Chama-se Amor Luso e é uma declaração de afeto pelos valores, saberes e tradições de Portugal. Um projeto de saboaria artesanal no coração de Viseu focado na sustentabilidade e na simbiose entre produtores locais e a comunidade. Uma união autêntica de parceiros locais que fez a força quando, há dois anos, em plena tragédia nacional, este Amor e os seus pequenos fornecedores do sector primário, em conjunto com uma equipa de artistas e artesãos, se viram a braços com um dos momentos mais críticos da sua história, já que todo o concelho foi fortemente afetado pelos fogos de outubro de 2017.

Não fosse a resiliência e a perseverança desta cadeia de produção intimamente ligada entre si, talvez, volvida esta dura fase, Vítor Rodrigues, o mentor do projeto, não assistiria, por estes dias, a uma procura cada vez maior dos seus artigos de cosmética orgânica e natural, feitos apenas com ingredientes naturais, provenientes de cooperativas de apicultores e negócios familiares como o Abelha Azul ou os rebanhos de cabras serranas jarmelistas propriedade duma pequena família, em Tondela. Ou a Quinta de Perdigão para os sabonetes de vinho.

O momento do corte dos sabonetes. A gama de produtos inclui ainda óleos essenciais e até artigos de barbearia em formato tradicional © DR

Na base de todos os produtos do Amor Luso que incluem várias coleções de sabonetes, óleos essenciais e até artigos de barbearia tradicional ou manteigas corporais, Vítor Rodrigues só trabalha com matérias-primas da região, a acrescentar ainda o azeite de oliveiras Galegas e as plantas aromáticas. Enquanto que na indústria convencional a preocupação é em manter a matéria-prima o mais barata possível, a preocupação primeira deste designer industrial formado em Coimbra, é garantir que a alta qualidade dos seus artigos só existe norteada pelo apoio aos pequenos produtores locais do sector primário da sua região. Na altura da catástrofe, Vítor prolonga a vénia à “coragem” dos pequenos produtores que conseguiram reconstruir e trabalhar e ter muita, muita força. “Foi a altura pior, a maior parte perdeu tudo, no caso do mel, foram cerca de 500 colmeias destruídas e muitos animais perdidos, muito pasto ardido, houve aqui histórias de entreajuda incríveis, entre pequenos pastores, veterinários, médicos e os próprios animais”, revela. O resultado é único e merece a atenção. Até porque não é um simples projeto de cosmética portuguesa natural e orgânica, é muito mais do que isso.

As cabras sobreviventes de Tondela

15 de outubro de 2017. Era de madrugada e Madalena correu ao estábulo. Salvou todas as que podia salvar mas ainda assim mais de 100 cabras perderam a vida e muitas ficaram feridas ou morreram mais tarde devido à inalação de fumo. A sala de ordenha também ardeu, grande parte da propriedade foi destruída e o pasto reduzido a pó preto. Mais de metade do rebanho se perdeu na altura crucial do pico da ordenha, com as cabras cheias de leite, entre as montanhas da Serra da Estrela e do Caramulo. Houve medidas drásticas a tomar para quem cerrou os dentes à tragédia e insuflou a vontade e a coragem para reerguer o quotidiano da quinta (já de si exigente) na freguesia de Ferreirós do Dão, em Tondela, nesse outubro trágico de 2017. O desânimo invadiu os dias e pensou-se em baixar os braços, mas ninguém estava preparado para desistir. “Tivemos de secar as cabras sobreviventes, no pico do leite, porque não tivemos condições para as ordenhar. Ainda hoje, há animais que só vão dar rendimento daqui a um ano, foi uma altura muito difícil”, conta ao Observador Vicente Alves, mentor do projeto Quintas de Tondela, o ganha-pão da família beirã que já conta com o filho Tomás, 21 anos, a querer seguir as pisadas dos pais, “porque adora isto e esta vida no campo, isto é um bichinho que vai ficando”, revela o progenitor. “Sempre vivi entre vacas e ovelhas e um dia decidi comprar uma cabra e olhe, começou assim”.

