Uma equipa de investigadores em Portugal (Universidade de Lisboa) e Israel (Universidade de Tel Aviv) desenvolveu uma vacina contra o cancro que combina várias terapias diferentes aumentando a eficácia global do tratamento. Por enquanto ainda só foi testada em melanoma (cancro da pele) de rato, mas os investigadores já submeteram um pedido de patente provisória para o tipo de vacina desenvolvido e estão a preparar a criação de uma spin-off. Os resultados foram publicados esta segunda-feira na revista científica Nature Nanotechnology.

Tudo começou em 2012 ou 2013, conta Helena Florindo, a investigadora responsável na Universidade de Lisboa. Na altura, o foco era desenvolver uma vacina que conseguisse ajudar o sistema imunitário a reconhecer as células tumorais para que, assim, as pudesse combater mais facilmente. E conseguiram bons resultados, mas também perceberam que havia uma parte da resposta do organismo que ainda lhes era desconhecida.

“Vimos que a vacina tinha, já nessa altura, um efeito importante. Mas também percebemos que conhecíamos pouco ao nível do sistema imunológico, principalmente o que é que resulta da interação destas vacinas com as diferentes células do sistema imunológico”, diz Helena Florindo, coordenadora do grupo BioNanoSciences, do Instituto de Investigação do Medicamento, sobre o trabalho de doutoramento da investigadora Joana Silva, feito nessa altura.

A vacina tem no seu interior pequenas esferas de um polímero. Dentro das esferas estão porções de proteínas específicas das células tumorais que se pretendem atacar. O objetivo é que as células dendríticas (glóbulos brancos do sistema imunitário) encontrem estas nanopartículas e as “engulam”. E para as pequenas esferas serem ainda mais apetecíveis, estão revestidas por um açúcar (manose).

Se as células dendríticas “engolirem” as nanopartículas passam a apresentar as pequenas porções de proteínas tumorais à superfície (na membrana) como bandeirolas que outras células do sistema imunitário conseguem ver. Quando as células T (outro tipo de glóbulos brancos) encontra as “bandeirolas” das células dendríticas, aprende que deve atacar células que têm essas mesmas porções de proteína. Assim, as células T aprendem que células tumorais devem atacar. Vantagem ainda maior é quando se formam células T memória, uma espécie de células sábias, que guardam a informação para quando for preciso combater um invasor semelhante.

A esperança de Helena Florindo, por exemplo, é que estas células T memória — e, consequentemente, as vacinas que as estimularam — possam servir de prevenção para a reincidência do cancro ou para a formação de metástases. Isto porque, se tudo correr bem, o sistema imunitário já tem a informação que deve combater as células que têm aquele tipo de proteínas à superfície. Só os ensaios clínicos podem dizer se também pode ser útil para tratar o cancro numa fase inicial.

“Fomos um bocadinho atrás. Fomos tentar perceber e caracterizar a interação das vacinas com cada uma das fases da ativação desta resposta imunológica”, conta Helena Florindo. E o que verificaram é que as vacinas eram eficazes em todos as fases da ativação da resposta desejada.

As vacinas foram testadas em melanoma (cancro da pele) em ratos — com células tumorais de rato e com o sistema imunitário do rato ativo. A parceria com a Universidade de Tel Aviv surge da necessidade de testar a vacina com um tipo de melanoma diferente, mais agressivo, para verificar se era possível obter os mesmos resultados. E foi. Esse trabalho foi iniciado em 2015 e decorreu ao longo de três anos. Os resultados foram agora publicados, mas o percurso não foi assim tão linear.

Neste período, equipas independentes desenvolveram outros tratamentos de imunoterapia com o objetivo de combater as células tumorais ou de inibir umas células tumorais específicas que funcionavam como travão do sistema imunitário — alguns destes medicamentos já estão a ser usados nos doentes. Apesar de representarem um grande avanço no tratamento de alguns tipos de tumor, estas terapias continuavam a mostrar algumas limitações. A combinação da vacina com as imunoterapias existentes é que permitiu os bons resultados alcançados pela equipa.

“Conseguimos perceber o que estava impedir a eficácia das terapias que já existiam, e da própria vacina, e ao inibirmos essas células conseguimos ter uma resposta muito mais prolongada e uma eficácia muito maior. Isso só acontece quando os três componentes estão juntos [com a vacina]”, diz Helena Florindo.

No futuro, a equipa pretende criar uma spin-off, que possa criar a vacina a uma escala industrial para aumentar o número de ensaios tanto em laboratório, como, depois, em humanos. A ideia é voltar a testar este tipo de modelos de rato (que têm células tumorais e sistema imunitário de rato), mas depois testar com ratos humanizados (ratos com células tumorais humanas e com um sistema imunitário humano).

A equipa da Universidade de Tel Aviv, por sua vez, está a testar com células tumorais humanas num mini-cancro fora do organismo, mas é muito mais difícil testar uma vacina nestas condições. Sem falar que um mini-cancro numa experiência não responde da mesma forma que um cancro inserido num organismo. “Isso não nos dá uma resposta total, de tudo o que temos no sistema imunológico, a relação entre os diferentes mecanismos e a ligação entre eles”, explica Helena Florindo.

Questionada sobre quando poderia ter uma vacina deste tipo disponível para os doentes, Helena Florindo aponta cinco a 10 anos. Se tudo correr bem. Isto é, a vacina tem de passar várias fases nos ensaios clínicos com humanos: tem de mostrar-se segura — por exemplo, a resposta imunitária não pode ser tal que ataque outras células —, tem de se mostrar eficaz a tratar a doença e ainda que é uma boa alternativa enquanto tratamento.

Os resultados até agora mostraram o potencial no tratamento do melanoma. A equipa de Helena Florindo está a estudar o mesmo método com cancro da mama, cancro colorretal e cancro do pâncreas.

Atualizado às 17h30