Sim, o Palácio Sinel de Cordes, atual sede da Trienal de Arquitetura e antiga residência de ricas famílias, foi em tempos uma escola primária. Aliás, não é preciso escavar muito fundo nesta arqueologia porque, até há pouco mais de uma década, o dito estabelecimento, inaugurado algures nos anos 30 do século passado, ainda instruía pequenos rufias. Esta quinta-feira, os designers da Workstation foram responsáveis por marcar o início da 53ª edição da ModaLisboa, mas também por resgatar do passado o palácio que já foi recreio.

António Castro, Archie Dickens, Cristina Real, Federico Protto, Opiar e Rita Afonso ocuparam cinco salas com propostas para a próxima primavera. Aqui, a pequena escala das coleções e o formato de performance funcionam como indicadores de liberdade. Liberdade para brincar com conceitos, materializá-los de forma mais ou menos literal e até para encenar narrativas que nascem com a roupa.

António Castro © Melissa Vieira/Observador

Num quarto escuro, António Castro regressou a esta plataforma de experimentação com a teatralidade que já lhe é característica. Mas que o aparato dos manequins a vaguear com lanternas apontadas à própria cara não nos distraia do verdadeiro plus da coleção. “Young Bright Things Young Bright People” nasceu do reaproveitamento de materiais antigos, um universo estético um tanto ou quanto fantasioso, porém criado à base de tecidos perdidos em stocks, e que de outra forma não seriam aproveitados, e da transformação de peças vintage.

Rita Afonso © Melissa Vieira/Observador

Enquanto isso, Rita Afonso mostrou “Amadeu”, uma silhueta infantil que transformou uma sala da antiga escola num jardim de infância. Peitilhos fazem lembrar babetes, vestidos largos e curtos remetem-nos para bibes, as malhas de ar mimoso são aqueles agasalhos de bebé que a idade adulta inviabiliza. A idade adulta, mas não Rita, que constitui um guarda-roupa que, ao mesmo tempo que é uma nostalgia da infância, vem com a leveza indispensável aos dias que correm. A cereja no topo do bolo foram, na verdade, maçãs e beringelas tricotadas e na forma de brincos.

Archie Dickens © Melissa Vieira/Observador

Depois de passar pelo Sangue Novo, Archie Dickens, o designer britânico que trocou Londres pelos Anjos, chegou à Workstation com uma coleção que teria feito um enorme brilharete nos tempos da Estufa Fria. Não que no Campo de Santa Clara tenha sido diferente. A harmonia de verdes e o predomínio de malhas fez de “Sapal” uma série de peças intemporais, de certa forma, sem estação até. Na mesma sala, também rodeada de público (tal como ordena o esquema expositivo de um palácio desta categoria), Cristina Real iniciou o seu “Chapter Eleven”, uma mistura de farda executiva feminina com os excessos revivalistas (e coloridos) da cultura pop e dos frenéticos anos 80. À mulher real, trabalhadora e emancipada, a criadora quis trazer um toque de diversão.

Cristina Real © Melissa Vieira/Observador

Opiar, a identidade artística do jovem Artur Dias, sofreu uma depuração da forma. O designer regressou ao seu passado (certamente recente) como bailarino e trouxe da dança contemporânea a fluidez, o conforto e a leveza que caracterizam “Penumbra”. Dividida entre o preto e o branco, o criador quis cingir-se a um vestuário real e usável, sem comprometer a sua linha conceptual. Opiar está pronto para o mercado, venha ele.

Opiar © Melissa Vieira/Observador

No final do percurso — feito de forma ordeira por um corredor entre a parede e uma fita vermelha que marcava o chão — estava Federico Protto. E sim, o criador uruguaio foi um grande rufia ao queimar sálvia branca durante a apresentação de “Antigone 2020”. O aroma intenso acabou por impregnar essa e todas as outras coleções, mas enfim, recreios. Da tragédia de Sófocles para a moda, esta não é propriamente uma coleção para o próximo verão. Protto produziu as peças para um espetáculo interdisciplinar, apresentado primeiramente no Schwere Reiter, em Munique. Parte da performance veio agora a Lisboa.

Federico Protto © Melissa Vieira/Observador

Após as apresentações da Workstation, as peças dos criadores seguem para o espaço das antigas oficinas gerais onde ficarão durante o fim de semana. Ao final da tarde, o programa prosseguiu com as Fast Talks, no Mercado de Santa Clara. Joana Barrios moderou uma conversa sobre o impacto positivo da moda nos dias de hoje. Sexta-feira é o primeiro dia de desfiles e começa com Sangue Novo. Seguem-se Hibu, Colisão Studios, Valentim Quaresma e Awaytomars.