A antecipação do jogo da Supertaça Cândido de Oliveira que dá início à temporada 2019/20 foi feita à volta dos segredos — ou da falta deles. Bruno Lage, que deixou uma crítica expressa à comunicação social por ter multiplicado “um título de um tolinho” que provocou “reações tolinhas”, em referência à conferência em que disse que Bruno Fernandes não seria “o melhor médio ou o melhor central em campo”, garantiu na antevisão que não iria avançar com um onze provável dos leões. “Tenho uma ideia do onze do Sporting mas não vou dizer. O último treinador que disse o onze perdeu”, atirou o técnico encarnado, recordando o momento em que Sérgio Conceição avançou o onze do Benfica antes do clássico decisivo, em março, e acabou por perder no Dragão.

Do outro lado, Marcel Keizer garantiu que não quer saber qualquer segredo sobre os encarnados e que “no futebol, hoje em dia, já não há segredos”. “Acho que sabemos o suficiente sobre eles e também acho que eles sabem o suficiente sobre nós. Penso que não há grandes segredos neste tipo de jogos, em dérbis”, acrescentou o treinador holandês, que logo em seguida guardou um dos poucos segredos que diz ainda ter. “Não vou dizer a posição em que vai jogar o Bruno Fernandes. O Bruno pode jogar em várias posições. Na época passada jogou como número ’10’, acho que é a melhor para ele. Tem liberdade para colocar o seu jogo em campo e para colocar toda a sua energia em campo”, explicou Keizer, que procura este domingo conquistar o terceiro troféu desde que chegou a Alvalade.

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Ficha de jogo

Benfica-Sporting, 5-0

Supertaça Cândido de Oliveira

Estádio Algarve, em Faro

Árbitro: Nuno Almeida (AF Algarve)

Benfica: Vlachodimos, Grimaldo, Ferro, Rúben Dias, Nuno Tavares, Gabriel (Chiquinho, 82′), Florentino, Pizzi (Taarabt, 82′), Rafa, Raúl de Tomás (Jota, 87′) e Seferovic

Suplentes não utilizados:Zlobin, Ebuehi, Jardel, Vinícius

Treinador: Bruno Lage

Sporting: Renan, Thierry Correia, Coates (Diaby, 66′), Neto, Mathieu, Acuña (Borja, 84′), Raphinha, Doumbia, Wendel, Bruno Fernandes, Bas Dost (Luiz Phellype, 66′)

Suplentes não utilizados: Luís Maximiano, Ilori, Eduardo, Vietto

Treinador: Marcel Keizer

Golos: Rafa (40′), Pizzi (60′ e 75′), Grimaldo (64′), Chiquinho (90′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Acuña (20′), Doumbia (32′ e 89′), Rúben Dias (45+1′), Grimaldo (46′), Raphinha (49′), Ferro (50′), Coates (63′), Seferovic (70′), Bruno Fernandes (71′), Raúl de Tomás (72′); cartão vermelho a Doumbia por acumulação (89′)

Segredos à parte, a verdade é que Benfica e Sporting chegavam a esta Supertaça depois de duas pré-temporadas bastante distintas. Se os encarnados conquistaram a International Champions Cup, uma das competições de pré-época mais prestigiadas do mundo, os leões terminaram a preparação sem qualquer vitória e com golos sofridos em todos os jogos. Ainda assim, e tal como ambos os treinadores estabeleceram logo à partida, tudo isto pouco significava na antecâmara do primeiro jogo a contar, do primeiro troféu e da primeira possibilidade de festejos. Este domingo, no Algarve, as vitórias ou as derrotas das últimas semanas pouco importavam: afinal, tratava-se de um dérbi.

Na hora de escolher os primeiros onzes oficiais da temporada, Lage e Keizer surpreenderam pouco. O treinador encarnado lançou o jovem Nuno Tavares na direita da defesa, uma opção já previamente antecipada e que bate certo com o trabalho desenvolvido na pré-época, Gabriel e Florentino na zona intermédia, Rafa e Pizzi responsáveis pelos corredores e a dupla Raúl de Tomás e Seferovic no ataque. Do outro lado, Keizer repetiu a fórmula três centrais, já colocada em prática no ano passado e a espaços na pré-temporada, e juntou Neto aos habitualmente titulares Coates e Mathieu. Thierry Correia era o dono da direita da defesa, Acuña regressava diretamente para o onze inicial e para a posição de lateral esquerdo, e daí para a frente estavam os regulares Doumbia, Wendel, Bruno Fernandes, Raphinha e Dost.

Nos instantes iniciais, que tiveram desde logo um livre perigoso a beneficiar o Benfica no seguimento de uma falta sobre Rafa, adivinhava-se uma entrada forte dos encarnados, um bocadinho à semelhança daquilo a que a equipa de Bruno Lage habituou os adeptos ao longo da temporada passada e da pré-época que agora terminou. Ainda assim, um erro pouco habitual de Ferro acabou por garantir algum ímpeto ao Sporting: logo ao minuto 3′, Mathieu lançou Bruno Fernandes em velocidade para o contra-ataque e o capitão dos leões procurou um desvio da grande área, ao cruzar rasteiro a partir da esquerda quando a defesa encarnada estava ainda desorganizada. O central do Benfica cortou a bola e quase fez auto-golo, obrigando Vlachodimos a uma defesa muito apertada. A boa fase dos leões no jogo, proporcionada principalmente pelo bom momento de forma que Raphinha está a atravessar e pela enorme mobilidade de Bruno Fernandes, que ocupava o lugar nas costas de Bas Dost mas vagueava pelo terreno sem grandes amarras, acabou por esbarrar na pressão alta do Benfica, que foi progressivamente asfixiando as linhas de passe adversárias.

