Da Corunha a Lisboa, passando pelo Douro: durante 200 anos, os vikings pilharam a Península Ibérica

26 Novembro 2017760

Parece ficção, mas não é: os nórdicos passaram mesmo pela costa portuguesa. A dias da estreia da nova temporada de "Vikings", falámos com Hélio Pires, autor de "Os Vikings em Portugal e na Galiza".

Foi por altura do casamento do Rei Beorhtric de Wessex com a Rainha Eadburh que foram avistados pela primeira vez embarcações viking ao largo das ilhas britânicas. Sem saber de quem se tratava, Beorhtric enviou emissários à costa para convidar os estrangeiros a visitarem a residência real. Só que o convite não foi bem recebido e os nórdicos acharam por bem assassinar os homens de Beorhtric ali mesmo. Passados quatro anos, regressaram. Em 793, desembarcaram em Lindisfarne, a “Ilha Sagrada”, em Northumbria, e pilharam e destruíram o mosteiro que ali existia. Os anglo-saxões ficaram aterrorizados. “Nunca apareceu na Grã-Bretanha um terror tão grande como o que acabámos de sofrer”, escreveu o monge Alcuin ao Rei Ethelred de Northumbria, a partir da corte de Carlos Magno. Tinha começado a Idade Viking, a grande época de expansão dos marinheiros do norte.

Durante cerca de 300 anos, os vikings viajaram, conquistaram e colonizaram vários pontos da Europa, chegaram à América do Norte e passaram pelo Médio Oriente. Destruíram mosteiros, grandes cidades e pequenas aldeias, mas também ajudaram a fundar novas localidades, como é o caso de Dublin, que só passou para as mãos dos irlandeses no século XI. Na Península Ibérica, onde o seu rasto é menos evidente, deixaram uma memória vaga que muitas vezes mistura factos reais com pura ficção. Foi procurando separar a lenda da realidade que, em 2005, Hélio Pires decidiu fazer uma tese de doutoramento sobre a presença viking no ocidente ibérico, em Portugal mas também na Galiza. A ideia ocorreu-lhe quando estava na Suécia, onde fez o mestrado em Estudos Vikings e Medievais, na Universidade de Uppsala. Mas a paixão pelos vikings é mais antiga.

Tudo começou ainda durante o curso de Filosofia, com a cadeira de História das Ideias Religiosas. “Houve alguém que me passou umas fotocópias sobre mitologia nórdica. Li-as e fui puxando o fio à meada a partir daí”, contou ao Observador. Foi assim que acabou na Suécia, onde, depois de encontrar algumas informações sobre os vikings na Península Ibérica, decidiu realizar um primeiro trabalho sobre o tema, no âmbito de uma disciplina sobre atividade viking “no geral”. Este foi, contudo, “limitado”, uma vez que as fontes eram poucas, acabando por só retomar o tema com a tese de doutoramento. Depois de bater de porta em porta, esta foi aceite pela Nova de Lisboa. O argumento dos professores era o de que a informação era escassa e que não havia material suficiente para uma tese, mas Hélio Pires não se deixou desanimar. Continuou a insistir até que finalmente ouviu um ”sim”.

Os Vikings em Portugal e na Galiza, publicado pela Zéfiro, é o primeiro livro em Portugal a abordar em profundidade o tema das incursões vikings na Península Ibérica

Durante três anos, consultou documentos portugueses e galegos que o ajudaram a reconstruir a história das incursões nórdicas dos séculos IX, X, XI e até das mais tardias, já depois do final da Idade Viking. Passados cinco anos — e numa altura em que está prestes a estrear nos Estados Unidos da América a nova temporada da popular série Vikings, inspirada nas sagas de Ragnar Lothbrok, a 29 de novembro (a Portugal só chega a 3 de dezembro, ao canal TVCine & Series) –, a tese foi finalmente publicada em livro pela editora Zéfiro, sediada em Sintra. O texto foi profundamente revisto até porque, como explicou o autor ao Observador, houve muitos pormenores que só lhe ocorreram já depois de a tese ter sido entregue na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, em Lisboa. O livro, Os Vikings em Portugal e na Galiza, é o primeiro em Portugal a abordar em profundidade o tema das incursões vikings na Península Ibérica e os vestígios que deixaram em Portugal e na Galiza, e mostra bem como a história destes nórdicos está mais repleta de perguntas do que respostas.

Quem eram os vikings?

