Cultura / Literatura Seguir Israel recupera arquivos de Kafka e termina saga judicial com quase 11 anos Quando lutava contra a tuberculose, o escritor judeu checo Franz Kafka, autor de "O Processo" e "A Metamorfose", pediu ao seu amigo Max Brod para destruir todas as suas cartas e escritos. Agência Lusa Texto 07 Ago 2019, 18:31 i ▲A morte de Max Brod, em 1968, deu início a uma "história kafkiana" sobre o destino daqueles arquivos ATEF SAFADI/EPA ▲A morte de Max Brod, em 1968, deu início a uma "história kafkiana" sobre o destino daqueles arquivos ATEF SAFADI/EPA A Biblioteca Nacional de Israel revelou nesta quarta-feira documentos recuperados do escritor judeu checo Franz Kafka, terminando uma saga judicial sobre a sua propriedade com mais de 10 anos. Quando lutava contra a tuberculose num sanatório austríaco, o autor de “O Processo”, sobre os labirintos e extravagâncias do sistema judicial, e “A Metamorfose” pediu ao seu amigo Max Brod para destruir todas as suas cartas e escritos.Após a morte do escritor em 1924, Brod, nascido em Praga e também judeu, sentiu não poder responder aquele pedido. Em 1939, quando trocou a Checoslováquia ocupada pelos nazis por Telavive, levou os papéis de Kafka numa mala.Publicou depois numerosas obras e contribuiu para a celebridade póstuma de Kafka, considerado uma das principais figuras literárias do século XX. Mas a morte de Brod em 1968 deu início a uma “história kafkiana” sobre o destino daqueles arquivos, resumiu esta quarta-feira a porta-voz da Biblioteca Nacional de Israel, Vered Lion-Yerushalmi.O tesouro foi dividido e uma parte roubada antes de ser posta à venda na Alemanha. Desde março de 2008, a Biblioteca Nacional lutava para juntar e guardar a coleção em Israel, disse o seu presidente, David Blumberg, numa conferência de imprensa.“A Biblioteca Nacional reivindicou a transferência dos arquivos pois era o que Brod dizia querer no seu testamento”, declarou, adiantando: “Iniciámos um processo que levou 11 anos e terminou há duas semanas”. Em maio, após a decisão de um tribunal alemão, Berlim entregou milhares de artigos e manuscritos que terão sido roubados há 10 anos em Telavive para serem depois vendidos aos Arquivos literários alemães de Marbach e a colecionadores privados.Outros documentos encontravam-se no frigorífico de um apartamento em ruínas em Telavive, assim como em cofres bancários na mesma cidade.Um último lote encontrava-se num cofre-forte da sede do banco suíço UBS, em Zurique, e foi uma decisão recente da justiça suíça sobre ele que permitiu à Biblioteca Nacional de Israel encerrar a saga. “Registámos 60 dossiês da Suíça com material original”, congratulou-se, Stefan Litt, arquivista da biblioteca nacional e conservador da sua coleção de ciências humanas.A maioria dos documentos recuperados já foi publicada por Brod, mas a correspondência entre os dois amigos e outras notas, diários e reflexões de Kafka, fornecem informação valiosa sobre a personalidade do escritor, considerou.“Não temos aqui qualquer surpresa literária”, mas “sem Max Brod não saberíamos verdadeiramente quem é Kafka”, declarou Litt.