A primeira parte tinha sido intensa (54-49). De parada e resposta. Com uma eficácia de lançamento acima do normal neste Campeonato do Mundo. Mesmo em desvantagem (ainda que curta), os adeptos sérvios quiseram dar um ar da sua graça durante o aquecimento para o início do segundo tempo mas não perderam pela demora e foram os fãs argentinos que se destacaram. Aos saltos, a cantar, como é hábito ver nos estádios. No meio deste cenário, um jogador continuava concentrado na sua missão. Aquele jogador que ganhou muitos brancos, que já não tem cabelo comprido mas que continua a fazer a diferença.

O Argentina-Sérvia era não só o primeiro jogo dos quartos do Mundial de basquetebol mas também o mais aguardado, entre uma das poucas equipas ainda sem derrotas na prova (os sul-americanos) e um dos conjuntos mais vezes apontados como favoritos à vitória, que perdera apenas frente à Espanha na segunda fase da competição (os europeus). No final, houve surpresa. Que foi, em paralelo, um prémio para uma nova geração argentina guiada por Luis Scola, que aos 39 anos voltou a ser o melhor marcador da equipa comandada por Sergio Hernández rumo às meias-finais frente a Estados Unidos ou França.

Apesar do claro domínio nas tabelas dos sérvios, que apresentaram uma equipa com quatro jogadores de NBA (Jokic, dos Denver Nuggets; Bjelica e Bogdanovic, dos Sacramento Kings; e Marjanovic, dos Philadelphia 76ers), a Argentina fez prevalecer a melhor eficácia de lançamento de dois e três pontos para se manter na frente do marcador ao longo de quase toda a partida, a vacilar só no final do terceiro período. Facundo Campazzo e Nicolàs Laprovíttola, ambos do Real Madrid, seguraram a equipa nessa fase mas foi Scola, um antigo jogador de NBA durante uma década (Houston Rockets, Phoenix Suns, Indiana Pacers, Toronto Raptors e Brooklyn Nets) que jogou nos últimos dois anos na Liga chinesa – após a passagem pelos Shanxi Brave Dragons, representa os Shanghai Sharks –, a dar o exemplo nos momentos chave, chegando aos 20 pontos na conta pessoal.

A 15 segundos do final de um jogo que terminaria em 97-87, o poste, também conhecido como El Abuelo, saiu para a ovação de pé. E uma ovação que, ao contrário do que se passou no intervalo, foi transversal ao público presente no Dongfeng Nissan Cultural and Sports Centre, em Dongguan. Estava consumada a primeira grande surpresa nesta fase a eliminar, celebrada de forma efusiva por todos os jogadores até Scola reunir todo o grupo para uma mensagem antes da saída para os balneários. Depois da final em 2002 e do quarto lugar em 2006 (com uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos pelo meio), a Argentina voltou a entrar nas quatro melhores equipas mundiais. Sem Ginóbili, sem Nocioni, sem Oberto mas com Scola. O eterno Scola.