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a palavra viking não se refere a um povo em específico. Por mais vago que possa parecer, os vikings eram “nórdicos que se dedicavam à atividade marítima — à pirataria, ao comércio ou a um misto dos dois”. “Não eram um povo à parte, eram uma parte da sociedade nórdica”, explicou Hélio Pires. Na maioria dos casos, nem se sabe o país de origem, uma vez que os documentos são vagos na descrição. “Há um documento ou outro que diz que vinham daquela zona ou daquela, mas não se sabe até que ponto é que o documento está correto.” É o caso da Crónica Anglo-Saxónica, um dos textos anglo-saxónicos mais importantes, que diz que os navios que atacaram Wessex, em 789, eram “dinamarqueses”, mas isso não significa que fossem oriundos do território que corresponde atualmente à Dinamarca.

No início da Idade Viking — quando começaram as primeiras pilhagens no sul e, mais tarde, no norte de Inglaterra –, as fronteiras escandinavas tal como hoje as conhecemos ainda estavam em formação. Por essa razão, termos como dinamarquês eram, na altura, muitos mais latos. Outros documentos referem que os vikings vinham da Noruega, “mas não se sabe até que ponto isso é preciso”. Além disso, graças às muitas expedições e à fundação de colónias em vários pontos da Europa, o mundo viking deixou rapidamente de corresponder apenas à Escandinávia, começando a englobar outros grupos étnicos e diferentes culturas. Esta interação resultou “em populações de ascendência mista”, como referem Jayne Carroll, Stephen H. Harrison e Gareth Williams em The Vikings in Britain and Ireland.

Os vikings eram “nórdicos que se dedicavam à atividade marítima — à pirataria, ao comércio ou a um misto dos dois". "Não eram um povo à parte, eram uma parte da sociedade nórdica."
Hélio Pires

Curiosamente, os documentos que parecem ser mais “precisos” são aqueles que se referem a Ragnar Lothbrok — figura semilendária que inspirou a série Vikings — e que dão “a ideia de ter vindo da Irlanda”. “Mas mesmo isso é muito, muito escasso”, referiu Hélio Pires. Até porque há outras fontes que dizem que poderia ter nascido em território dinamarquês. “Podem ter existido vários Ragnars, que depois se fundiram numa única lenda. Tudo o que existe nos textos medievais foi muito trabalhado. É difícil tentar perceber o que há ali de histórico”, acrescentou o autor. Na verdade, até hoje, não foram encontradas quaisquer provas de que Ragnar tenha realmente existido. Mas há quem defenda que a sua história está, ainda que por breves momentos, ligada à da Península Ibérica.

De acordo com alguns textos irlandeses, depois da conquista de York, em 867, dois jovens vikings decidiram dedicar-se à pirataria nas ilhas britânicas e na zona da atual França. Seguindo ao longo da costa, Hasting e Björn acabaram por chegar à Península Ibérica, sendo responsáveis por um ataque em solo ibérico antes de seguirem rumo ao norte de África, onde continuaram a pilhagem. Hasting e Björn eram filhos de um viking chamado Raghnall, que alguns autores identificaram como sendo o lendário Ragnar Lothbrok. Este enredo é explorado pela série Vikings na quarta temporada e nesta que agora vai estrear. E quanto a Raghnall (ou Ragnar)? Será que passou pela Península Ibérica? “É difícil de dizer. Não existe nada de concreto a que nos possamos agarrar.” É tudo “muito difuso”, tal como a história dos vikings.

A origem do termo também não ajuda a esclarecer nada — a palavra inglesa viking tem origem no vocábulo vikingr, das fontes escandinavas. Apesar de ninguém saber ao certo de onde veio (como muitas outras coisas relacionadas com os marinheiros nórdicos), existe um número cada vez maior de investigadores que defende tratar-se de uma derivação de vik, uma palavra da língua nórdica antiga que significa “uma pequena baía” ou “fjord”. Um viking seria, assim, “alguém que veio dos fjords”. Mas há outras teorias: alguns acreditam que a palavra é uma referência à região de Viken, na zona sudeste da Noruega, enquanto outros defendem que vem do anglo-frísio wicing ou wítsing, que significa “aquele que acampa”.

