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Música

Morreu a cantora e compositora Dina

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Morreu Dina, conhecida por ser uma das vozes portuguesas que venceu o Festival RTP da Canção, com a música "Amor de Água Fresca". A cantora lutava contra uma fibrose pulmonar desde 2006.

Dina fotografada em 2016

Morreu a cantora e compositora Dina, aos 62 anos, na noite de ontem no Hospital Pulido Valente, em Lisboa. A cantora lutava desde 2006 contra uma fibrose pulmonar. A notícia foi avançada pela RTP3.

Dina, nome artístico de Ondina Maria Farias Veloso, nasceu no Carregal do Sal, a 18 de Junho de 1956. A cantora é conhecida por ser uma das vozes portuguesas que venceu o Festival RTP da Canção. Representou ainda Portugal no Festival Eurovisão da Canção em 1992.

[Viagem pela carreira de Dina em oito canções]

Ao longo da sua carreira, teve vários temas de destaque, como “Há sempre música entre nós” e “Amor de Água Fresca”. Lançou seis álbuns de originais, e foi responsável por compor temas de telenovelas como “Sonhos Traídos” e “Filha do Mar”.

Mas foi com o Quinteto Angola que começou, uma banda cujo nome era o mais natural possível: “Os músicos tinham tocado todos juntos em Angola”, recordava em entrevista ao Observador em 2016. Já cantava pop-rock, já tocava guitarra em palco, o que na altura não era nada habitual, mas em meados dos anos 70 deixa o quinteto e acredita na possibilidade de um percurso a solo.

É no programa “Nicolau no País das Maravilhas”, de Nicolau Breyner, que se estreia, interpretando um poema de António Gedeão, “Forma de Inocência”, musicado pela própria. Mais tarde, haveria de convencer Tózé Brito, responsável então pela editora Polygram em Portugal. Daí até à primeira participação no Festival da Canção de 1980, onde ganhou o Prémio Revelação, não foi preciso muito.

Dois anos depois lançava Dinamite, o álbum que acabou por não conseguir alcançar o sucesso esperado mas que deu a Dina a melhor plataforma de lançamento definitivo. Seguiram-se temas como “Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim” ou o dueto que assinou com Carlos Paião, em “Quando as Nuvens Chorarem”.

Mudou de editora, lançou um álbum em 1991 e no ano seguinte regressava ao Festival da Canção para a interpretação que a deixaria na história, com “Amor D’Água Fresca”. No entanto, na participação na Eurovisão, na Suécia, ficou em 17.º lugar, em 23. A canção, ainda assim, transformou-se num enorme sucesso, que hoje continua a ser reconhecido e a conquistar novos fãs.

Nos anos 90, continuou a editar discos, escreveu um hino para o CDS, “Para a Voz de Portugal Ser Maior” e coneçou a compor temas para telenovelas. Em 2006 foi-lhe diagnosticada a fibrose pulmonar que haveria de condicionar-lhe o futuro da carreira enquanto cantora.

Em 2016, para celebrar os quase 40 anos de carreira, cerca de 15 músicos portugueses como Ana Bacalhau, B Fachada e Samuel Úria, juntaram-se no Teatro São Luiz, em Lisboa.

Ao Observador, o humorista Herman José recordou a cantora: “A Dina foi antes de tudo uma querida amiga. Trabalhámos muitos anos juntos, fizemos dezenas de espectáculos anos 80, e sempre se revelou uma mulher coerente, honesta, e solidária. Vou ter muitas saudades dela.”

“É muito difícil falar agora da Dina, porque tive a felicidade de me ter tornado amigo dela”, diz-nos Samuel Úria, cantor e compositor. “Ou se calhar é mais fácil (pelos mesmos motivos) e porque a melhor memória que tenho da Dina não é estritamente musical.” “Há um momento em que ela tira os tubos do nariz que ajudavam a respirar, vai ao palco cantar a canção ‘Carregal do Sal’, e eu estava nesse palco a cantar com ela. A alegria sobrepôs-se à doença, e quando digo que cantámos a ‘plenos pulmões’, não estou a exagerar. A Dina parecia uma criança da Beira-Alta a falar sobre a sua terra beirã, e ‘criança da Beira Alta a falar sobre a sua terra beirã’ define grande parte da minha carreira”, diz Samuel Úria

“Ela foi uma intérprete talentosa e uma escritora de canções inteligente. A ‘Amor de Água Fresca’ é uma prova cabal dessa inteligência, mas vale a pena ouvir outras músicas que revelam mais do que isso, e muito mais coração”, confessa o músico., que recorda também os concertos de despedida, de 2016, nos quais participou: “A vida não tratou bem a Dina, e não falo só desta última fase. Mesmo assim, não se tornou uma pessoa azeda, bem pelo contrário. A cada mensagem que trocávamos, mesmo a mais corriqueira, ela respondia que tinha sido ‘um bálsamo’. Hoje desapareceu uma pessoa boa e grata, e isso deixa-me muito triste. Mas não evito a felicidade cada vez que me lembro (e palmas ao Gonçalo Tocha) que a homenageámos em vida.”

