Alberto Pacheco tem 20 anos, é de Baguim do Monte e estudante do terceiro ano da licenciatura de Matemática, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Desde que o ano letivo começou que se anda a preparar para o International Collegiate Programming Contest (ICPC) — a maior competição de programação universitária do mundo, que este ano se realiza pela primeira vez em Portugal — treinando cinco horas, uma a duas vezes por semana. Juntamente com Gonçalo Paredes e Ricardo Pereira, Alberto faz parte da única equipa portuguesa que esta quinta-feira vai competir com as 135 equipas finalistas de todo o mundo na Alfândega do Porto.

O interesse de Alberto pela área de tecnologia e programação surgiu quando Gonçalo Paredes lhe deu a conhecer este tipo de maratonas. “A minha primeira participação numa competição de programação foi no 12º ano, nas Olimpíadas Nacionais de informática”, explica ao Observador. Este é o terceiro ano que Alberto está a competir no ICPC, mas é a primeira vez que chega à final. “Participámos na fase final da Maratona Inter-Universitária de Programação e ficámos em segundo lugar na prova nacional do ICPC. Depois, na prova internacional, no classificador regional, tivemos uma medalha de bronze, que é, de longe, a melhor classificação de uma equipa portuguesa. Assim, fomos apurados para a final.”

Ricardo Pereira, Alberto Pacheco e Gonçalo Paredes são alunos do terceiro ano das licenciaturas de matemática e ciências de computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

A expetativa do grupo que esta quinta-feira compete no Porto é “o meio da tabela”. “Podemos ter conseguido o bronze nas provas regionais, mas queremos mostrar que não estamos piores do que as equipas que tiveram prata e ouro.” Alberto Pacheco não tem dúvidas de que a participação no ICPC é uma mais valia para o seu futuro profissional. “A participação nesta competição é um grande bónus para os nossos currículos e algo que é muito bem visto pelas várias empresas de topo, como Google e Facebook e Microsoft.” Tal como os companheiros de equipa, o jovem acredita que o evento atrai muito recrutadores e que, por isso, a consequência natural passa por uma oferta de estágios em várias empresas. “Desde que chegámos à Alfândega [as equipas estão reunidas desde domingo], já falámos um pouco com a Farfetch, com a EFACEC e a Huawei”, adianta.

A 43ª edição do ICPC, que partilha atividades com a semana Start & Scale, acontece pela primeira vez em Portugal, no edifício da Alfândega do Porto. “A primeira competição foi organizada por pioneiros da International Honor Society for the Computing and Information Disciplines e rapidamente foi replicada nos EUA e no Canadá. Com o passar do tempo, o concurso evoluiu para uma competição de múltiplos níveis com o primeiro campeonato a ser organizado em 1977. Desde então, esta é a principal competição de programação global conduzida por e para as universidades dos cinco continentes”, explica ao Observador Fernando Silva, vice-reitor da Universidade do Porto e diretor das finais mundiais do ICPC 2019.

Segundo o responsável, o ICPC é “uma oportunidade única para inspirar as próximas gerações de especialistas em programação”, através de um programa educacional “que tem permitido apoiar o desenvolvimento das áreas das ciências e da engenharia”. “Esta iniciativa permite aos estudantes conhecerem pessoas de todo o mundo, trocarem experiências, melhorar o trabalho em equipa e a capacidade de resolver problemas. O objetivo é que seja uma plataforma de ligação entre universidades, empresas e a comunidade, na construção de sinergias relevantes para todos.”

Um computador, canetas e papéis compõem o kit essencial para as provas

A competição faz-se entre equipas representantes das universidades participantes, compostas por três estudantes e acompanhadas por um ou mais treinadores. Ao longo de seis horas consecutivas, entre as 11h e as 17h, os alunos são desafiados a resolver entre oito a 15 problemas, que têm como base situações reais do quotidiano, com recurso à programação, matemática, estratégia, lógica, processos algorítmicos e cálculo, onde o objetivo final é resolver o maior número de problemas em menos tempo. “Ao longo de todo o ano foram realizadas mais de 400 eliminatórias realizadas um pouco por todo mundo, que contaram com a participação de 52.000 estudantes de informática provenientes de mais de 3.200 universidades de 115 países”, explica o vice-reitor.

Ao Porto, chegam agora 135 equipas, compostas por mais mais de 400 participantes oriundos de 47 nacionalidades, entre as quais o coletivo português constituído por alunos da Universidade do Porto. Rússia, EUA e China lideram o número de alunos, embora Índia, Brasil, Egipto e Síria tenham também uma expressão significativa, com seis equipas.

Um concurso que é uma porta aberta para o mercado de trabalho

No ICPC, não se programa apenas. Os jovens estudantes podem contactar empreendedores e empresários de topo, como Adam D’Angelo (CEO do Quora e antigo CTO do Facebook), Tony Hsieh (gestor no Facebook) ou Craig Silvestein (o primeiro colaborador da Google), em sessões, conversas e outras atividades que fazem parte do evento.

China, Rússia e EUA são os países mais representados nesta competição mundial @DR

“Na zona ‘tech showcase’ – aberta ao público até ao final do evento, dia 5 de abril – os visitantes podem contactar com empresas como a Huawei, JetBrains, Farfetch, Euronext, Natixis, Jumia, Efacec, Primavera, entre outras, e também conhecer algumas das tecnologias e inovações que estão a ser desenvolvidas na Universidade do Porto”, revela Fernando Silva, vice-reitor, acrescentando ainda que a programação informática é uma área “onde existe um défice generalizado de recursos humanos”.

O diretor desta 43ª edição sublinha que a Universidade do Porto participa desde 1997 em provas do ICPC, “tendo sido responsável pela organização de cinco edições regionais do sudoeste da Europa”, um histórico que lhe permitiu, após uma candidatura, ser a morada oficial desta final mundial.

Num evento “que conta com cerca de de 1500 convidados”, entre estudantes, professores, mentores e engenheiros na vanguarda científica e tecnológica, o vice-reitor realça a importância de trazer a iniciativa para o território nacional, afirmando que na economia portuguesa “o impacto económico direto é de 2,5 milhões de euros”. “China, Portugal e em breve Rússia, são estes os três países envolvidos nas últimas e futura edições das finais mundiais do ICPC. Trazer este evento para a cidade do Porto, e para Portugal, é o sinal da força viva que o país tem conquistado no panorama internacional, também na área tecnológica.

A final da 43ª edição do International Collegiate Programming Contest acontece na Alfândega do Porto, a partir das 11h, e a entrada é livre

Durante esta semana, o Porto é a “capital da tecnologia”, prova disso são as “perto de 2000 pessoas que o ICPC trouxe”. O evento organizado pela Universidade do Porto, que conta com o apoio da autarquia local, do Turismo de Portugal e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, acontece na Alfândega do Porto, é aberto ao público e totalmente gratuito, estando prevista a emissão da final da competição em streaming para os quatro cantos do mundo.