O plano foi desenhado à hora de almoço, em frente a um prato de borrego com especiarias e vegetais com caril. À mesa da residência de Chequers, este domingo, estavam o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, o seu conselheiro e antigo estratega de campanha pela saída da UE, Dominic Cummings, e cerca de uma dezena de whips, os funcionários do Governo que têm como objetivo assegurar a disciplina de voto na Câmara dos Comuns. A fazer fé no Daily Telegraph, foi ali que estes intervenientes fizeram um plano para expulsar do partido qualquer deputado tory que venha a aliar-se ao líder da oposição, Jeremy Corbyn, nesta semana decisiva para Reino Unido no Parlamento britânico.

Boris Johnson e a sua equipa decidiram apresentar a todos os deputados do Partido Conservador um ultimato: se apoiarem Corbyn para tentar impedir um Brexit sem acordo no Parlamento, serão expulsos do partido e impedidos de se recandidatar pelos seus círculos eleitorais nas próximas eleições.

A medida, como explica o Guardian, é especialmente arriscada porque pode traduzir-se numa perda efetiva da maioria parlamentar para o Governo. Ou seja, se os deputados ignorarem a ordem de Boris e arriscarem a expulsão, o Executivo — que atualmente tem apenas um deputado de diferença a assegurar a maioria nos Comuns — fica sem uma maioria efetiva na Câmara, já que todos os deputados rebeldes deixarão de estar abrangidos pela disciplina de voto dos tories. Se tal acontecer, a probabilidade de o país ir a eleições antecipadas torna-se mais elevada do que nunca.

Uma fonte do gabinete dos whips justificou assim a vários jornais britânicos a decisão do Governo: “Os whips estão a passar aos deputados conservadores uma mensagem muito simples: se não votarem com o Governo na terça-feira, irão destruir a posição negocial do Governo e a entregar o controlo do Parlamento a Jeremy Corbyn”, disse essa fonte.

Qualquer deputado conservador que faça isto irá ter a orientação de voto retirada e não poderá voltar a concorrer como candidato dos conservadores a uma eleição”, anunciou uma fonte próxima do Governo.

A medida poderá incluir uma série de deputados destacados e até ex-ministros de Theresa May: é o caso do ex-ministro das Finanças Phillip Hammond, do ex-ministro da Justiça David Gauke, e do ex-número dois do Governo David Lidington. A decisão para estes pesos-pesados do partido é por isso séria: como explica o editor de política do The Sun, James Forsyth, se votarem com a oposição “passarão a ser impedidos de se recandidatar pelo partido, pondo por isso fim às suas carreiras como deputados conservadores”. É por isso, crê o jornalista, que alguns estarão “relutantes” em fazê-lo.

Do lado destes deputados, contudo, surgem sinais em sentido contrário: “Isto é pura hipocrisia. Quase um quarto do Governo atual já furou a disciplina de voto”, disse uma fonte próxima ao Telegraph e ao Guardian. “Mas isto é uma questão de interesse nacional e já ultrapassámos o ponto em que as ameaças levam as pessoas a abandonar os seus princípios.”

O ex-ministro David Gauke também invocou o interesse nacional numa entrevista à Sky News, dizendo que os deputados têm de perceber se isso ou os seus interesses pessoais são mais importantes. À BBC, acusou Boris Johnson de estar a levar a cabo uma “purga” e de estar a tentar “transformar o Partido Conservador na direção do Partido do Brexit” de Nigel Farage.

Ao todo, o número de deputados tories rebeldes pode chegar aos 21. Esta semana, quando o Parlamento se reunir e Corbyn apresentar a sua proposta legislativa para travar um Brexit sem acordo, ficará claro quantos desses deputados cederam à ameaça do Governo e quantos decidiram desafiar as suas ordens.

À medida que a data prevista para o Brexit de 31 de outubro se aproxima — e com os deputados a trabalharem em contra-relógio após a suspensão do Parlamento ordenada pela Rainha, a pedido do primeiro-ministro —, as posições extremam-se. Laura Kuenssberg, editora de política da BBC, explica assim este plano de Boris: “Fazer aumentar a pressão nos rebeldes tories no início desta semana crucial pode criar um grupo conveniente de papões que podem ser atirados borda fora do partido e ser culpados.”

Mas o risco que o primeiro-ministro corre, ao colocar ainda mais em causa a sua maioria, também pode indiciar que está a considerar convocar eleições antecipadas, como especulam vários especialistas. “Um primeiro-ministro pronto para abdicar da sua minúscula maioria também parece ser um primeiro-ministro pronto para convocar eleições, se for preciso”, resume a editora da BBC.

Estes rumores de eleições antecipadas ganharam esta segunda-feira mais força depois de Johnson ter convocado um conselho de ministros para as 17h.