Outra questão que permanece em aberto é o porquê de os nórdicos se terem feito ao mar. “Há várias teorias para isso: desde exilados políticos que decidiram fazer carreira na pirataria — como forma de vida permanente ou como forma de angariarem fundos e apoios para depois recuperem os tronos o poder que tinham na Escandinávia –, a pessoas que queriam melhores opções de vida e que, então decidiram emigrar de forma violenta, tornando-se piratas”, sugeriu Hélio Pires. “O que eu acho mais provável é que já houvesse pirataria no Báltico, que era um mar mais confinado, mais pequeno, que depois resvalou para o Mar do Norte. Como oferecia riquezas fáceis, porque havia mosteiros e povoações costeiras que estavam desprotegidos, houve outros nórdicos que foram atrás. É um bocadinho o efeito de bola de neve — foi um pequeno grupo ou dois, correu bem, espalhou-se a palavra e foram outros atrás. Foi-se multiplicando até se tornar num fenómeno.”

“É um bocadinho o efeito de bola de neve — foi um pequeno grupo ou dois, correu bem, espalhou-se a palavra e foram outros atrás. Foi-se multiplicando até se tornar num fenómeno.”
Hélio Pires

Uma vez que não era aconselhável atravessar o Mar do Norte durante os meses frios, os vikings escolhiam a primavera e o verão para realizarem as pilhagens junto à costa. Contudo, a partir de meados século IX, os ataques começaram a tornar-se mais frequentes com o surgimento de colónias nórdicas na Europa ocidental. Os documentos que chegaram até hoje referem que as primeiras terão surgido na zona da Aquitânia, em 843, e em Dublin. Foi, aliás, assim que nasceu atual capital irlandesa — começou por ser uma base de inverno viking, convertendo-se mais tarde “num povoado e centro de poder de uma das várias dinastias nórdicas que foram fundadas nas ilhas britânicas e em França”, escreveu Hélio Pires. Em vez de fazerem a viagem de regresso no final do verão, os marinheiros escandinavos começaram a passar o inverno nas zonas que pilhavam. Os ataques deixaram de ser sazonais — começaram a fazer parte do quotidiano das populações locais.

Olá, Península Ibérica

Depois de várias incursões no norte da Europa, os vikings decidiram continuar viagem até paragens mais quentes. Chegaram à Península Ibérica em meados do século IX “mas, dada a falta de fontes nórdicas dos séculos IX e X, nomeadamente de relatos dos primeiros ataques segundo os próprios vikings, podemos apenas especular os motivos que os trouxeram até ao sul da Europa”, um destino menos óbvio e muito menos atrativo. As teorias são muitas, mas Hélio Pires acredita que a chegada à península aconteceu naturalmente. “A minha suspeita é a de que foram explorando a costa. Simplesmente isso. Uma vez chegados a Inglaterra, continuaram a avançar pela costa francesa — chegaram a Bordéus no século IX — até chegarem à Península Ibérica. E como era uma costa povoada — com cidades –, como era a costa francesa, voltaram. E foram repetindo.”

Outra justificação — mais popular — diz respeito a Santiago de Compostela e à descoberta do túmulo do apóstolo Santiago, em meados do século IX. Diz a lenda que Teodomiro, bispo de Iria Flavia (atual Padrón), alertado pelo eremita Paio, que reparou numa estranha luz que pairava sobre o monte Libredón, teria encontrado perto de um carvalho, coberto de ervas daninhas, um túmulo de pedra com os restos mortais de Santiago e de dois dos seus discípulos, Teodoro e Atanásio. Teodomiro apressou-se a alertar Alfonso II (791-842), rei das Astúrias, que mandou construir uma pequena igreja no local do sepulcro. As datas divergem, mas acredita-se que o túmulo de Santiago tenha sido descoberto por volta de 813. Isto significa que, por altura do primeiro ataque viking em terras galegas, a igreja mandada erigir por Alfonso II não passava de “um santuário menor, de importância regional”.

Foi no século seguinte que Santiago se tornou num local de peregrinação, mas a fama só chegou por volta do século XI. É por essa razão que Hélio Pires não acredita que a teoria de Santiago de Compostela faça sentido. “Não quer dizer que os vikings dos séculos X e XI viessem por causa de Santiago, mas isso é posteriormente. Os primeiros não vieram por causa disso.” Além do mais “as crónicas asturianas do final do século IX não falam na suposta descoberta do túmulo do apóstolo”, tratando-se por isso de “uma revisão posterior da história”. “Ora, se nem os próprios asturianos lhe ligavam muito, por que motivo é que um viking do século IX iria à Península Ibérica por causa de Santiago? Isso é fazer um salto cronológico de vários séculos — é olhar para Santiago hoje, grande, esplendoroso, famoso, e achar que à época também era assim. Trata-se de projetar o presente no passado.”

