Cabo Verde

Nobel da Paz Muhammad Yunus defende “banco para os pobres” em Cabo Verde

O economista e vencedor do Prémio Nobel da Paz em 2006 Muhammad Yunus, reconhecido pelo seu sistema revolucionário de microcrédito, defendeu em Cabo Verde a criação de um "banco para os pobres".

ALESSANDRO DI MARCO/EPA

Autor
  • Agência Lusa

O economista e vencedor do Prémio Nobel da Paz em 2006 Muhammad Yunus, reconhecido pelo seu sistema revolucionário de microcrédito, defendeu em Cabo Verde a criação de um “banco para os pobres” neste país.

“Existem bancos atualmente, mas para ricos. Os bancos para os ricos não providenciam serviços para os pobres, não foram desenhados para isso”, disse Muhammad Yunus em entrevista à agência Lusa, na cidade da Praia, onde se encontra a convite do primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva.

Muhammad Yunus, que em 1976 criou no Bangladesh o Banco Grameen, que empresta pequenas quantias sem exigir garantias, papéis ou identificação, após perceber que os bancos se recusavam emprestar aos mais pobres, afirmou estar muito satisfeito por visitar pela primeira vez Cabo Verde que, para ele, é “um país novo”.

O arquipélago é também habitado por relativamente poucas pessoas, pouco mais de meio milhão, o que “torna muito mais fácil o contacto pessoa a pessoa”, notou.

Em Cabo Verde, Muhammad Yunus encontrou os mesmos problemas que afetam tanto os grandes como os pequenos países e, por isso, defende a mesma solução.

“Tento explicar como podemos mudar a vida das pessoas”, declarou, acrescentando: “Se vamos pelas mesmas velhas partes, pelos mesmos velhos caminhos, acabamos por ter os mesmos resultados e se não estamos contentes com os resultados, temos de encontrar novos”.

Para o economista, “os velhos sistemas não estão a funcionar” e, por isso, apostam em “experiências absolutamente novas”, como as que se encontra a partilhar neste país africano com “uma posição estratégica”.

Sobre o microcrédito, referiu que se trata de “um sistema financeiro para as pessoas que estão fora do sistema financeiro, pessoas que sofrem, que não conseguem ter um ponto de partida”.

“Precisas de um dólar para ganhar outro dólar. Esse primeiro dólar não é dado a uma pessoa pobre ou com rendimentos baixos. O sistema de microcrédito dá esse primeiro dólar para depois a pessoa ganhar mais um dólar e mais um dólar e mais outro”, explicou.

Esta é uma resposta a um problema que não é exclusivo de nenhum país.

“É um problema mundial, por isso temos o sistema [de microcrédito] nos Estados Unidos, onde há o mesmo problema”, observou.

Nos Estados Unidos da América, existem “os maiores bancos do mundo” que lidam com “os mais ricos e com mais dinheiro, mas que não tocam a vida dos mais pobres”, prosseguiu.

O sistema também é resposta em França, Itália, Noruega, Reino Unido. “É um novo sistema financeiro”, realçou, defendendo a criação de um banco para os pobres em Cabo Verde, tal como para qualquer outro país.

“Os bancos para os riscos não providenciam serviços para os pobres, não foram desenhados para isso”, insistiu, apelando: “Temos de criar um banco que providencie esses serviços”.

Na sua opinião, “o Governo não pode continuar a dar dinheiro às pessoas para resolverem os seus problemas”.

“As pessoas têm de resolver os seus problemas e o Governo proporcionar um sistema que garanta a sua sustentabilidade”, considerou.

Antigo professor de Economia, Muhammad Yunus recebeu o Nobel da Paz em 2006 pelos esforços para retirar populações da pobreza extrema, concedendo-lhes pequenos empréstimos.

Em 2016, as instituições de microfinanças de natureza associativa em Cabo Verde serviam 11.703 clientes, com uma carteira de crédito de 600 milhões de escudos cabo-verdianos (cerca de 5,4 milhões de euros).

O Governo de Cabo Verde aprovou a primeira lei de enquadramento da atividade de microfinanças em 2007.

Dados da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças de Cabo Verde indicam que, em 2009, realizaram-se 52 mil operações, totalizando mais de três milhões de escudos (27 mil euros), com 8.481 clientes ativos (75% mulheres) e uma carteira ativa de 442 milhões de escudos (4 milhões de euros).

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