Título: Carlos Porfírio: diálogos do Modernismo
Autores: Fernando Rosa Dias, Cristiana Oliveira Silva e Luís Lyster Franco
Editor: Museu Municipal de Faro
Páginas: 84, ilustradas
Preço: 17 €

Regiões periféricas sempre tiveram dificuldade em afirmar o seu protagonismo cultural, mesmo quando inesperadamente relevante, e cada vez mais o terão numa época em que o centralismo mediático, a agenda de hiper-valorização da contemporaneidade e um ensino sob prioridade ideológica põem em risco a inclusão territorial dinâmica, apesar de meia dúzia de discursos políticos de aparente benevolência e piedosa consternação. Em contraponto, esforços historiográficos locais facilmente se perdem na inércia de regiões derrubadas por uma pasteurização urbana que tudo igualiza, da arquitectura e paisagem às “actividades culturais” (de espalhafatoso “entretenimento”) em vagas de itinerância comercial combinada a alto preço com as autarquias que as acolhem, dando a ilusão — intermitente — de que algo acontece por ali. Neste contexto obscurecido, o que aí possa ser feito de valioso facilmente passa despercebido a uma escala maior, o que penaliza os seus agentes, cujo persistente elogio da Memória terá sempre de ser vivido como uma certa forma de resistência.

O caso do Algarve é por de mais evidente. Não foi definitivamente em Faro que se imprimiu em 1917 Portugal Futurista, mas ali teria tido uma livraria depositária disponível para recebê-lo (o que não é pouco!), e uma carta de Almada e Santa Rita Pintor ao director d’O Heraldo daquela cidade — onde “Litoral” de José de Almada Negreiros e poemas de Mário de Sá-Carneiro apareceram pela primeira vez — “é o único documento do Comité Futurista de Lisboa de que se conhece a existência” (p. 45, nota). Olhão foi crismada por vários autores “vila cubista” em 1921, e ali onde Carlos Ramos arquitectou o primeiro bairro de pescadores de novo tipo Eduardo Viana e Mário Eloy foram pintar em 1922 e 1924, respectivamente, o que António Soares também fizera em Silves, no Verão de 1922 (p. 65). Aliás, a estada algarvia de Viana, “comandante-em-chefe da pintura portuguesa” (sic), foi saudada por Ramos num artigo no Correio Olhanense de 20 de Abril de 1922, que é também um extraordinário elogio de Almada à boa maneira modernista, um documento notável que ficou esquecido até Maio de 2014, quando eu o divulguei na revista Visão. O que pouco antes se inspirara na arte popular minhota, com Sonia e Robert Delaunay em Vila do Conde, focava-se então firmemente nos panoramas físicos e humanos de Olhão, Faro e São Brás de Alportel, um pequeno triângulo no centro do Algarve, inclusive com exposições que também mostraram 20 trabalhos parisienses de Jorge Barradas (v. pp. 59, 62), além de alguns dos acima referidos. “Entre a Exposição dos Independentes de 1923 e o Salão de Outono de 1925, [a Grande Exposição de Arte em Olhão] — diz Fernando Rosa Dias — assumia-se como a grande exposição colectiva de 1924 do modernismo português”, embora tenha sido “esquecida dos anais da história da arte” (p. 31).

Se tais pergaminhos não bastassem, Agostinho Fernandes (1886-1972), o célebre industrial conserveiro da Mexilhoeira Grande, foi sem dúvida o maior coleccionador português de arte desses anos e o generoso financiador da revista Contemporânea e d’A Engomadeira de Almada Negreiros (“fez o que ninguém fez, da sua espécie, no seu tempo”, escreveu um dia José-Augusto França) e — disse quem muito sabia — até inspirou O Banqueiro Anarquista de Fernando Pessoa. Carlos Porfírio pintou em Lisboa a capa do “polémico livro” (sic, p. 80) Decadência da poeta Judith Teixeira (1923), Bernardo Marques saiu de Silves e Faro até à capital para a carreira artística multímoda que se sabe, Roberto Nobre também jamais poderá ser esquecido neste círculo artístico que também foi cinéfilo — e no entanto faltava ir mais fundo, respigar pontas soltas, reavivar descobertas recentes, resgatar outras figuras e eventos, ou deslindar melhor o impulso da imprensa regional na difusão dessa modernidade e perscrutar inesperadas mas previsíveis relações e afinidades artísticas e literárias com vanguardistas andaluzes.

