O Ciudadanos é um partido demasiado jovem para ter uma crise de meia-idade, por isso chamemos ao atual período um momento de definição, como aqueles que surgem na adolescência de qualquer um.

Nos seus 14 anos de vida, o Ciudadanos já foi vários partidos.

Quando surgiu na Catalunha, em 2005, era um partido unionista e social-democrata, agindo na mesma área dos socialistas catalães que, então, se aproximavam de um catalanismo que não tardaria a chegar a independentismo. Quando saltou para o panorama nacional, nas eleições de 2015, o Ciudadanos passou a ser um partido de centro e liberal, com uma mensagem fortemente anticorrupção — e depois dos resultados foi o único a estender a mão ao PSOE de Pedro Sánchez para que este formasse governo.

Mais tarde, com o pico da crise na Catalunha, o Ciudadanos redobrou o seu unionismo e dentro do Congresso dos Deputados foi o primeiro partido a exigir a aplicação do Artigo 155, para assim suspender a autonomia da região. Com a chegada de Pedro Sánchez ao poder, em junho de 2018, o Ciudadanos chegou-se como nunca à direita e assumiu-se como adversário inconciliável do PSOE e de Pedro Sánchez. Isto levou o partido a firmar acordos com o PP e também com o recém-chegado Vox para formar governo em regiões como Andaluzia, Murcia ou a Comunidade de Madrid.

O Ciudadanos ficou em terceiro nas eleições gerais (15,9%) e está em posição de permitir um novo governo do socialista Pedro Sánchez — mas, até agora, tem negado sempre essa possibilidade (Eduardo Parra/Getty Images)

Cada um destes momentos, desde a fundação às alianças com o PP e com o Vox, aconteceram sob uma única liderança no Ciudadanos: Albert Rivera. E é precisamente a sua liderança, e esta última fase, que estão no centro da mais recente e maior crise interna dentro do partido naranja.

Os alertas soaram esta segunda-feira quando, ao contrário do que é habitual, Albert Rivera chegou com quase uma hora de atraso à reunião da comissão executiva do partido, que junta 36 militantes de topo do Ciudadanos. Enquanto Albert Rivera tardava a chegar, conta o El País, já a notícia se tinha espalhado: Toni Roldán, deputado e porta-voz para assuntos económicos do Ciudadanos, demitira-se da direção permanente do partido, o órgão mais alto daquela formação.

Além desta demissão de peso, houve também outras movimentações. Javier Nart, eurodeputado, renunciou ao seu cargo na comissão executiva — mas continuará em Bruxelas como deputado do Ciudadanos. Depois, a nível regional, os líderes do Ciudadanos em Múrcia (Miguel López Bachero) e nas Astúrias (Javier Vázquez) demitiram-se do partido .

Mas foi mesmo a saída de Toni Roldán que se deu com mais estrondo, até porque o porta-voz para as questões económicas do Ciudadanos coroou a sua saída com uma conferência de imprensa. “Não me vou embora por eu ter mudado, mas sim porque o Ciudadanos mudou”, disse.

Ali, deixou várias críticas à recusa de Albert Rivera de negociar com o PSOE de Pedro Sánchez, vencedor das eleições de abril deste ano, que apesar das tentativas ainda não conseguiu formar novo governo. “Os bons políticos não são os que mais lutam entre si, mas sim aqueles que são capazes de colocar os interesses do país acima dos interesses do partido”, disse Toni Roldán, que mais à frente referiu ser “um grande erro” não aproveitar  “um oportunidade histórica” para formar um governo “estável”.

Sobre a guinada à direita do Ciudadanos, Toni Roldán lamentou ainda: “Viemos para ultrapassar a dinâmica entre vermelhos e azuis e convertemo-nos em azuis”. E acrescentou: “Não somos capazes de fazer frente à extrema-direita”.

Albert Rivera não desvia o rumo

Apesar do abalo, os relatos que surgem na imprensa espanhola demonstram que o Ciudadanos de Albert Rivera não vai desviar-se do atual rumo: negociar sem exceções à sua direita e negar um novo governo a Pedro Sánchez.

Albert Rivera irá sustentar essa postura no resultado da votação da comissão executiva, que deixou claro que o “não” a um novo governo de Pedro Sánchez é irredutível. Essa foi a opção escolhida por 24 membros da comissão executiva, contra apenas quatro que preferem negociar com o PSOE e outros três que se abstiveram.