Por esses dias duros de há dois anos, na tragédia dos incêndios, houve “gente muito boa” que ajudou a família a levantar-se, a preparar as cabras, a despertar às 5h para as ordenhar e a sair por volta das 7h para as pastorear, na implacável rotina de todos os dias. Quando falámos ao telefone, estavam a regressar para “tomar a sesta”. “É uma vida dura, exige uma grande dedicação, dentro do horrível, tivemos muitos amigos até hoje”, conta Vicente, descendente de agricultores. O leite de cabra que vende para as queijarias industriais da zona é de alta qualidade e para tudo funcionar, conta a humilde paixão de trabalhar a terra, “o vínculo que se ganha aos animais, temos de estar sempre perto delas” e o respeito pela matéria-prima cujo resultado é certificado em leite e queijo de cabra de alta qualidade. Os sabonetes de leite de cabra do Amor Luso continuaram sempre a ser fabricados com o leite das cabras sobreviventes dos fogos que não devoraram o que de melhor se salvou: a solidariedade entre pessoas e parceiros locais.

Não faltam motivos de inspiração para as diferentes linhas, da fauna da região envolvente a referências como os Santos Populares © DR

Simplicidade e sabedoria local

O mentor e fundador do Amor Luso, fundado em 2013, uniu o saber académico e a formação em Design Industrial, em Coimbra, ao conhecimento das gentes das aldeias ao redor de Viseu. Ainda na universidade, fazia o levantamento de culturas e métodos tradicionais – também nas áreas da agricultura e artesanato – quando percebeu a importância da história da saboaria em Portugal, e, decidiu ir à procura das origens dos sabões mais primitivos, um património raro e autêntico que lhe serviu de base para as primeiras receitas. “Em cada aldeia, havia uma pessoa que sabia fazer sabão, tinha essa arte, e depois fazia o sabão para a comunidade toda lavar o corpo e a roupa”, conta.

Foi então a partir dessas receitas ancestrais que Vítor Rodrigues e a sua equipa puseram mãos à obra e criaram o Amor Luso, descobrindo que os primeiros sabões eram feitos de restos de cinza de carvão e gordura animal, a partir dos testemunhos orais dos guardiões dessas memórias. “As pessoas aproveitavam a gordura nos churrascos e faziam uma espécie de barrela com as cinzas, também usavam muito banha de animais”, revela o artesão. “Antigamente, era impensável colocar num sabonete, mel, leite de cabra, vinho até, eram produtos demasiado nobres para serem utilizados em sabão”.

Do conteúdo à forma, o packaging, cuidado, não é esquecido em todo este processo © DR

E o segredo da marca é mesmo esse: manter a simplicidade, reviver a cultura e perpetuar a sabedoria regional. “No fundo, queremos valorizar a humanidade e a simplicidade da vida”, salienta Vítor Rodrigues, comprovando que apesar de a indústria ter dominado o mercado, “um modelo empresarial artesanal ainda é a melhor alternativa para o equilíbrio e respeito de todos os seres vivos”. E nota a crescente procura nos últimos anos, com vários pontos de venda no país e com vendas online muito em breve. Com o apoio de artistas portugueses que ilustram as embalagens inspirados na natureza, na cultura e tradições locais, todo o papel que usam é de origem nacional e com certificação da proveniência de florestas controladas/sustentáveis, sendo, na sua maioria, reciclado.

No seu atelier, no coração de Viseu, é o único homem numa equipa de cinco, onde todos fazem um bocadinho de tudo, desde o corte à embalagem, ao manuseamento de óleos e sais. Ainda assim, o fabrico dos sabonetes é-lhe mais circunscrito, juntamente com a mulher Filipa, farmacêutica de formação. “É difícil arranjar aqui gente para trabalhar comigo, isto requer muita dedicação e muito gosto, é um trabalho muito manual”. O atelier do Amor Luso situa-se em Viseu e tem uma parede de vidro de 18 metros para que se possa ver tudo a acontecer. Vítor e a mulher já formaram duas artesãs na área da saboaria e preparam regularmente oficinas e workshops para quem quiser saber mais sobre uma área em expansão, também por questões ambientais, devido ao combate às embalagens de plástico. E o designer industrial adianta que não é assim tão difícil aprender a fazer sabonetes em casa.