Carta de Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor, pelo Comité Futurista de Lisboa, a Carlos Lyster Franco, director de O Heraldo de Faro. © Acervo Lyster Franco

Podemos agora dizer que se tudo isto era conhecido num quadro geral, quase vago, praticamente só moldura, a presente exposição no Museu Municipal de Faro, com a investigação que lhe subjaz, a qualidade das obras e documentação inédita que reúne e este catálogo, lançado no passado dia 15 — no fecho dum colóquio que levou até Faro Fernando Cabral Martins (“Futurismo e questões literárias”) e João MacDonald (“Santa Rita e Carlos Porfírio, relações do futurismo”), entre outros —, vem focar como nunca antes a cena modernista algarvia. E creio que abrirá caminho, quase inevitável depois disto, ao estudo e reconhecimento de outras figuras influentes, como é bem o caso de José Dias Sancho (1898-1929), aqui posto em clara evidência mas a precisar de bastante mais. Apesar de prematuramente falecido, este advogado, desenhador e escritor que também quis ser produtor cinematográfico, foi “impressionante figura do Algarve, pela sua pluralidade, actividade e coragem, de teor modernista e regionalista” (Rosa Dias, p. 67). Já antes de Almada Negreiros e do seu Manifesto, havia ele zurzido forte e feio em Júlio Dantas…

Não é pequeno o mérito da campanha desenvolvida por Fernando Rosa Dias e Cristiana Oliveira Silva, da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, com a colaboração valiosa de Luís Lyster Franco, neto do pintor Carlos Augusto (1879-1959) e filho do jornalista Mário (1902-84), cujos arquivos têm riqueza proporcional ao seu protagonismo de primeira linha e longa duração (e ainda esperam ser salvaguardados com a dignidade e a partilha que bem merecem). A pormenorizada biografia de Carlos Porfírio incluída nas pp. 78-82 exibe toda uma “ponte de modernidade” (p. 24) entre Faro e Lisboa, ou vice-versa, que ora faz dele um dos “rapazes do [Café] Martinho”, com Pessoa, Pacheko e Santa-Rita Pintor; ora o aproxima de António Ferro no grupo de Novos que contestaram a direcção da SNBA e no jantar de homenagem ao escritor antes da sua viagem ao Brasil em 1922; ora o reconhece como presente na grande mostra individual de Eduardo Viana, na mesma Sociedade, no ano seguinte; ora o vê levando os seus próprios quadros algarvios até ao salão da influente revista Ilustração Portuguesa, em Fevereiro de 1923. Será Porfírio a dirigir na gráfica do jornal farense os trabalhos de composição da “página futurista” (1916-17), bem em linha com os futuristas italianos, cujas publicações conheceria certamente: uma espécie de ensaio “com certa regularidade” (Dias e Franco, p. 53) para a paginação do único Portugal Futurista.

Também o encontramos ao lado de Henrique Galvão, esse mesmo (1895-1970, à época militar em Faro), e de Dias Sancho num périplo de contactos, exposições e conferências por Sevilha e Huelva em Fevereiro de 1921. E em 1926, depois de supostamente ter pintado paisagem em Espanha, ei-lo uma vez mais a caminho de Paris, onde estuda pintura artística e decoração de interiores, e desenha padrões para vestuário feminino para a firma Point Carré. Mas por qualquer motivo — fora três ou quatro quadros de 1923 recentemente descobertos para esta exposição — muitos destes trabalhos perderam-se de vez (não, estes não são daqueles que precisam apenas de “uma localização mais exacta”…), sendo agora difícil perceber exactamente até onde foi, ou do que foi capaz, “o esforço” de Porfírio para pintar “com sabor modernista” (p. 71), respirando o ar do tempo, mais do que criando-o, como é notório exemplo o auto-retrato Cabeça Futurista, de que só persiste imagem fotográfica.

Os seus filmes da década de 1940 outra coisa não são, afinal, do que o reacender da ânsia cinematográfica dos anos 20 comum a alguns destes algarvios, de Dias Sancho e Nobre ao ágil empreendedor Agostinho Fernandes, que nos arredores de Lisboa havia construído os estúdios da sua Cinelândia. Mas no estilo pictórico de alguns curiosos esboços para cenas de Sonho de Amor já nada resta da pincelada moderna aplicada em quadros da vida serrana algarvia, como Camponesa (óleo sobre tela, 47,5 x 46,5 cm, c. 1923 — de colecção privada), que serve de capa a este catálogo e é do melhor que terá feito.

Carlos Queiroz escreveu um dia ter sido Santa-Rita um “artista sem obra”, talvez para se referir à permanente truculência do seu modo muito pessoal de viver entre artistas, espicaçando e provocando tudo e todos, levando a extremos inusitados e raros entre nós a fúria daqueles anos de guerra e arte, e que próxima biografia certamente esclarecerá para além do mito. Morreu novo, com 29 anos, a 29 de Abril de 1918. A sua Cabeça, c. 1912-14, pode agora ser admirada em Faro, no museu municipal instalado no belo edifício do antigo convento de Nossa Senhora da Assunção. Se acaso tivesse sobrevivido à tuberculose e frequentado com Carlos Porfírio os meios que — com benevolente e genuína curiosidade — acolheram no Algarve os artistas modernistas, talvez o impacto brutal e radical do seu “futurismo” tivesse dinamitado num ápice a receptividade local a esse avanço, sempre desigual, para a modernidade. Almada também lá não foi, ou não há registos disso. Mas seria sempre mais comedido…

O Observador viajou a convite do Museu Municipal de Faro, para assistir ao colóquio e lançamento do catálogo desta exposição, que estará patente até ao dia 1 de Setembro.