“A minha suspeita é a de que foram explorando a costa. Uma vez chegados a Inglaterra, continuaram a avançar pela costa francesa — chegaram a Bordéus no século IX — até chegarem à Península Ibérica.”
Hélio Pires

Teorias à parte, uma coisa parece ser mais ou menos certa: o primeiro ataque na Península Ibérica ter-se-á dado, segundo várias fontes, em território galego, em 844. Mas há quem acredite que a história dos vikings no extremo ocidente europeu começou muito antes, ainda no século VII. Arne Melvinger, que fez uma tese nos anos 50 sobre o tema com base em autores árabes, refere que houve uma expedição no norte da península em 795, várias décadas antes do ataque galego. De acordo com as fontes consultadas por Melvinger, Alfonso II das Astúrias (o rei que terá mandado construir a igreja em honra do apóstolo Santiago) terá enfrentado um exército muçulmano que incluía bascos e um grupo de al-magus. Não se sabe quem seriam estes magus, mas o investigador sueco concluiu que se tratavam de vikings.

Para defender a sua tese, Arne Melvinger recorreu à palavra magus. Esta deriva do termo magi, usado pelos muçulmanos para se referirem a um povo que praticava uma religião que não tivesse um livro sagrado, como os cristãos ou até como eles próprios. Era, portanto, um vocábulo usado para identificar vários tipos de gentes e povos, e não um em particular. Como explica Hélio Pires no seu livro, era o equivalente árabe ao termo latino pagani — “pagãos” —, aplicado a todos os não-cristãos, incluindo aos próprios romanos, que eram politeístas. Os al-magus das fontes árabes só podiam ser, segundo Melvinger, vikings fixados no sul de França porque os povos do norte da Península Ibérica eram cristãos desde o século VI.

Hélio Pires acha esta hipótese muito pouco plausível, preferindo a versão de um outro autor, Claudio Sanchez-Albornoz. Segundo Sanchez-Albornoz, naquele tempo, ainda havia focos de resistência pagã na península, nomeadamente no nordeste, onde várdulos e caristios permaneciam fiéis às antigas crenças. Por essa razão, o mais provável é que os vikings de Melvinger não passassem de pagãos ibéricos. O estudioso espanhol chega até ao ponto de pôr em causa o grau de cristianização do bascos, uma vez que não existe qualquer evidência histórica da “suposta evangelização levada a cabo por São Saturnino” (um missionário romano que pregou na Gália e na Península Ibérica no século III), da autoridade “geograficamente limitada” do bispo fixado em Pamplona ou do aparecimento de um centro cristão em Álava, no País Basco. “Podiam ser simplesmente pagãos do norte da Península Ibérica. Bascos, por exemplo”, salientou Hélio Pires. “Os ‘outros’ não têm de ser vikings. Até porque as crónicas asturianas, quando falam do ataque, dizem que era um povo ‘desconhecido entre nós’.”

Lindisfarne, conhecida como a "Ilha Sagrada", foi atacada pelos vikings em 793. O mosteiro foi pilhado e destruído

Por essa razão, o autor não acredita que tenha havido outro ataque viking em território ibérico antes de 844. Pelo menos, “com as fontes que temos”. “Não me convence.” Claro que isso não significa que tenha de facto existido uma outra incursão nórdica, mas não existem fontes “que justifiquem essa afirmação”. É por essa razão que o trabalho de consulta nem sempre é tarefa fácil — “as pessoas afirmam uma coisa, que é de facto possível, mas depois não tinham fontes que justificassem a certeza com que o afirmavam”. Um problema com o qual Hélio Pires se deparou inúmeras vezes durante a preparação da tese de doutoramento. Além de as fontes serem muitas vezes escassas ou incompletas, “parte do que lia noutros artigos e livros mais recentes não tinha por base as fontes medievais ou tratava-se de lendas que passavam por factos”. “Nesse aspeto foi um bocadinho frustrante”, admitiu. “Ia seguindo o fio à meada nos livros que ia lendo, procurava as fontes e não as encontrava porque não existiam. As referências eram falsas ou então os textos não diziam aquilo que as pessoas diziam que eles diziam.”

O investigador acredita que isso pode ser justificado com o “horror ao vazio”. “Quando não havia informação, achavam que tinham de por lá qualquer coisa porque, caso contrário, não era tão empolgante, o livro não vendia. Às vezes, como o texto era seco, apimentavam um bocadinho, ou então faziam simplesmente uma má pesquisa.” Em outros casos, deveu-se à falta de rigor histórico que existia no tratamento dos documentos. “Era historiografia patriótica ou então tentavam tornar as coisas mais empolgantes. Era mais como contar uma história do que fazer propriamente uma análise dos documentos. Caía-se um bocadinho no exagero.”

