Os tempos mudaram mas existem algumas ideias que nunca perdem atualidade e muitos elementos que trabalham na Academia do Sporting, em Alcochete, continuam a acreditar que devem ser meras exceções e não regras os jogadores que chegam ao clube no último ano de juvenil ou mesmo já juniores – sendo que Nani, que chegou vindo do Real Massamá com idade de juvenil de segundo ano mas para reforçar o escalão acima, é uma dessas raras histórias de atletas que acabariam por vingar como seniores nessa condição. Além dele, e olhando para os últimos anos, houve o caso de Palhinha, antigo júnior do Sacavenense que está hoje no Sp. Braga, e de Pedro Marques, um avançado ex-Belenenses que acabou por não dar (para já) o salto para a equipa A.

Vem esta introdução a propósito de Pedro Mendes, goleador da equipa Sub-23 que apontou sete golos nos primeiros seis jogos pela formação secundária verde e branca (noutras tantas vitórias) que fez esta noite em Eindhoven a estreia pelos seniores com um golo na primeira vez que tocou na bola e apenas 73 segundos depois de ter rendido Miguel Luís no conjunto de Leonel Pontes: também ele, nascido em Guimarães, começou no Vitória, passou pelo Sandinenses, destacou-se nos juvenis do Moreirense e foi para Alcochete já como júnior, em 2017/18. Conseguirá também ele contrariar essa tal lógica da formação?

Avançado com características mais de área, num sentido de ‘9’ mais puro apesar da mobilidade em campo, Pedro Mendes foi recrutado exatamente por ter essa especificidade que era vista como uma carência a nível de formação e, após uma primeira época mais discreta nos juniores com apenas seis golos em 22 jogos, conseguiu dar o salto na estreia da equipa Sub-23 na temporada transata, terminando como melhor marcador dos leões na prova com 18 golos em 34 encontros. Esta época, a melhor desde que chegou ao Sporting, mereceu a chamada aos treinos da equipa A com Leonel Pontes e, agora, uma estreia de sonho. Uma estreia que não terá continuidade apenas porque… não foi inscrito pelo clube na Primeira Liga.

“Uma das primeiras decisões tomadas foi a inscrição do Pedro Mendes na Liga Europa. No Campeonato não foi possível porque a data já tinha expirado. Este não é o melhor contexto para ele mas, tendo em conta as suas caraterísticas, temos de aproveitar o balanço para lhe dar a oportunidade. É uma janela para ele e também para os outros, porque o Sporting, como instituição, tem sido pioneiro no lançamento de jovens jogadores para o mais alto nível”, comentou na antecâmara do encontro o técnico leonino, “justificando” a não inscrição na Primeira Liga… sem que se percebesse a razão de não ter sido inscrito antes.

“É um jogador com alguma imprevisibilidade mas claro que com as suas características é um jogador que pode ajudar em alguns momentos da época. Acredito que ele ficou contente com esta oportunidade”, referiu após o jogo na Holanda sobre o jogador contratado ao Moreirense no verão de 2017 por 300 mil euros (ficando o clube com 60% dos direitos económicos). Mais ou menos imprevisível, o avançado conseguiu fazer algo que apenas Rafael Leão conseguira este século no Sporting: ser o segundo português a estrear-se com um golo pela equipa principal, algo que o agora jogador do AC Milan fizera antes frente ao Oleiros. Em paralelo, Pedro Mendes foi o primeiro jogador leonino a marcar na estreia num encontro para as competições europeias.