Os novos dispositivos da Apple já estão anunciados — há novos iPads, iMacs e AirPods –, portanto, quando o presidente Tim Cook subir ao palco do Anfiteatro Steve Jobs, no Apple Park de Cupertino, na segunda-feira, o foco promete estar todo em serviços e software. Até o maior segredo do evento, o lançamento de um carregador sem fios para iPhone e AirPod — o AirPower — foi revelado pelo 9to5Mac. Este carregador já tinha sido, aliás, anunciado pela própria empresa no evento em que lançou o iPhone X, em 2017.

Muito para lá do calendário de lançamento do iOS 12.2, o sistema operativo da marca, deve sair do evento o anúncio oficial do serviço de streaming de vídeo da Apple — o Apple Video — e de um novo sistema de subscrição para conteúdos noticiosos, expandindo desta forma o Apple News.

No primeiro, a aposta em conteúdos originais da Apple vai ser conjugada com a assinatura de canais de televisão tradicionais. O segundo deve juntar a compra de múltiplos jornais digitais através de um taxa mensal única.

Apple Video: O Netflix da Apple que quer fugir ao Netflix

Ao entrar no mundo da distribuição de vídeo online (e da produção de conteúdos) a Apple tem de encontrar espaço num mercado dominado por gigantes como a Netflix, HBO, Amazon Prime ou o Hulu. A estratégia inicial, após o lançamento no verão — tal como foi indicado pela Variety — será não enfrentar os concorrentes de frente.

A Apple Video quererá atrair clientes simplificando e centralizando os processo de subscrição aos serviços de streaming de outras produtoras, como a HBO, a Showtime e a Starz, de acordo com a Recode. A Netflix, no entanto, já anunciou que não vai disponibilizar os seus conteúdos através da Apple Video, disse o próprio CEO da empresa, Reed Hastings. Os pacotes de vídeo vão ser vendidos num modelo similar à venda de apps, com a Apple a receber uma comissão por cada compra. Haverá, avança o The Information, pacotes com descontos, num modelo similar à televisão por cabo. 

Os serviços poderão ser comprados através de uma loja autónoma, não exclusiva mas focada particularmente em pessoas que já possuem dispositivos da Apple, como a Apple TV (um dispositivo que se liga à televisão para ver conteúdos digitais, incluindo o Netflix). Aliás, deve ser nesta aplicação que se vai centrar a aposta da empresa no streaming.

A versão de 2017 da Apple TV pode ser controlada com a voz (JOSH EDELSON/AFP/Getty Images)

Mas as prioridades divergentes não implicam que a Apple deixe de apostar em conteúdos originais, competindo, aí sim, diretamente com as séries e documentários da Netflix e da Amazon Prime. A empresa terá investido dois mil milhões de euros em conteúdos originais durante 2018 — uma fração dos onze mil milhões gastos pelo Netflix para o mesmo período.

Os gastos da Apple têm recaído maioritariamente sobre nomes reconhecidos da televisão e do cinema ou em formatos estabelecidos, por oposição a conteúdos realmente originais. Os maiores projetos não têm sido bem sucedidos. “Planet of the Apps”, uma versão de “Shark Tank”, teve uma única temporada antes de ser cancelado em 2017. A versão em série de “Carpool Karaoke”, uma rubrica do “Late Late Show”, de James Corden, deu-se melhor em termos de audiência, mas recebeu más críticas.

Em 2019, J.J. Abrams (criador da série “Lost” e realizador de filmes como “Star Wars: The Force Awakens”) deverá ter duas séries na Apple TV. Steven Spielberg (realizador de “A Lista de Schindler”, “Indiana Jones”, “ET – O Extraterreste” e “Parque Jurássico”, entre muitos outros) terá sido contratado para desenvolver uma nova versão de “Amazing Stories”. E a ultra-popular apresentadora de televisão Oprah Winfrey assinou “um contrato de produção de conteúdos de vários anos” com a empresa.

De acordo com o Engadget também Kristen Wiig, Octavia Spencer, Reese Witherspoon, Jennifer Aniston, M. Night Shyamalan e Ronald D. Moore terão projetos exclusivos na Apple Video.

O serviço de streaming da Apple deverá oferecer conteúdos gratuitos para quem o utilizar em iPhone ou através da Apple TV, avança o The Verge. Mas para a experiência completa deverá ter um custo de subscrição mensal na ordem dos preços que a Netflix pratica (9 a 15 euros). A Apple Video pode ser integrada, segundo o Cheddar, num pacote de serviços que inclua a Apple Music e um futuro sistema de subscrição de videojogos.

Apple News: O Netflix das notícias

O The New York Times, como noticiou o próprio The New York Times, já recusou participar. O The Washington Post terá feito o mesmo. Mas outras publicações, incluindo o The Wall Street Journal, já terão aceitado os termos do serviço de subscrição noticiosa da Apple — conhecido internamente como o “Netflix das notícias”.

Através de um custo fixo mensal (10 euros, dos quais a Apple recebe metade, explica o Wall Street Journal), os utilizadores da Apple News (neste momento um agregador de notícias gratuitas) poderão aceder a jornais completos e conteúdos pagos de uma série de publicações de referência.

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Este serviço parece estar a incomodar os sistemas de negócio estabelecidos dos jornais norte-americanos, que vendidos de forma isolada chegam a custar mais anualmente do que toda a Apple News. A grande dificuldade da empresa, indica a Reuters, será mesmo convencer as maiores publicações norte-americanas a concordar em receber uma proporção residual de qualquer subscrição.

“Preocupa-me que as pessoas se habituem a encontrar o nosso trabalho fora do The New York Times”, explicou o presidente do jornal, Mark Thompson, à Reuters, continuando: “E preocupa-nos num todo que o nosso jornalismos seja misturado e triturado com o jornalismo de todos os outros“. O evento decorre esta segunda-feira, pelas 17h em Lisboa, no Apple Park, em Cupertino, nos Estados Unidos.