Corunha, verão de 844

Não existem muitas informações sobre o que se terá passado naquele verão de 844. “Sabe-se muito pouco sobre esse ataque. Sabe-se que foi na Corunha, no início de agosto, mas quanto tempo durou, o que fizeram ao certo, não sabemos”, explicou Hélio Pires. Na verdade, no que diz respeito à presença viking na Península Ibérica, há mais incertezas do que certezas, mais perguntas do que respostas. “Isso é comum quando se estuda a Idade Média, e quanto mais recuado o período que se estuda pior”, referiu o autor, que, apesar de ter ficado com muitas dúvidas na cabeça, continua a ter esperança de que algum dia se encontre “um manancial de documentos escondidos atrás de uma parede qualquer”. “A menos que apareçam dados novos, documentos ou vestígios arqueológicos, é muito difícil começar a responder a algumas perguntas.”

O que se sabe é que, antes de seguirem para a Galiza, os vikings fizeram uma paragem em Toulouse, no sul do território que hoje pertence a França. Entraram pelo Rio Garrone e, depois de pilharem a região, seguiram mais para sul. Atravessaram o mar e entraram na Galiza no início de agosto. Naquele tempo, quem reinava o Reino das Astúrias era Ramiro I (842-850), filho do tal Alfonso II que teria defrontado os ferozes marinheiros nórdicos em 795, segundo Arne Melvinger. Perante a ameaça, Ramiro prontamente organizou um exército para combater os estrangeiros. Felizmente para ele, parte dos nórdicos tinha morrido durante uma tempestade que os apanhou de surpresa durante a travessia. Os que sobreviveram acabaram por ser derrotados perto de Farum Brecatium, local que, apesar de não se saber ao certo onde ficava, é geralmente apontado como sendo a Corunha.

As baixas causadas pelo exército galego parecem ter sido substanciais — muitos vikings acabaram por morrer e, por vingança, os galegos deitaram fogo a 70 das suas embarcações. Derrotados, os nórdicos fizeram-se ao mar, chegando a Lisboa ainda nesse verão. O que não se sabe ao certo é quem é que os liderava — algumas fontes falam num tal de Horrich, enquanto outras referem um viking chamado Wittingur. Dada a falta de evidências, é difícil dizer como se chamaria afinal o líder dos primeiros marinheiros escandinavos a pisarem solo ibérico.

“Sabe-se muito pouco sobre esse ataque. Sabe-se que foi na Corunha, no início de agosto, mas quanto tempo durou, o que fizeram ao certo, não sabemos.”
Hélio Pires

Depois de uma viagem de quase um mês, os vikings chegaram a Lisboa a 20 de agosto de 844. Ninguém sabe porque é que demoraram cerca de três semanas (acredita-se que o ataque na Corunha tenha acontecido a 1 de agosto) a percorrer a costa. Na altura, a viagem demorava apenas alguns dias. Mas existem algumas hipóteses: a demora pode ser indício da existência de outros ataques mais curtos, durante o caminho para Lisboa, ou de que a incursão no norte da Galiza foi mais longa do que se julga, deixando aos nórdicos apenas alguns dias para chegarem ao Tejo. O que também não se sabe é o número de embarcações que chegaram inteiras à atual capital portuguesa: numa carta enviada para Córdova, o Governador de Lisboa fala em “54 navios nórdicos e 54 qaribs” (nome árabe dado a navios de menor dimensão), enquanto outra fonte refere 80 (sem especificar o tipo). Independentemente do número, a informação parece exagerada e provavelmente baseada em estimativas.

Os escandinavos ficaram 13 dias na região de Lisboa, enfrentando tropas árabes em, pelo menos, três ocasiões e mantendo “alguma forma de controlo do território”, explicou Hélio Pires. Porém, não se sabe onde é que estes confrontos ocorreram ou qual foi o seu resultado. “Não se sabe se atacaram Lisboa ou os arredores, se chegaram à margem sul do Tejo ou se ficaram pela margem norte, por exemplo”, frisou o investigador. “Só se sabe que ficaram 13 dias na zona de Lisboa”, um período considerável, “o que sugere que se trataria de um grupo menor, com algumas dezenas de embarcações e algumas dezenas de homens e, eventualmente, mulheres”.

