Quanto tempo tem o tempo? Para um treinador há alguns anos no clube e com uma situação estável, um dia é uma hora – porque no futebol essa coisa do tempo será sempre muito relativa, até para quem tem a sua condição mais segura. Para um treinador que acabou de ser promovido dos Sub-23 e com um contexto indefinido, um dia não chega a ser um minuto. E ainda menos é tendo em conta que, por causa das seleções e dos respetivos compromissos, muitas das unidades de treino não contaram com muitos dos jogadores do plantel. Foi por isso que, no final do empate frente ao Boavista, Leonel Pontes chegou a falar num “resultado bom tendo em conta as circunstâncias”. Mesmo sabendo que, estando no Sporting, não é propriamente assim.

Na antecâmara da estreia na Liga Europa, frente ao PSV e num país que diz muito ao conjunto verde e branco nas competições internacionais (foi na Holanda que o clube ganhou o primeiro jogo europeu, naquela que foi também a primeira vitória de uma equipa portuguesa na Taça dos Clubes Campeões Europeus frente ao DOS Utrecht por 4-3), o treinador interino que substituiu Marcel Keizer apresentou um discurso de confiança, argumentando que “os orçamentos e o passado não jogam” e que a equipa tinha de “assumir o papel de candidato” à vitória – e à passagem à próxima fase da prova. No entanto, admitiu que lhe falta mais tempo de trabalho com o plantel. “É preciso criar dinâmicas importantes na equipa e, como não temos vindo a treinar, o jogo serve para melhorar alguns aspetos de dinâmicas coletivas”, explicou o madeirense.

Leonel Pontes não tem um plantel; herdou um plantel. Um plantel que fechou o mercado a deixar os responsáveis satisfeitos mas que continua com evidentes lacunas, um plantel com elementos ainda em período de adaptação a uma nova realidade, um plantel onde a principal referência ofensiva da formação Sub-23 (Pedro Mendes) está disponível para a Liga Europa mas não para a Primeira Liga porque o prazo de inscrição na prova nacional já tinha expirado. A isso juntou-se ainda o azar das lesões, com o único jogador na prática insubstituível pelas suas características (Luiz Phellype) a ficar mais uma vez de fora por problemas de ordem física. Perante este cenário, o técnico olhou para a floresta e deixou de se fixar apenas na árvore seguinte.

Um dia, numa das raras entrevistas que ia dando ao longo de mais de quatro anos no comando do Sporting, Paulo Bento explicou de forma linear o porquê de não utilizar extremos como era habitual na equipa verde e branca – numa equipa com 11, ou dez jogadores de campo, “gastar” duas vagas para preencher todo o campo em alas teria de ser com a condição de fazerem de facto a diferença, algo que naquela altura não havia como antigamente com Quaresma e Cristiano Ronaldo. Neste caso, e após a saída de Raphinha, sobram jogadores como Gonzalo Plata, Jovane Cabral e Rafael Camacho, que precisam de tempo que Leonel Pontes não tem. Por isso, também o técnico arriscou esse losango, que teve aspetos positivos (a liberdade ofensiva que Bruno Fernandes ganha) e pontos negativos (as dificuldades de Doumbia e a exposição dos centrais). A derrota com o PSV por 3-2 não se explica pela tática mas tem muito mais que se lhe diga do que os números mostram. Sobretudo porque existe outra derrota: não ter Pedro Mendes inscrito para o Campeonato, o que poderia travar o carrossel de dúvidas sobre ter ou não ter avançados…

Ficha de jogo

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PSV-Sporting, 3-2

1.ª jornada do grupo D da Liga Europa

Philips Stadion, em Eindhoven (Holanda)

Árbitro: Ivan Kruzliak (Eslováquia)

PSV: Zoet; Dumfries, Baumgartl, Viergever, Boscagli; Rosario, Hendrix; Ihattaren (Gakpo, 64′), Bergwijn, Bruma (Ritsu Doan, 78′) e Malen (Sadílek, 84′)

Suplentes não utilizados: Ruiter, Schwaab, Teze e Mitroglou

Treinador: Mark Van Bommel

Sporting: Renan Ribeiro; Rosier, Coates, Neto, Acunã; Doumbia, Wendel (Rafael Camacho, 90+1′), Miguel Luís (Pedro Mendes, 80′) Bruno Fernandes; Bolasie e Vietto (Jovane Cabral, 64′)

Suplentes não utilizados: Luís Maximiano, Tiago Ilori, Borja e Eduardo

Treinador: Leonel Pontes

Golos: Malen (20′), Coates (25′, p.b.), Bruno Fernandes (38′, g.p.), Baumgartl (48′) e Pedro Mendes (82′)

Ação disciplinar: amarelo a Rosario (12′), Doumbia (3o’), Acuña (44′), Bruno Fernandes (53′), Neto (85′) e Jovane Cabral (90+4′)

Os primeiros minutos ainda deixaram uma imagem algo enganadora em relação ao que se passaria no resto do jogo, com os leões a falharem na entrada no último terço mas a conseguirem bloquear da melhor forma as transições ofensivas dos holandeses, a sua principal arma para chegar a zonas de concretização. Era um jogo sem balizas, onde o Sporting quase parecia não se importar com a forma como se anulava pela falta de unidades na frente mas para anular o ponto forte do adversário. E até foi Bruno Fernandes, numa situação em que ganhou espaço à entrada da área, a rematar para defesa segura de Zoet (12′). No entanto, e num filme já antes visto esta temporada, a mínima distração em termos defensivos tem consequências máximas para a equipa verde e branca – e Malen, o mais recente wonder kid da Holanda, fez o décimo golo da temporada (em setembro…).

