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Festas LGBT de Lisboa: as que marcaram, as que desapareceram e as que persistem

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Regresso da We Party neste sábado dá o mote para um balanço. Do Arraial Pride à Conga, da Lesboa à Mina. As festas das minorias sexuais na capital ainda têm chama? Falámos com os protagonistas.

Sob o signo "pink animals", a We Party regressa a Lisboa neste sábado

TAREK DEL MORENO

Autor
  • Bruno Horta
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Há uma década em Lisboa, há apenas uma década, a lista de festas noturnas LGBT não era uma lista, eram três tópicos: Arraial Pride, Sparkling Party e Lesboa. De repente, a noite deu uma grande volta e a vivência de lésbicas, gays, bissexuais e transgénero também. Várias festas nasceram e morreram entretanto, outras estarão adormecidas para um dia despertarem. E há uma que persiste há já cinco anos: a We Party, com origem em Madrid, de ambiente frenético e frequência maioritariamente masculina.

Com regresso marcado para este sábado, a partir das 23h30, no Bolero Club, junto à Avenida Infante Santo, a We Party apresenta-se desta vez sob o tema “Pink Animals” e além da habitual produção audiovisual terá dançarinos musculados, house de Binómio e Zecka Pinheiro e promessas de que a noite é eterna até o dia nascer. O espaço estará decorado com animais e seres marinhos, peluches e insufláveis, todos em rosa, como convém, e a entrada custa entre 15 e 20 euros.

Trata-se de uma “festa sem preconceitos à qual todos são bem-vindos”, definem os organizadores, segundo os quais a edição do ano passado, dedicada ao festival da Eurovisão, bateu o recorde de entradas numa festa gay em Portugal, com 1.300 bilhetes vendidos.

Temos um público que normalmente não sai à noite e que prefere guardar-se para uma noite especial”, explica Jesus Miranda, de 35 anos, promotor português da We Party. “Não há datas fixas, mas normalmente fazemos uma ou duas festas por ano, muito diferente do que acontece em Espanha, onde há uma edição por mês. Como a marca é conhecida internacionalmente, as pessoas aderem e ficam curiosas. Sabem que vão encontrar caras novas, que temos sempre uma decoração especial e que o ambiente é muito diferente daquele que encontram noutros espaços noturnos.”

A ideia de importar a We Party surgiu há cinco anos, por via da amizade entre Jesus Miranda e Victor Pallas, responsável pela festa-mãe espanhola – que também já se espalhou a cidades como Genebra, Antuérpia, Tel Aviv e Bogotá. “Somos amigos há mais de 10 anos, quando ele ainda nem era empresário, e um dia lembrei-me de trazer a festa para Portugal. Não tinha experiência na área, mas ele ajudou-me”, recorda o promotor.

No ainda pequeno mercado LGBT lisboeta, com poucas centenas de pessoas a saírem à noite todas as semanas, as festas temáticas têm conhecido altos e baixos, mas é provável que estejam para ficar. Começaram em força quando o país passou a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a partir de junho de 2010. O debate público sobre o tema terá levado a uma vivência mais aberta das orientações sexuais e identidades de género e isso teve consequências na noite. É possível traçar um resumo.

Do Arraial Pride à Conga Club

Durante anos, tinha existido apenas o Arraial Lisboa Pride, organizado pela associação ILGA Portugal para celebrar o Dia Internacional do Orgulho LGBT, a 28 de junho. A festa chega este ano à 23ª edição e está agendada para 22 de junho, no Terreiro do Paço. Só depois veio a Lesboa Party, entre 2006 e 2017, um evento para o público feminino, da responsabilidade de Vanessa Cotrim, com primeira edição na Gare Marítima de Alcântara e despedida no Mercado da Ribeira, em dezembro de 2017.

Em setembro de 2008, surgiu a Sparkling Party, de Pedro Bugarin, que procurava reviver em Lisboa a movida LGBT de outras cidades europeias. Estreou-se na praia da Bela Vista, na Caparica, e terminou no Instituto Superior de Agronomia, em 2010. A seguir, Mariana Carvalho apresentou à cidade a Íntima Party, em outubro de 2009, que começou por decorrer no Bric-a-Bar (atual discoteca Construction, no Príncipe Real). Uma proposta feminina que acabaria por evoluir para festa privada e erótica, tendo durado até 2014.

A próxima festa Kiss and Bite acontece no bar Corvo, no Príncipe Real, dia 14 de maio @ Facebook Kiss and Bite

Com a abertura registada a partir de 2010, a discoteca Lux passou a apostar em noites com o coletivo britânico Horse Meat Disco, que passava êxitos disco sound, bem como na recriação das festas “queer” de Berlim CockTail d’Amore. No bar Lounge, do Cais do Sodré, Mário Valente criou em 2012 A Night Out With the Hard Ones para um público abrangente, mas sobretudo masculino (há uma edição nesta sexta-feira, a partir das 23h00).