É que apesar de não se saber qual o papel das mulheres nas incursões vikings, não se deve pôr de lado a hipótese de os grupos de marinheiros não terem sido compostos exclusivamente por homens. Hélio Pires escolheu não abordar o tema no seu livro por considerar que a informação é pouca, mas admite que “não é impossível que alguns dos vikings que atacaram a costa ibérica fossem mulheres”. “Na Escandinávia, foram encontrados alguns vestígios nesse sentido. Há pouco tempo, fez-se uma reavaliação dos restos mortais de um túmulo na Suécia e apercebeu-se que era de uma mulher, apesar de ter sido enterrada com armas que, geralmente, são vistas nos túmulos dos homens. Até que ponto era comum, isso é outra questão.”

Os vikings abandonaram a região a 2 de setembro. E “também não sabemos porque é que se foram embora passados 13 dias.” O que é certo é que continuaram a navegar mais para sul, tendo chegado a Sevilha a 1 de outubro, depois de uma viagem de praticamente o mês durante a qual ninguém sabe por onde andaram. Depois disso, só voltaram à Península Ibérica em 858. A partir daí, as visitas tornaram-se mais regulares, com os vikings a manterem-se ativos em território ibérico durante cerca de 200 anos, principalmente no século IX e finais do século X, inícios do século XI. Momentos que coincidiram com uma maior atividade no extremo ocidente europeu, o que, de acordo com o autor, sugere que os nórdicos “podem ter sido empurrados” para a península “por falta de alternativas no resto da Europa”. Isto pode ter acontecido por duas razões, que têm a ver com um “contexto maior”: “Porque estavam a ser derrotados e expulsos de outros sítios” ou porque havia um número tão grande de vikings no ocidente europeu que alguns tiveram “de continuar a andar até chegarem ao ocidente peninsular”.

Os vikings eram marinheiros nórdicos, oriundos de várias zonas da Escandinávia. Este navio, de 30 metros, é uma reconstrução moderna de uma embarcação encontrada na Dinamarca

Foi, aliás, durante este período que, a julgar pelas fontes existentes, ocorreu o maior ataque nórdico em território português: em julho de 1015, os vikings entraram no Rio Douro e, durante nove meses, pilharam a zona que vai até ao Rio Ave e fizeram vários reféns, que depois os nórdicos tentaram vender como escravos. Entre esses encontravam-se as três filhas de Amarelo Mestaliz. Amarelo, que não tinha dinheiro para libertar as raparigas, decidiu recorrer a uma senhora chamada Lupa, oferecendo-lhe uma propriedade em troca do valor necessário (15 sólidos de prata) para pagar o resgate. Só que Lupa não ficou satisfeita com a proposta e o pobre homem teve de se virar para um tal de Froila Tructesindes. Aparentemente mais simpático do que Lupa, Froila aceitou a proposta de Amarelo, que conseguiu assim angariar o dinheiro para libertar as filhas.

O último ataque na Península Ibérica terá acontecido em meados do século XI, por volta de 1086, em Sada, no norte da Galiza. Mais uma vez, não se sabe muito sobre ele, mas acredita-se que tenha sido violento e até prolongado, desestabilizando a região. Hélio Pires considera, contudo, que a fonte que relata esta última incursão não é fidedigna, uma vez que se trata de “um documento tardio”. Não se sabe “até que ponto é que os acontecimentos que lá estão referidos aconteceram nesse ano ou antes”. Depois disso, os nórdicos, que entretanto se tinham convertido ao cristianismo (em 995, quando Olaf Tryggvason se tornou rei da Noruega, proclamou-a um reino cristão), continuaram a viajar até território ibérico por outros motivos, relacionados com a Reconquista.

As lendas, os castelos e os Gunduredos: o que ficou dos vikings na Península Ibérica

200 anos de invasões vikings na Península Ibérica tiveram, naturalmente, o seu impacto. Além da deslocação da população mais para o interior e de alguma perturbação da vida social local, os ataques constantes obrigaram à fortificação da costa que, antes do aparecimento dos vikings, estava mais ou menos desprotegida. É que os verdadeiros perigos não estavam no mar, mas sim no interior do território. “Existem relatos de cidades, antes da Idade Viking, que mandaram abaixo parte das muralhas para construírem outra coisa porque havia um grande sentimento de segurança. Arrependeram-se passados umas décadas porque se aperceberam que precisavam delas. Antes disso, o conflito era praticamente interno”, referiu Hélio Pires.

