Os nomes dos principais deuses nórdicos, como Thor ou Odin, não são desconhecidos para a maioria dos leitores que, de uma maneira ou de outra, já tiveram contacto com a mitologia dos antigos nórdicos, quer tenha sido através da literatura moderna, das séries de televisão ou do cinema. O mesmo não se pode dizer dos mitos que lhes dizem respeito ou dos textos medievais que os preservaram. As razões são várias, mas um dos principais motivos é o facto de estes não se encontrarem disponíveis em língua portuguesa. Foi com isso em mente, e “numa tentativa de encurtar” a distância que existe com o norte da Europa, que Hélio Pires reuniu em livro várias narrativas, baseadas em obras escritas há vários séculos por estudiosos da cultura e história nórdicas, que dão a conhecer os mitos e lendas dos “vikings e outros nórdicos”.

Publicado pela editora Zéfiro, em abril, Mitos e Lendas Nórdicas é o primeiro livro do género em Portugal, onde já foram publicados diversos volumes sobre mitologia escritos por investigadores portugueses, mas nunca nenhum dedicado aos povos da Escandinávia. À semelhança desses, lançados pela Clássica Editora, este dá “a conhecer episódios, personagens, teorias e questões”, oferecendo “narrativas próximas das originais e uma análise cuidada de cada uma”, explicou o autor de Os Vikings em Portugal e na Galiza, editado em 2017 pela mesma editora, na introdução.. Não se trata, portanto, de uma obra que reproduz, letra a letra, o que se encontra escrito nos antigos textos medievais, mas antes de uma adaptação das histórias neles reunidas “feita a pensar num público mais alargado”, como admitiu Pires.

Dividido em cinco grandes partes, Mitos e Lendas Nórdicas começa com a criação do mundo e o nascimento dos deuses e termina com o Ragnarok, a grande batalha que destruirá tudo antes de o mundo voltar a nascer. Pelo meio, existem as histórias de Sigurd, do dragão Fáfnir e do tesouro por ele guardado, e de personagens como Rollo, o Caminhante, e Egill, descritas nas sagas nórdicas. No final de cada uma existe uma descrição das fontes primárias onde podem ser encontradas e uma análise muito completa, feita por Pires com base nos principais estudos existentes. O livro termina com um glossário e uma extensa bibliografia para quem quiser mergulhar mais a fundo no universo da mitologia nórdica e num imaginário que, apesar de aparentemente distante, tem ainda alguma ligação com o nosso.

O livro foi publicado no passado mês de abril pela editora Zéfiro, sediada em Sintra

Um antepassado comum

“A mitologia nórdica insere-se no universo das culturas indo-europeias, que derivam da de comunidades que, há milhares de anos, migraram progressivamente das suas terras de origem, talvez as estepes russas ou a Ásia central, e fixaram-se na generalidade da Europa, no norte da Índia e em parte do Médio Oriente. Com elas levaram a sua língua e religião, formando assim a base cultural comum de um grande número de povos”, começou por explicar, na introdução, o investigador do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova. Entre estes contam-se os noruegueses e os suecos, mas também os portugueses e os espanhóis. Isto significa que no que diz respeito à língua, por exemplo, o português e o norueguês, que pertencem a ramos linguísticos distintos (latino e germânico, respetivamente), têm uma origem ancestral comum — o indo-europeu. Só que os “vestígios desses primórdios partilhados”, como lhes chamou Pires, foram sendo apagados com a passagem dos séculos, de tal modo que já não são percetíveis. Os ”desenvolvimentos separados e progressivos que ocorreram após as migrações euro-asiáticas” fizeram com que evoluíssem de forma diferente, apontou ainda o autor.

Terá acontecido o mesmo com a religião. Contudo, no caso desta, é mais difícil encontrar pontos em comum (algo que é possível fazer com as línguas), já que, no caso dos antigos nórdicos, as suas crenças se encontram preservadas, “em quase toda a sua extensão, em documentos escritos depois de 1200, havendo por isso um hiato talvez de cinco milénios entre os mitos sobreviventes e os seus primórdios indo-europeus”. “E durante esse tempo, certamente que houve transformações sociais e religiosas que alteraram o panteão e as narrativas míticas, ao ponto de, não obstante os vestígios primordiais, elas não poderem ser lidas apenas com base no substrato indo-europeu. Precisamente porque as coisas evoluem, diversificam-se e afastam-se das suas raízes à medida que aumenta a distância cronológica e geográfica”, acrescentou Hélio Pires. Isto representa um desafio também para o estudos dos mitos em si e não apenas para a realização de uma análise comparativa.

Ainda que tivessem um alfabeto próprio, o Futhark Antigo, os antigos nórdicos tinham uma cultura baseada na oralidade. Os caracteres rúnicos (inicialmente 24, depois reduzidos, por volta do século VIII, para 16) que o compunham não eram usados, tanto quanto se sabe, para escrever textos longos, tendo apenas sobrevivido à passagem dos tempos pequenas inscrições feitas em pedra, metal ou osso. A mais extensa (cerca de 760 caracteres) que se conhece é a Pedra de Rök, em Östergötland, no sul da Suécia, que contém alguns versos sobre um rei chamado Teodorico que alguns acreditam ser o líder ostrogodo que conquistou Ravena, em Itália, em 493. Descoberta no século XIX e dada do início do século IX, a pedra é considerada a primeira peça literária da Suécia, marcando por isso, na opinião de alguns especialistas, o início da história da literatura no país.

