Nas águas do Estoril, deu as suas primeiras braçadas. Subiu para a prancha de surf, caiu e recuperou da queda até conseguir estabilidade sobre as ondas. Pouco a pouco, Domingas Mendia, hoje com 25 anos, conquistava aquele mar que foi sempre o quintal da sua casa em Portugal. E por imaginar que um dia atravessaria a imensidão azul até à América do Sul, fê-lo. Não de prancha, mas sim de veleiro, ao lado de um “lobo-do-mar”.
Domingas considerava que chegar ao hemisfério sul de avião seria banal. Uma travessia de barco parecia mais atraente para quem estava “em busca de aventura”. Ao conversar com o “amigo, de um amigo, de um amigo”, chegou até um experiente velejador: o açoriano Norberto Serpa. “Tivemos uma conversa de trinta segundos por telefone e ele convidou-me para fazer a travessia com ele. Pensei: ‘é só isso?’”, ri-se. Antes de chegar a este contacto, esteve a investigar as possibilidades. “Como encontrar um capitão sem ser sequestrada?”, perguntou-se.
“Fui à Marina de Cascais umas quantas vezes conhecer pessoas, mas cheguei até ao nome do Norberto depois de a minha irmã ler um artigo sobre ele, em que dizia estar a planear chegar ao Brasil de barco”. Não era uma viagem turística ou contratada – juntava-se ao barco ao longo do caminho os amigos e amigos dos amigos de Norberto, que não lhes cobrava nada pela travessia.
O início da jornada deu-se pela insatisfação com a empresa de investimentos onde estava a trabalhar. Domingas [que estudou Administração e Gestão de Empresas na Universidade de Exeter, no Reino Unido] conta ao Observador que decidiu deixar a sua função para embarcar numa viagem sem roteiro definido – e sem data de regresso. “Sempre soube que ia fazer uma grande viagem na vida e os meus pais sempre nos incentivaram, a mim e aos meus dois irmãos, a conhecer o mundo”, diz. A família ficou mais tranquila ao saber que a jovem iria viajar com alguém experiente e com amigos em comum.
Apenas concordaram com a partida para a tal aventura, no entanto, depois de Domingas construir uma carreira profissional e conquistar liberdade financeira para passar um período indefinido sem trabalhar. “Estava muito cansada, já não estava feliz no meu emprego”, diz. “É difícil estar confortável num trabalho, ter um bom salário, e sair para o nada”.
▲ Dos 90 dias de viagem, 30 foram passados no mar
Tal como fazia nas aulas de surf no Estoril, Domingas queria levar esta experiência com calma e sem pressão. “Sempre gostei de desportos, mas nunca gostei muito de competir”, admite. Competir com o calendário, então, nem pensar. “Disse aos meus pais que queria ir sem data para voltar, sem planear cada passo e com liberdade para fazer o que eu quisesse”.
A Austrália foi o primeiro país que veio à cabeça quando decidiu deixar o emprego. Mas o facto de ser um ponto já com “rotas bem definidas” pelos viajantes acabou por ser o fator de exclusão. “Eu não queria ir para o destino mais fácil. Queria mesmo era o mais difícil”, afirma. A escolha acabou por ser uma longa estada em países da América do Sul, onde já havia estado em viagens anteriores – mas não sozinha, nem com a pitada de aventura que agora estava à procura. “A cultura e energia das pessoas é tão diferente!”, recorda. “Também gostava de aperfeiçoar o meu espanhol, e sei que quando se fala o idioma do país é mais fácil conectar com as pessoas”.
Ao lado de Serpa, partiria da ilha do Faial, nos Açores, para cruzar o Atlântico a bordo de um veleiro. Devido às condições climáticas, a viagem que estava prevista para acontecer em poucos dias foi adiada um mês. Não era este um problema para quem não tinha um roteiro desenhado. Enquanto ainda estavam próximos da terra, teve então a oportunidade de ajudar o capitão a preparar o barco para a longa navegação, aprendendo tarefas de carpintaria e polindo os geradores. Acabou por conhecer a casa das máquinas do veleiro “melhor do que um mecânico”, afirma. “Foi um mês muito enriquecedor”.
A viagem dos Açores para o Brasil incluía algumas paragens. A aventura que estava à procura encontrou-a logo na primeira semana a bordo do veleiro, a caminho da Madeira. E a aventura, que tinha nome, apresentou-se em alto-mar: tempestade Cláudia. “Foi muito agressivo. Eram ondas de até oito metros e ventos de 140 quilómetros por hora”, recorda. “Achava que ia morrer, que o barco ia virar”.
O susto logo a caminho do primeiro porto em que atracaram deu-lhe fôlego para seguir adiante. “Depois daquilo, sabia que aguentaria qualquer coisa”. Norberto, descrito por Domingas como um também aventureiro que adora viajar, havia marcado de encontrar com a família nas Canárias. Foi onde avistaram “uma vida marinha com muita força, muito bonita”. Estiveram nas ilhas da Graciosa e Gran Canária antes de partir para Cabo Verde. Domingas não perdeu a chance de “surfar boas ondas”.
Nos seis dias de viagem entre o arquipélago espanhol e o africano, a tripulação de seis pessoas foi seguida por golfinhos. “Estavam sempre ao pé da proa do barco, todos os dias”. Estiveram nas ilhas cabo-verdianas por um mês, onde Domingas acabou por ajudar a organizar tours de mergulho com apneia. O mar calmo e cristalino, no entanto, viria a ser deixado para trás no início do mês de janeiro, quando seria feita a travessia mais longa de toda a viagem.