À margem do negócio organizado da noite, das casas já estabelecidas, nenhum projeto teria tanto êxito quanto a Conga Club, nascida entre um grupo de amigos. Primeiro, no bar Etílico, em junho de 2011, depois numa sucessão de espaços, até terem conquistado os hábitos de muitos lisboetas e não só. O ambiente informal, a forte divulgação nas redes sociais com vídeos “kitsch” alusivos a cada festa, as fotos no Facebook a seguir a cada edição, a música comercial no bar e a menos comercial na pista de dança – terão sido as razões da popularidade.

A colher frutos do entusiasmo que então se vivia, a conhecida discoteca Trumps criou a sua própria festa (Society) e importou outras do país vizinho (Matinée e Beyond), caminho também seguido pelo Construction. Uma outra festa se implantou, Spit & Polish, que chegou a apresentar Andy Butler, de Hercules & Love Affair, na discoteca Ministerium, mas teve escassas edições entre 2015 e 2017. Esse foi também o ano em que a Conga se retirou subitamente de cena, na passagem de ano para 2018.

“Depois de sete anos ininterruptos, com festas quase todos os meses, precisámos de parar e repensar as coisas”, conta Pedro Figueiredo, um dos mentores da Conga. “Podemos voltar, num formato ligeiramente diferente, tudo depende de encontrarmos um espaço que corresponda às nossas expectativas”, adianta.

[vídeo de promoção da festa Conga em 2015]

“As pessoas precisam de se sentir desafiadas”

Com maior ou menor visibilidade, os projetos continuam a surgir, o que talvez signifique que ainda vivemos a fase das experiências, na busca de modelos que resistam. No verão passado, o DJ Zecka Pinheiro passou a organizar no bar Europa a Pink Monday, e em março deste ano surgiu, a Sapataria, festa secreta de que se desconhecem pormenores.

Entretanto, estabeleceu-se a Kiss and Bite, com primeira edição em fevereiro no bar Maria Caxuxa, no Bairro Alto. É uma ideia de Vasco Rosa, de 30 anos, que pretende realizar uma Kiss and Bite duas vezes por mês, para já em bares frequentados pelo público homossexual e mais tarde, se o conceito crescer, em discotecas ou locais improváveis (a próxima é na terça-feira, dia 14, no bar Corvo, no Príncipe Real).

As pessoas recebem uma máscara à entrada e os telefones não podem entrar”, explica Vasco Rosa, acrescentando que o conceito ainda não é definitivo. “Há quem pense que é uma festa de sexo, mas não é. Pode haver erotismo, as pessoas estão à vontade, mas com noção. A ideia de estarmos sem telefone partiu da constatação de que andamos todos muito dependentes das redes sociais, mesmo quando saímos à noite, e o que se pretende aqui é a conversa e o encontro cara a cara, sem a bengala do telemóvel.”

Na opinião de Jesus Miranda, “há muita gente a tentar entrar no mercado das festas, mas obviamente Portugal não tem a população LGBT de Madrid, Londres ou Paris”, o que significa que o mercado é pequeno. E isso poderá explicar a vida mais ou menos efémera destes eventos noturnos e a reduzida dimensão de alguns. Vasco Rosa, por outro lado, defende que “o público existe em potencial, mas não tem tido a oferta necessária”, preferindo por isso os bares e discotecas a que já se habituou ao longo dos anos. “As pessoas são céticas e precisam de se sentir desafiadas por novas festas e novos formatos”, acredita.

Para Pedro Figueiredo, “o país é um pouco refém dessa falta de escala em várias áreas, não é só o mercado LGBT que é pequeno”. No caso das festas, elas tendem a ter ciclos de vida curtos, porque o público “procura sempre a última novidade” e esse “é um dos grandes desafios”, afirma.

À margem desta realidade, vista por alguns como uma abordagem comercial às identidades LGBT, situa-se uma outra festa recente: Mina, com origem na cultura techno, à procura de um público jovem adulto que não se revê em espaços considerados mainstream. Em dois anos, a Mina já teve 16 edições, algumas com várias centenas de pessoas, sendo herdeira das festas Rabbit Hole, entretanto transformadas em plataforma de curadoria e produção artística. Começou por ter lugar no histórico bar Fontória, na Praça da Alegria, e assume um posicionamento político face à vivência da noite.

As festas Mina arrancaram no velho Fontória. Em dois anos somam 16 edições. O encontro mais recente foi a 25 de abril @ Facebook Mina

Os responsáveis, que preferem falar em nome coletivo e não individual, defendem que “a club scene em Portugal é bastante apolítica”, enquanto a Mina se preocupa com “lutas importantes”, como presença de mulheres DJs ou o acesso às festas por parte de pessoas que não vivem o género masculino ou feminino de forma tradicional. “Também tentamos resolver eventuais conflitos dentro das festas sem recurso a violência, através de mediação”, informam.

A Mina acontece em diversos locais da cidade, de que os participantes tomam conhecimento de véspera, e à porta existe uma seleção, por vezes contestada pelos frequentadores, com o objetivo de “garantir que todas as pessoas que entram se respeitam umas às outras”. A última Mina teve lugar a 25 de abril e ainda não há data de regresso.

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