Só dois séculos depois de as runas da Pedra de Rök terem sido gravadas é que a escrita adquiriu um uso mais alargado na Escandinávia com a chegada do cristianismo, por volta do ano 1000. É por esta razão que as fontes sobre a mitologia nórdica datam quase todas do século XIII ou de depois disso. Outro problema diz respeito com a origem dos textos — foram quase todos produzidos na Escandinávia ocidental, o que, como explicou o autor de “Mitos e Lendas Nórdicas” na introdução do seu livro, não permite ter uma imagem completa do sistema de crenças daquela região — e os seus autores — cristãos que viveram vários séculos depois dos homens que tinham as crenças que tentaram descrever. Além disso, na hora de contar as histórias e mitos dos seus antepassados, não tiveram quaisquer problemas em aproximá-los do seu universo, o cristão. Foi isso que fez Snorri Sturluson, importante compilador de narrativas antigas.

Aquilo que dispomos não é uma mitologia completa, mas apenas fragmentos socialmente parciais, provenientes na sua maioria da Escandinávia ocidental e, bem ou mal, trabalhados por autores ou compiladores cristãos depois da conversão oficial ao cristianismo”, concluiu Hélio Pires. Não é o ideal, mas é o que existe e está à disposição dos investigadores.

A Pedra de Rök, a mais longa inscrição rúnica que se conhece (Fonte: Wikimedia Commons)

As fontes dos mitos nórdicos: “O que temos e não o que gostaríamos de ter”

Considerada mais completa e detalhada fonte da mitologia nórdica, a Edda de Snorri Sturluson é fundamental para o estudo das crenças dos antigos nórdicos. Como escreveu Hélio Pires, sem a obra do islandês nascido em Oddi, “teríamos um conhecimento muitíssimo mais reduzido e fragmentado do que o atual”. Composta na década de 1220, com o objetivo de recuperar da decadência a chamada poesia skáldica, a Edda (que em islandês quer dizer “bisavó”) reúne um vasto conjunto de versos, mitos e lendas. A poesia skáldica, que deve o seu nome à palavra skáld (“poeta”, em nórdico antigo), caracterizava-se “normalmente por uma métrica rígida, versos crípticos e uma linguagem rica em perífrases ou metáforas poéticas”, que eram geralmente de cariz mitológico, explicou Hélio Pires no seu livro.

Apesar de importante, a Edda de Snorri não deixa de apresentar problemas. Escrita 200 anos depois da conversão oficial da Islândia, a obra foi profundamente influenciada pelo cristianismo, apresentando os deuses nórdicos como “divindades falsas que tentam imitar o deus verdadeiro ou como heróis do passado que foram elevados ao estatuto divino por ignorância humana. Esta interpretação dos mitos nórdicos é particularmente evidente na introdução, que Snorri baseou no Génesis. Com referências a vários episódios e personagens da Bíblia, como a criação do mundo e o dilúvio, esta explica como os nórdicos antigos esqueceram deus e passaram a adorar a natureza.

A colagem ao universo cristão não é, contudo, o único problema da Edda. Como esclareceu Hélio Pires, existe ainda a questão da “sistematização”: “O que Snorri fez foi criar uma mitologia mais ou menos coerente a partir de fragmentos e episódios que não estariam necessariamente ligados ou que podiam ter sentidos díspares. Ele ligou peças soltas, juntou mitos e preencheu lacunas, por vezes de forma criativa”. Ou seja, a Edda está longe de constituir um repositório fidedigno da mitologia nórdica, tratando-se mais de uma adaptação tardia feita por um autor do século XIII.

Outra obra importante para o estudo dos mitos nórdicos é a chamada Edda Poética que, nas edições modernas, consiste numa coletânea de 33 composições. Destas, 29 poemas constam de um manuscrito anónimo chamado Codex Regius, que terá sido composto por volta de 1270, ou seja, depois da Edda de Snorri. Os restantes quatro têm origem noutros documentos medievais, dos séculos XIV e XV. A semelhança com o nome da obra do autor de Oddi não é coincidência. Brynjólfur, um bispo da diocese islandesa de Skálholt que, em 1643, tinha em sua posse o Codex Regius, intitulou-a assim numa referência à Edda de Snorri, que cita alguns poemas éddicos semelhantes aos da Edda Poética. E o que são poemas éddicos? Comparativamente aos skáldicos, estes costumavam ter uma métrica mais simples e um enfoque maior na mitologia. Não era, por isso, “uma poesia ligada a um momento histórico preciso, motivo pelo qual a sua dotação e extremamente difícil, não havendo certezas sobre quando e onde os poemas foram originalmente compostos”. Em comum tinham o facto de terem sido moldadas pela mundividência cristã.

Outra fonte é os Gesta Danorum, ou Feitos dos Dinamarqueses, escrita pelo historiador e teólogo dinamarquês Saxo Grammaticus, em 1215, com o objetivo de glorificar a sua pátria. Relevantes para o estudo da mitologia dos antigos nórdicos são também as sagas, que são, no fundo, “romances históricos medievais, assentes em tradições, lendas, narrativas mais pequenas e poesia skáldica, a qual é citada com frequência, em especial nas sagas dos reis”, referiu Pires.

Uma das páginas do Codex Regius, o manuscrito mais antigo e importante da Edda Poética (Fonte: Werner Forman/Universal Images Group/Getty Images)

A importância destas e outras obras que servem de base aos investigadores que se dedicam ao estudo dos mitos e lendas nórdicos deve-se, sobretudo, à escassez de fontes que, como afirmou Pires, nos obriga “a usar o que temos e não o que gostaríamos de ter”. Ainda assim, o mundo que apresentam não deixa de ser fascinante. Talvez por isso valha a pena mergulhar nestes mitos e descobrir a origem dos tesouros divinos, a maldição do anel, a vingança de Gudrún ou as aventuras de Egill.