“É difícil mentalizar que iria levar dez dias para fazer uma viagem que se faz em oito horas de avião”, diz. “Poucas horas após deixar Cabo Verde, estávamos no meio do nada, sem terra à vista no horizonte”.
Ficar aborrecida durante tanto tempo a bordo após três meses entretida com tantas novidades em cada sítio em que soltavam a âncora era o receio de Domingas. “Mas o tempo no barco passa de uma forma diferente”, conta. “Eu acordava cedo para aproveitar a luz do dia, fazia o meu pequeno-almoço com calma, comia, escrevia, pintava”, diz. “Foi a experiência mais incrível que eu tive na minha vida. Foi espetacular. Tudo o que víamos no trajeto, como os animais marinhos, tornava o dia especial”.
▲ Domingas levou uma tenda para dormir nas cidades onde se sentia segura
DR
O regresso a terra firme foi triunfal: o arquipélago brasileiro Fernando de Noronha, a cerca de 400 quilómetros do continente. “Chegámos com golfinhos a rodopiar à volta do barco”, recorda o momento, que celebraram a abrir uma garrafa de vinho. A sensação deste regresso a solo foi “muito estranha”: “As minhas pernas pareciam gelatina de tanto que eu tremia ao dar os primeiros passos”, descreve. A chegada ao continente deu-se na cidade do Recife, de onde seguiram depois até Salvador, na Bahia. E ainda navegaram até ao arquipélago de Abrolhos, o primeiro Parque Nacional Marinho do Brasil e um dos principais berçários de baleias-jubarte do Atlântico Sul.
A chegada ao Rio de Janeiro num dia de carnaval marcou o fim da travessia de Domingas na companhia de Norberto. Da partida dos Açores até à chegada ao Brasil foram três meses de navegação com paragens. Destes cerca de 90 dias, 30 foram no mar. Para um viajante tradicional – que reserva hotéis, bilhetes aéreos e organiza itinerários ao pormenor – já teria sido esta uma grande aventura. Para Domingas, era só o começo.
A jovem que “tinha viajado muito pouco sozinha” na vida seguiria agora sozinha pela América do Sul. “Eu estava com muito medo, mas não sabia de quê”, revela. O sentimento logo foi afastado pelo aconchego dos abraços de amigos que esteve a encontrar pela estrada – e também das novas amizades que iam surgindo. “Encontrei no Rio um amigo que é ‘ainda mais maluco que eu’”, ri. “Cruzou o oceano Atlântico a remo em 54 dias”. Juntaram-se para conhecer Ilha Grande (no Rio de Janeiro) e Paraty – cidade à beira-mar com arquitetura colonial.
▲ No Atlântico, pescou peixes mahi mahi com a tripulação
Um dos principais detalhes da viagem acabou por não ser revelado aos pais: a ideia de deslocar-se apenas à boleia de desconhecidos. Domingas fazia tal como nos filmes: parava numa estrada ou estação de serviço a perguntar onde iriam outros viajantes e camionistas. Seguia com estes para o destino que fossem. “Nestes momentos eu adorava ter mais medo, mas infelizmente não tinha, estava com um instinto de sobrevivência”. As situações de desconforto, conta, deram-se no Peru, em dois momentos distintos em que foi assediada por camionistas. Ao ignorar a investida de um destes, foi deixada “numa estrada escura, do nada, às dez da noite”. Ao acenar para um carro de polícia que entretanto viria a passar naquela zona, foi levada até uma área de serviço, onde conseguiu erguer a sua tenda.
Para além das boleias, conseguiu também quintais para acampar, sofás e até mesmo casas vazias que estavam sem uso pelos donos em cidades turísticas em baixa temporada. Com a ajuda de quem conhecia ao longo do percurso sem rota definida, conseguiu deslocar-se e dormir sem gastar muito dinheiro. Durante um ano de viagem, revela, gastou dois mil euros. Conseguiu poupar e concentrar a poupança que tinha para situações de emergência, como alojamentos de baixo custo em cidades fronteiriças onde não se sentia segura para dormir em sítios informais. Das mais de 300 noites fora de casa, apenas cinco foram pagas. “Queria conseguir mostrar às pessoas que viajar não é algo caro. Tem é que se estar disposto a viajar desta maneira”.
O regresso deu-se, por fim, na passada terça-feira. A preocupação dos pais com a segurança da viajante que gosta de correr riscos e a cerimónia de casamento de um familiar acabaram por ser o motivo da volta – que não deve ser definitiva. “Sou meio rebelde e de estar no meu desconforto”, admite. “Ter liberdade e coragem deu-me experiências que eu não teria tido numa viagem com datas definidas”.
“Um teto, uma cama e um banho” garantidos trazem conforto, mas não parecem ser para Domingas tão valiosos quanto as experiências que viveu, que considera autênticas. De volta a Londres, onde vive desde 2019, passou por semanas de cansaço físico e mental para se recuperar da falta de rotina, que era repleta de novidades diárias. O próximo destino, para já, ainda não foi definido, mas a partida para qualquer canto deste mundo que ainda não tenha explorado é certa. “É muito difícil voltar de uma viagem tão grande. Sinto-me diferente, sinto que preciso de mais”.