A cantora Lena d’Água recordou Dina como “pequenota e muito malandreca”, uma “excelente compositora, muito criativa, muito louca e com um humor incrível”. “Nascemos com poucos dias de diferença, as duas do mesmo signo, do mesmo ano, e estivemos próximas muitas vezes, embora não nos víssemos há bastante tempo. Temos amigas em comum e uma delas ligou-me dá dois dias a dizer que a Dina estava muito mal, em extremo sofrimento, e que não deveria aguentar muito. Hoje está um dia de sol em Lisboa, acho que ela escolheu um dia lindo para partir.”

A intérprete de “Sempre que o Amor Me Quiser”, cujo novo single, “Grande Festa”, foi publicado esta semana, lembrou que “há mais de 15 anos” substituiu Dina na interpretação de um tema num evento da TVI. “Agora quero publicar essa gravação no meu Facebook. A Dina pediu-me que fosse substituí-la e eu adorei cantar aquilo. Ela não sabia muitos acordes, lembro-me de uma vez ir a casa dela e de perceber que ela sabia menos acordes do que eu, mas mesmo assim fez canções incríveis, foi uma grande compositora.”

Júlio Isidro, que escreveu letras para Dina e por diversas vezes convidou a cantora a atuar nos seus programas da rádio e da televisão, descreve-a como “extraordinária baladeira” e “uma cantora fundamental do nosso rock” que “se situa entre a dinamite e o doce das frutas”, aludindo ao primeiro álbum de Dina, “Dinamite”, e à canção que esta levou ao Festival da Eurovisão, “Amor de Água Fresca”.

“A música portuguesa precisa de mais pessoas a escrever bem, como ela”, disse o apresentador. Revelou que Dina “continuava a compor, tinha uma série de cantigas muito bonitas para um dia poder gravar e é importante que alguém agora lhe preste esse tributo e dê vida àquelas canções”.

“A Dina estreou-se num programa que fiz na rádio durante vários anos, Febre de Sábado de Manhã [na Rádio Comercial], e depois esteve na televisão, no Passeio dos Alegres e no Fungagá da Bicharada [ambos na RTP]. Cheguei a escrever letras para a Dina, quando tive um programa infantojuvenil chamado Arte & Manhas. Convidava artistas e eu próprio escrevia as letras. Fiz o mesmo para a Manuela Moura Guedes e para a Adelaide Ferreira, por exemplo. A Dina faz parte da minha vida, tal como eu fiz parte da vida artística dela”, recordou Júlio Isidro.

O histórico apresentador sugeriu que a vida pessoal de Dina – sendo homossexual, só muito tarde falou em público sobre esse tema – poderá ter influenciado negativamente a carreira como cantora. “Por respeito e pudor, não vou dizer muito sobre isso. Vivemos num país hipocritamente moralista e julgador dos comportamentos dos outros. A Dina poderia ter tido uma carreira muito mais concernente com a sua qualidade de compositora e intérprete, mas o país foi-lhe ingrato. Não são os portugueses que temos de culpar. Para que as coisas cheguem aos portugueses há intermediários, desde logo os órgãos de comunicação. A Dina foi muito esquecida.”

Júlio Isidro entrevistou a artista em 2015 no programa “Inesquecível, da RTP Memória. “Na entrevista que me deu estava já visivelmente doente e trazia uma máquina que a ajudava a respeitar”, relatou. “Mas como sempre teve um grande respeito pelo público, quis fazer o programa todo sem a ajuda da máquina. Falou mais devagar, para não se cansar, e ali esteve durante 90 minutos comigo no estúdio.”

ministra da Cultura, Graça Fonseca, lembrou a “alegria contagiante” que Dina mantinha na sua “relação com a vida, a amizade e o amor que, muitos anos depois, seriam a marca distintiva de um percurso que pautou sempre pela discrição”. A morte da cantora e compositora “toca a memória coletiva das canções românticas, cantadas ao desafio entre amigos, catalisadoras de comunidades efémeras”, afirmou a governante em comunicado, enviando à família e amigos “sentidas condolências”.

As reações à morte de Dina também passam pelas redes sociais. Adolfo Mesquita Nunes, ex-vice-presidente do CDS, atualmente coordenador político da campanha eleitoral das legislativas do partido, já deixou uma mensagem na sua conta de twitter.

Os fãs já estão também a reagir à notícia nas várias redes sociais.

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