parte de tinturaria. Os tecidos não tinham aquelas cores. Fizemos as peças e depois tingimo-las”, conta. O mesmo processo envolveu ainda a criação do estampado estrela da coleção, impresso sobre os tecidos encontrados. São os números da bolsa, vermelhos e verdes, tal como surgem nos painéis de cotações. Nas fábricas, Ricardo Andrez não tropeçou só em rolos de tecido. Numa delas, encontrou um lote de alfinetes-de-dama. Trouxe-os todos, pintou-os de preto e aplicou-os (2.500 no total) num casaco preto acolchoado.

Ricardo Andrez © DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Aleksandar Protic e Dino Alves fecharam a noite. O designer sérvio arriscou numa coleção em que, claramente, fugiu da sua zona de conforto. Os toques de alfaiataria e os drapeados que executa magistralmente não foram o suficiente para minimizar o ruído causado pela renda amarela e por peças de licra com um estampado floral e pequenas aplicações de pelo. Enquanto isso, Dino Alves apresentou “Reação”, um desfile que terminou com uma manifestação na passerelle. As calças à boca de sino foram uma espécie de farda. Os estampados florais e gráficos criaram contraste de volume e rigidez.

Dino Alves © DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Assim terminou mais uma edição, a 52ª, da ModaLisboa. A próxima chega em outubro, com apresentações das coleções primavera-verão 2020. A partir de quinta-feira, dia 14 de março, a moda ruma ao Porto. O Portugal Fashion garante, nesta edição, quatro dias dedicados aos criadores nacionais. Até lá, veja as imagens do último dia de desfiles na capital, na fotogaleria.

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