Num lance que começou num corte da defesa do PSV na sua área, os holandeses precisaram apenas de três toques para fazerem a exploração da profundidade nas costas da última linha verde e branca. E o lance nem parecia trazer perigo imediato, tanto que Coates até evitou tocar em Malen quando fez o cruzamento com o companheiro de eixo recuado Neto. Mas aquele movimento era mesmo tudo menos fogo de vista, com o avançado holandês a partir para o 1×1 ainda fora da área, a fletir para dentro, a rematar forte com a bola a sofrer ainda um ligeiro desvio no central ex-Zenit e a entrar pela primeira vez na baliza de Renan (20′).

O carrossel ofensivo do PSV ainda não tinha aparecido de forma muito visível mas a eficácia na primeira transição ofensiva que chegou às costas da defesa do Sporting acabou por dar outro ânimo à equipa e foi mais uma moedinha, mais uma voltinha: já depois de Wendel ter rematado com perigo para Zoet defender a dois tempos (22′), a melhor jogada do encontro, toda ao primeiro toque e a passar por metade da equipa holandesa, encontrou Bruma sozinho na direita para um cruzamento rasteiro desviado de forma infeliz por Coates para a própria baliza, naquele que foi o terceiro autogolo do uruguaio nos leões (25′).

Em cerca de cinco minutos, a equipa que não conseguia ter jogo no setor onde se sente mais confortável, o ataque, acabou por passar para frente do marcador com dois golos nos únicos dois remates feitos à baliza do conjunto português. Ainda antes do intervalo, na sequência de uma grande penalidade conseguida por Bolasie e convertida por Bruno Fernandes, o Sporting ainda reduziu e entrou de novo no jogo mas tinha a obrigatoriedade de melhorar em muitos aspetos para poder ainda discutir de forma real o resultado em Eindhoven. Ou num, em especial: a dinâmica num meio-campo onde Doumbia perdeu todos os duelos na primeira hora, Miguel Luís não arriscou um único passe vertical e Wendel pisava terrenos erráticos no vértice lateral do losango.

Em menos de 15 minutos, Leonel Pontes teria de fazer aquilo para o qual não tem tempo nos treinos e que só consegue remediar mesmo em jogo: trabalhar envolvimentos coletivos e melhorar o rendimento individual de elementos que cumpriam os primeiros minutos de competição na equipa principal (Miguel Luís) ou que tinham missões diferentes das habituais em mãos (Wendel ou Vietto). No entanto, e por melhores que fossem as explicações nesse tempo de descanso, havia uma premissa sem a qual pouco ou nada poderia funcionar – entrar com a mesma consistência em campo como na primeira parte. Não foi isso que aconteceu, bem pelo contrário: no seguimento de um pontapé de canto com desvio inicial ao primeiro poste, Baumgartl apontou o 3-1 (48′).

Em dois momentos distintos, o encontro partiu. Numa primeira fase, com o PSV mais por cima e a colocar Renan em sentido por mais do que uma ocasião enquanto Bruno Fernandes, o mesmo do costume, acertou no poste após cruzamento largo de Acuña da esquerda (55′); num segundo período, com o Sporting mais por cima até em termos territoriais, a acertar melhor as zonas de pressão mais adiantadas e a tentar muito através da meia distância, num duelo particular do capitão verde e branco com Zoet onde o guarda-redes dos holandeses levou a melhor em quatro ocasiões distintas, defendendo quase sempre para canto.

O Sporting precisava de outros argumentos para conseguir rematar na área, o que tinha feito apenas por duas ocasiões, mas acabou por escrever direito por linhas tortas: Pedro Mendes, o avançado dos Sub-23 que levava seis golos em sete encontros pela equipa secundária verde e branca, fez a estreia pelos seniores e demorou pouco mais de um minuto para marcar num grande lance individual em que saiu da área com um defesa nas costas, conseguiu rodar colocando de forma orientada a bola ao alcance do seu pé direito e rematando colocado sem hipóteses (82′). Depois, os leões já não tiveram capacidade de forçar o golo do empate e estiveram até perto de sofrer o quarto mas não demorou muito a perceber onde podem estar as respostas leoninas em fases de maior necessidade ofensiva. Sobra, isso sim, uma pergunta: quem não inscreveu Pedro Mendes na Liga?