Segundo fontes do Ciudadanos disseram ao El Español, esses números dão força suficiente a Albert Rivera para manter o atual rumo — e existe nos círculos mais altos do partido a convicção de que poderá haver mais demissões, mas nenhum em cargos com peso. “Podem cair mais alguns, especialmente aqueles que tinham esperança de chegar ao poder e que viram que foram prejudicados pela renúncia a pactuar com o PSOE”, disse uma fonte do Ciudadanos àquele jornal.

De França, nem bom vento nem bom casamento?

As demissões desta segunda-feira surgiram uma semana depois de Manuel Valls, ex-primeiro-ministro de França e candidato à câmara de Barcelona pelo Ciudadanos, ter cortado relações com o partido de Albert Rivera por este demonstrar a sua disponibilidade em firmar novos pactos com o Vox.

Acusando o Ciudadanos de estar numa “deriva grave”, Manuel Valls, o ex-socialista que tem nacionalidade francesa e também espanhola, disse: “Quando há um ano vim para Barcelona, o Ciudadanos era um partido liberal, progressista, europeísta e de centro, mas pouco a pouco o partido com o qual partilhei tatnas coisas converteu-se em algo diferente. O Ciudadanos converteu-se num partido que agora pacta com uma formação reacionária e anti-europeia. Não vale esconder-se atrás do PP”.

Manuel Valls concorreu pelo Ciudadanos à câmara de Barcelona. No final de contas, o ex-primeiro-ministro francês não passou do quarto lugar, com 13,24% (QUIQUE GARCIA/EPA)

A esta polémica seguiu-se logo outra, aquando da chegada de Albert Rivera a Bruxelas, para uma reunião do ALDE, a família política dos partidos liberais, na qual se inserem, entre outros, o Ciudadanos e o República Em Marcha de Emmanuel Macron. Quando lhe perguntaram se tinha recebido reações negativas por parte dos outros partidos liberais da Europa em relação às alianças do Ciudadanos com o Vox, Albert Rivera respondeu categoricamente que não — e até acrescentou que Emmanuel Macron o tinha felicitado por esses mesmos pactos.

“Falámos diretamente como Eliseu e disseram-nos precisamene o contrário. Apoiam os nossos pactos, até nos felicitaram, tanto pela Andaluzia como pelos pactos que temos vindo a conseguir. Hoje é um dia de celebração para os liberais, somos mais e vamos tecer mais laços, para sermos ainda mais fortes. E, para lá dos diz-que-disse, a realidade é essa: os liberais estão mais unidos”, garantiu Albert Rivera em Bruxelas.

Ora, pouco depois destas afirmações, a própria presidência de França desmentiu que tenha havido qualquer felicitação a Albert Rivera. Em declarações ao El Mundo, uma fonte do Eliseu negou ter havido qualquer felicitação daquela parte aos pactos entre o Ciudadanos e o Vox: “É uma informação errada. O Presidente [Emmanuel Macron] não pronunciou essas palavras nem em privado nem em público”.

Preso por ter e preso por não ter — Vox afasta-se do Ciudadanos e do PP

Se as críticas à liderança de Albert Rivera parecem abundar na ala mais liberal do partido e também à esquerda, o mesmo também já se pode dizer dos setores à direita do Ciudadanos — mais concretamente, o Vox.

Esta terça-feira, o Vox insurgiu-se contra o Ciudadanos, por este ter firmado com o PP que nalguns casos (entre governos regionais e autarquias) só aceitaria pactar com aquele partido de extrema-direita caso este não tivesse acesso a cargos políticos de primeira linha.

O Vox reagiu a este impedimento puxando o tapete aos seus dois parceiros de direita. “O Vox dá por quebrado os acordos em todos os sítios em que este tenha sido incumprido e passará à oposição”, disse Iván Espinosa, porta-voz do Vox no Congresso dos Deputados. Entre estes casos, está a Comunidade de Madrid, onde o popular José Luis Martínez-Almeida já tomou posse — mas que precisará dos votos do Vox para garantir a governabilidade daquela região.

Iván Espinosa referia-se ao acordo firmado entre PP, Ciudadanos e Vox a 15 de junho e que, após a renúncia apresentada esta terça-feira, o Vox divulgou publicamente. Nquele acordo, as partes comprometiam-se a “impedir governos de esquerda” e por isso a formar “governos de coligação” em que os cargos para o Vox seriam atribuídos em “proporção com os resultados eleitorais obtidos em cada população”.