Supõe-se que a construção de defesas costeiras se tenha intensificado no século X, mas não existe qualquer vestígio em território ibérico. O impacto a longo prazo foi escassíssimo, quase nenhum”, disse o autor. “Como a Península Ibérica já era um cenário de guerra — e continuou a ser depois da Idade Viking –, qualquer impacto local ou regional foi apagado por acontecimentos posteriores. As pessoas podem ter ficado traumatizadas mas, passada uma ou duas décadas, começou a haver ataques dos muçulmanos. O primeiro trauma desapareceu porque foi substituído por um segundo. A memória humana não perdura.” No entanto, já houve quem acreditasse no contrário. Na zona de Alcobaça, existe uma torre que um antigo arqueólogo portugês acreditava ter sido construída como defesa contra os vikings. O Castelo de Guimarães, um dos símbolos da identidade nacional, também já foi descrito como um vestígio da passagem dos nórdicos pela península, uma vez que a sua origem remonta a um dos pontos altos da Idade Viking no ocidente ibérico.

“O impacto a longo prazo foi escassíssimo, quase nenhum. Como a Península Ibérica já era um cenário de guerra, qualquer impacto local ou regional foi apagado por acontecimentos posteriores."
Hélio Pires

A fundação do Castelo de São Mamede, popularmente conhecido por Castelo de Guimarães, terá acontecido por volta de 950 (a Batalha de São Mamede, que opôs D. Afonso Henriques e a sua mãe, D. Teresa, aconteceu 1128) e estaria relacionada, segundo um documento de meados do século X, com os “gentios”. “Mas quem são os gentios?”, interrogou Hélio Pires. “É um termo genérico que quer dizer ‘pagão’. Podiam ser vikings, mas também podiam ser muçulmanos. Não me espantava que o castelo tivesse sido construído a pensar nos dois. E aí, podemos dizer, quanto muito, que os vikings foram parcialmente responsáveis pela sua construção.” Na altura, o seu aspeto era muito diferente do atual — seria “muito humilde, provavelmente uma torre com uma paliçada à volta”, explicou o investigador. O castelo que pode ser hoje visitado em Guimarães foi construído muito tempo depois e foi alvo de várias alterações.

Tanto quanto se sabe, nunca existiu nenhuma colónia nórdica na Península Ibérica. As fontes escritas não são claras nesse ponto e nunca foi encontrado nenhum vestígio arqueológico que permitisse chegar à conclusão contrária. Como referiu Hélio Pires em conversa com o Observador, “uma vez mais, avaliando pelas fontes existentes, a atividade viking na península ficou-se pelo saque e pela pirataria”, atividade que foi vezes foi mais “intensa e prolongada e outras menos”. “Não há nada de muito concreto que sugira a existência de uma colónia ou de conquista do território. Existiram, quanto muito, alguns ataques que foram mais prolongados no tempo e, nesse sentido, terão existido bases mas que, eventualmente, foram abandonadas.” Mas isso não significa que não existem autores que tenham defendido o contrário, muitas vezes com base em teorias pouco fundamentadas.

Um dos exemplos mais citados é o do nome Gunderedo, latinização de Gunnraudr ou Gunrod que terá dado origem a alguns topónimos portugueses e até apelidos, sugerindo uma eventual colonização nórdica na Península Ibérica. “Dito de outra forma, porque houve um ou mais vikings chamados Gunderedo, esse nome terá passado a ser usado na Galiza e em Portugal”, escreveu Hélio Pires. Gunderedo seria também o nome do líder viking responsável pelo maior ataque em território ibérico, em finais do século X.

Segundo os documentos disponíveis, o Rei Ramiro III, filho de D. Sancho I de Leão, era ainda uma criança sob a regência da sua tia Elvira quando uma frota de 100 navios nórdicos chegou à Galiza. O ataque, que aconteceu no segundo ano do reinado de Ramiro, em 968, terá sido liderado por um viking chamado Gunderedo que, durante pelo menos um ano (as fontes divergem), terá devastado toda a Galiza. A incursão terá levado inclusivamente à morte de Sisnando, bispo de Iria-Compostela. Personagem duvidosa e sem escrúpulos, Sisnando terá sido afastado do cargo por Sancho I, que o mandou prender. Depois da morte do rei, em 966, terá fugido da prisão e regressado a Iria onde, através de ameaças, conseguiu recuperar o cargo e afugentar o então bispo, São Rosendo. Antes de partir, Rosendo ter-lhe há dito: “Quem opera pela espada, morre pela espada”, selando assim o destino de Sisnando.

