O advogado José Preto decidiu deixar de representar o ex-presidente do Sporting Bruno de Carvalho depois de, à sua revelia, ter sido entregue ao juiz um parecer onde um antigo presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), José Manuel Anes, considera que a acusação de terrorismo não tem cabimento no caso do ataque ao centro de estágio de Alcochete.

A notícia é avançada pelo Diário de Notícias, que cita o próprio advogado, José Preto, quando confirma a intenção de se afastar da defesa do ex-dirigente desportivo por “estar em divergência com algumas coisas”. Mas o advogado não esconde que a principal razão concreta para a decisão é o facto de este parecer ter sido enviado ao juiz de instrução criminal o documento de página e meia, sem seu conhecimento. Foi um outro elemento da equipa jurídica, que tem procuração para representar Bruno de Carvalho, Roberto Silva Carvalho, que enviou o parecer ao juiz.

“Acho grotesco que se entregue um parecer de uma pessoa que não é jurista. Em matéria de direito, um parecer de um não jurista é proibido. Acho imperdoável que o meu ilustre constituinte se tenha deixado manipular desta maneira”, disse José Preto ao Diário de Notícias, acrescentando que lhe tinham “dito que iam pedir [o parecer], mas fui contra e mesmo assim pediram”. Na opinião de José Preto, não faz sentido “estar na defesa dessa pessoa quando não faço ideia do que se passa”.

Bruno de Carvalho, também contactado pelo Diário de Notícias, disse que “o Dr. José Preto renunciou ao mandato por divergência com a estratégia delineada pela restante equipa jurídica. Mantêm-se desde o início na defesa do processo quatro advogados, cada um deles com escritório há pelo menos 20 anos”. Bruno de Carvalho é acusado de dezenas de crimes: 40 de ameaça agravada; 19 de ofensa à integridade física qualificada; 38 de sequestro mas classificados como terrorismo; um de posse de arma proibida agravado.

A versão de um dos cinco advogados que (com Preto) representavam Bruno de Carvalho é, no entanto, outra. Durante um intervalo na primeira sessão de instrução do processo da invasão à Academia de Alcochete, o advogado Miguel Fonseca explicou que o colega José Preto abandonou a defesa de Bruno de Carvalho apenas por discordar com a estratégia discutida pelos cinco advogados que se juntaram para o processo ainda antes de ele ser detido.

Segundo ele, Preto queria que Bruno de Carvalho, caso seja pronunciado, fosse julgado por um tribunal de júri — ou seja, por um júri composto por cidadãos comuns. E os restantes advogados não queriam. “É incorreto dizer que José Preto abandonou o cliente”, disse. O advogado nada disse sobre o parecer que Preto fala.

(Artigo atualizado às 12h20 com declarações de Miguel Fonseca, o advogado que está no Campus de Justiça a representar Bruno de Carvalho na primeira sessão da instrução do processo de Alcochete)