O Benfica começou a rendilhar o jogo a partir do primeiro quarto de hora, com Gabriel em destaque a aproveitar o espaço permitido pela primeira linha de pressão leonina. O Sporting permanecia mais recuado no relvado, à procura de transições rápidas que surpreendessem a defesa encarnada, com especial preferência pelo corredor esquerdo, onde o jovem Nuno Tavares estava a demonstrar dificuldades em parar Bruno Fernandes e não tinha propriamente ajuda de nenhum dos médios. Seferovic aproveitou uma transição rápida do ataque do Benfica para rematar mas Thierry Correia foi exemplar no desarme (16′) e Grimaldo viu Renan defender um livre direto (21′) mas as principais oportunidades de golo apareceram na outra baliza, onde o Sporting teimava em ser veloz na ida da bola desde o meio-campo até à grande área e apanhava a defensiva encarnada descompensada em várias ocasiões. Bruno Fernandes podia ter marcado duas vezes, obrigando Vlachodimos a duas intervenções acima da média (29′ e 38′), mas a falta de eficácia dos leões acabou por dar razão à máxima que dita que quem não marca sofre.

Numa fase em que o Sporting estava por cima do jogo, mais organizado e a descobrir espaço entre as linhas adversárias — principalmente nas costas de Nuno Tavares, explorado por Bruno Fernandes –, um passe medido com regra e esquadro por Pizzi descobriu Rafa atrás de Thierry Correia, que ficou dividido entre cobrir Raúl de Tomás e o avançado português e acabou por não conseguir intercetar a bola. Rafa, de primeira, bateu Renan e abriu o marcador no Algarve (40′), num golo contra a corrente do jogo e que apanhou o Sporting (e Keizer) de surpresa. Na ida para o intervalo, os leões precisavam de recuperar o ânimo perdido com o golo de Rafa e os encarnados necessitavam de cobrir melhor as dobras e o espaço entre o meio-campo e a defesa, onde muitas vezes Bruno Fernandes surgia demasiado móvel.

O avançar da segunda parte e a inexistência de grandes movimentações — à exceção de um remate de Raphinha no seguimento de um livre de Bruno Fernandes (50′) — levou Marcel Keizer a abandonar o esquema de três centrais e a colocar Mathieu na posição de lateral esquerdo e Acuña mais avançado, soltando Bruno para terrenos mais interiores. Depois de um início de segunda parte algo lento, com as duas equipas a encaixarem uma na outra e o Sporting a aguentar uma leve superioridade do Benfica, os encarnados acabaram por conseguir chegar ao segundo golo depois de um desentendimento quase inexplicável entre a normalmente bem oleada dupla de centrais leonina. Mathieu tinha a bola controlada à saída da área de Renan, Coates tocou sem que o francês estivesse à espera, Rafa aproveitou e serviu Pizzi, que atirou de primeira e junto ao poste da baliza do Sporting (60′).

Os minutos que se sucederam ao golo de Pizzi trouxeram o total desnorte para os leões, que não souberam reagir ao avolumar da desvantagem e recuaram cada vez mais no terreno. Uma falta dura de Coates ainda longe da baliza de Renan acabou por ser a oportunidade perfeita para Grimaldo, que atirou direto de pé esquerdo e sem hipótese para o guarda-redes brasileiro e levou para três golos a desvantagem leonina (64′). Keizer precisou de mais dois golos para reagir e tirou Bas Dost e Coates para lançar Luiz Phellype e Diaby, destruindo de vez a defesa a cinco e passando a atuar em 4x2x3x1. Os leões conseguiram introduzir alguma calma no jogo depois das substituições, criando duas oportunidades que poderiam ter motivado uma corrida atrás do resultado — primeiro Luiz Phellype a cabecear por cima, depois Bruno Fernandes a atirar ao lado de fora de área –, mas o quarto golo do Benfica, desenhado numa transição rápida novamente organizada por Rafa e Pizzi e que acabou com um remate cruzado do capitão encarnado que não deu hipótese a Renan (75′).

Bruno Lage ainda lançou Taarabt, Chiquinho e Jota, já depois de Raúl de Tomás ver Renan impedir o quinto golo (83′), e Marcel Keizer trocou Acuña por Borja — já em cima dos 90′, Chiquinho fez o 5-0 depois de Renan defender dois remates seguidos de Seferovic. No final da primeira partida oficial da época, o Sporting tem obrigatoriamente de retirar ilações, perceber o que falhou depois de uma primeira parte em que foi quase sempre superior e começar (finalmente) a trabalhar sem contar com a continuidade de Bruno Fernandes; do outro lado, o Benfica leva o primeiro troféu da temporada sem ter sido esmagadoramente superior e continua a ter na eficácia o seu maior trunfo. Os encarnados foram para o intervalo a vencer pela margem mínima e trouxeram para o segundo tempo a certeza de que teriam de fechar por completo as alas, por onde Bruno Fernandes estava a entrar com alguma facilidade, e eliminar o espaço entre linhas. Terminada essa tarefa, foi simples para o Benfica cavar um fosso para o Sporting e alavancar todo o jogo para a frente e para a baliza de Renan. No final, mais do que o facto de o Benfica ter vencido o Sporting, fica patente a ideia de que Bruno Lage venceu Marcel Keizer.