Há quem acredite que as origens do Castelo de Guimarães, símbolo nacional, estão relacionadas com os vikings

O líder viking terá morrido um ano depois da sua chegada à Galiza, durante uma batalha contra o exército de Guilherme Sanches, um conde local, que depois terá mandado queimar os navios dos escandinavos. Contudo, de acordo com a teoria dos Gunderedos, que remonta pelo menos ao século XVII, alguns dos nórdicos terão ficado para trás, estabelecendo-se na região galega. Algumas fontes dão a entender que os vikings terão inclusivamente chegado até à zona de Leão, depois de terem saqueado a Galiza de uma ponta à outra, “mas os documentos são um bocadinho vagos”, como explicou Hélio Pires. “Não se sabe se se tratava de um grupo em fuga ou se se deslocaram até Leão intencionalmente.” Curiosamente, existe em Leão uma localidade chamada Lordemanos, nome dado aos vikings no ocidente ibérico.

Se os vikings chegaram aos limites do território galego, também poderão ter estado em locais que hoje pertencem a Portugal, o que poderia explicar a existência de uma pequena povoação perto de Coimbra chamada Lordemão. Há quem acredite que, dada a semelhança entre o nome da localidade e o termo lordemanos, terá existido na zona uma colónia nórdica. Mas, a verdade, é que “não se sabe a que é que se deve” o nome. “Podiam ser, por exemplo, escravos vikings, capturados e enviados para uma zona de guerra para servirem de colonos, como de resto se fez na Península Ibérica durante a Reconquista. As zonas fronteiriças mais inseguras eram colonizadas por pessoas que não tinham outra opção, e não me espantava que Lordemanos, em Leão, e Lordemão, em Coimbra, tivessem começado assim”, sugeriu o autor. “É só uma hipótese, não é nada de concreto, mas é uma possibilidade.”

Os vestígios que chegaram até aos dias de hoje são, assim, sobretudo imateriais, sendo que a maioria pode ser encontrada no norte da Península Ibérica, na Galiza. Hélio Pires acredita que isto tem a ver com o facto de haver “um registo escrito mais abundante” no norte da península, que muito provavelmente estará relacionado com Santiago de Compostela, “um grande centro religioso que permitiu, automaticamente, a criação de um maior registo”. “Em Portugal não havia o equivalente a Santiago. Os registos estão muito mais dispersos ou são menos ricos. Produziram-se imensas crónicas e cartulários em Santiago de Compostela, até por uma questão administrativa. Em Portugal não há tanto disso porque nunca se criou um centro de saber tão forte, com tantos registos”, referiu o investigador. “E depois, não tivemos sorte.”

"Em Portugal não havia o equivalente a Santiago. Os registos estão muito mais dispersos ou são menos ricos. Produziram-se imensas crónicas e cartulários em Santiago de Compostela, até por uma questão administrativa."
Hélio Pires

Ao longo dos séculos, houve um conjunto de desastres que afetaram Portugal — como o Terramoto de Lisboa ou as pilhagens durante as Invasões Francesas –, e que fizeram com que muita documentação se fosse perdendo. “Isso não aconteceu em Espanha, nomeadamente na Galiza”, salientou o autor. A verdade é que Hélio Pires não encontrou em Portugal qualquer lenda que fizesse uma referência direta aos invasores nórdicos, mas isso não impede as pessoas de tentaram encontrar elos de ligação. Uma das perguntas que o investigador mais ouve tem a ver com o facto de os portugueses gostarem tanto de bacalhau. Não terão os escandinavos alguma coisa a ver com isso?

Perguntas como estas mostram que, apesar de terem passado vários séculos desde a última viagem dos marinheiros nórdicos à Península Ibérica e da sua influência ter sido praticamente nula, os vikings continuam a povoar o imaginário de portugueses e também de galegos. Mas não só: com a estreia da série Vikings, em 2013, os antigos guerreiros escandinavos ganharam uma nova popularidade, mas a verdade é que nunca se foram embora. Talvez uma das razões esteja no facto de, apesar de serem “habitantes do passado”, “as forças que os criaram não o são”. Independentemente dos motivos que levaram os vikings navegar para tão longe de casa, “este continua a ser um mundo onde existe fome, cheias e questões de sobrepopulação”. Como escreveu Jonathan Clements no final do livro The Vikings, “as nossas batalhas pelos recursos estão ser lutadas por procuração em terras distantes, mas continuam a existir”. “Só é preciso uma pequena reviravolta no destino, uma pequena falha na lei, para nos tornarmos vikings.” Afinal, não somos assim tão diferentes.

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