Quaisquer que fossem as expectativas em torno dos modelitos escolhidos por Cristina Ferreira para apresentar os Globos de Ouro (e, atenção, elas eram muitas e variadas), nenhuma fazia prever o desfile de contornos carnavalescos a que o país inteiro assistiu no último domingo. Em cinco vestidos, a anfitriã conseguiu uma série de proezas espetaculares, desde simular um par de asas ao estilo Victoria’s Secret até ao momento em que surge envolvida em plumas cor-de-rosa. Pelas nossas contas, à estrela da SIC só faltou menos usar o vestido de carne de Lady Gaga.

O facto é que Cristina teve um grande e luxuoso camarim à disposição, decorado a rigor por uma empresa chamada Fontenelle Decorações, que, embora seja especializada em casamentos, deu tudo nos bastidores do coliseu. Jamais aquele décor poderia servir de cenário a figurinos medianos. Outro dos pontos que pode justificar as escolhas extravagantes da apresentadora é a autodefesa. Está visto que se vestiu para causar, mas também para que o aparato em torno destas peças se sobrepusesse a qualquer percalço no seu desempenho enquanto condutora da gala. Qualquer que fosse o deslize — fruto do nervosismo que, sem dúvida, estava lá — a coroa pontiaguda falaria sempre mais alto.

Um vislumbre do camarim de Cristina Ferreira, no Coliseu dos Recreios © Instagram.com/dailycristina

Faz sentido falar em mau gosto? Ou será tudo um grande culto do excesso? Para responder, teríamos de analisar camadas de Cristina que, de momento, nem sequer estão ao nosso alcance. Na dúvida, mais vale assumir a culpa: não estávamos devidamente preparados para vê-la a apresentar os Globos de Ouro e apanhámos um susto.

A obra-prima tentacular de Micaela Oliveira

Caso não tenha reparado, Cristina Ferreira surgiu no meio de um corredor humano formado por elementos da Companhia Nacional de Bailado. Pelo palco, já tinham passado também bailarinos com LEDs no corpo uma projeções de video mapping. De repente, era a rainha das fadas que chamava para si todas as atenções. Cristina apressou-se a explicar a indumentária que, na verdade, devia fazer-se acompanhar de uma folha de sala. Uma criação de Micaela Oliveira. O vestido não era propriamente bonito e a estrutura nas costas tinha qualquer coisa de Mangueira. O que não sabíamos — e que a apresentadora explicou — é que a peça foi feita a partir de restos de cortiça e que os tentáculos à retaguarda eram uma representação de algas marinhas. Sem ajuda, nunca teríamos chegado lá.

Vestido Micaela Oliveira, sandálias Aquazzura e joias Machado Joalheiro © Instagram.com/dailycristina

Elisa Carvalho, a costureira que não é da Malveira

Ao segundo look, Cristina apareceu com o seu quê de Rainha de Copas. Mesmo assim, este até pode ser considerado o mais discreto dos vestidos usados pela apresentadora durante a gala dos Globos de Ouro. Foi com este vestido que se dirigiu à concorrência, cumprimentado, de longe, Filipa Garnel e José Fragoso. Afinal, era o mais digno da noite, por isso acabou por ser uma boa decisão encetar e finalizar as relações externas. Tivemos, em seguida, a oportunidade de conhecer Elisa Carvalho, a costureira que executou a peça. Pouco mais sabemos dela, apenas que se dedica ao ofício há mais de 40 anos e que, segundo Cristina, não vive na Malveira. De caminho, a dona Elisa ainda subiu ao palco de braço dado com João Manzarra e apresentou o prémio de Personalidade do Ano na categoria de moda.

Um vestido de Elisa Carvalho © Instagram.com/dailycristina

O vestido quase matou João Rôlo

Não é nada de preocupante, apenas uma forma de dizer que o terceiro vestido da noite deu muito, mas muito trabalho a João Rôlo e à sua equipa. Estão aqui 870 horas de trabalho, não é à toa que foi a peça de maior envergadura. Tinha plumas, tinha pedraria, tinha transparências… Em suma, talvez tivesse sido melhor escolher um destes elementos, ou dois no máximo, nem que para isso fosse preciso juntar um sexto vestido ao guarda-roupa.

O vestido de alta-costura João Rôlo, com sandálias (que não se veem) Giuseppe Zanotti © Instagram.com/dailycristina

O quase Tom Ford de Cristina Ferreira

Cristina Ferreira Nunca esteve tão perto (e provavelmente não voltará a estar) do look de Gwyneth Paltrow em 2012. Uma criação de Tom Ford, composta por um vestido e uma capa brancos, destinada a habitar no Olimpo da passadeira vermelha dos Óscares para sempre. Na parte de trás, esta criação do designer espanhol Roberto Diz, tinha uma imagem de Nossa Senhora, portanto, mais um check na lista de referências e elementos presentes no guarda-roupa de Cristina: culto mariano. A peça que usou na cabeça podia, na verdade, desfilar em qualquer Met Gala sem causar grande alarido. É óbvio que no Coliseu dos Recreios vai estar à mercê de outras leituras. No Instagram, por exemplo, José Castelo Branco já perguntou se a apresentadora é a Estátua da Liberdade.

Um vestido de Roberto Diz e um toucado de Cata Vassalo © Instagram.com/dailycristina

Folies bergère no coliseu

Cristina deixou o mais divertido para o fim — um vestido curto, caicai, de plumas cor-de-rosa. É fácil fantasiar com esta peça e a apresentadora esfregou-nos as plumas na cara para acordarmos do tédio em que estávamos mergulhados, mais por culpa da gala do que nossa. Foi com ele que entregou o Prémio Mérito Excelência ao lado de Francisco Pinto Balsemão e que se despediu dos Globos de Ouro com um “até amanhã”. Pena que, ao nível do guarda-roupa, na segunda-feira vá ser tudo muito menos entusiasmante.

O vestido do designer português David Ferreira, com sandálias Jimmy Choo e joias Machado Joalheiro (como, aliás, durante toda a gala) © Instagram.com/dailycristina