Na última reunião do Conselho do BCE presidido por Mario Draghi, o italiano congratulou-se pela “perseverança” demonstrada por si e pelos outros membros do Conselho do BCE, ao longo deste “intenso” mandato de oito anos que termina no fim do mês — mesmo não tendo conseguido nunca cumprir o mandato de manter a inflação perto de 2%. O presidente do Banco Central Europeu (BCE) garantiu que as medidas tomadas, designadamente as compras de dívida e as taxas de juro negativas, têm um impacto “positivo, globalmente” — e sublinhou que os riscos estão a ser “monitorizados”, afirmou Draghi, que garante não ter conselhos a dar à sua sucessora.

Christine Lagarde, a francesa que no início do próximo mês assume a liderança do BCE, “sabe perfeitamente” o que tem de fazer, tanto na política monetária como em outras matérias, designadamente a forma como deve enfrentar as críticas de que Mario Draghi foi alvo — sobretudo vindas da Alemanha, nos últimos anos — pelas medidas extraordinárias que tomou, que têm como efeito a compressão das taxas de juro.

Não é necessário qualquer conselho, ela sabe perfeitamente o que tem de fazer“, afirmou Draghi, acrescentando que Lagarde “tem muito tempo pela frente para formar a sua própria ideia, em conjunto com o conselho”.

Lagarde já esteve presente nesta última reunião do Conselho do BCE presidida por Draghi, mas não falou, garantiu o italiano.

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Numa conferência de imprensa em que se falou mais sobre o passado e o futuro de Mario Draghi — porque não houve qualquer novidade anunciada na área da política monetária — o italiano reconheceu que liderar o BCE desde 2011 foi uma “experiência intensa, profunda e fascinante“.

E lamentou que não tenha sido possível entregar a liderança do banco central com a política monetária firmemente a caminho da normalização. A estratégia era essa, em 2017, mas, depois, “as circunstâncias alteraram-se“. “E o que conta é a perseverança em perseguir o mandato e, portanto, tivemos de mudar o curso”, afirmou Draghi, reconhecendo que ao passo que dantes havia um receio de que as taxas de inflação ficassem em níveis baixos durante algum tempo (mas depois subissem), agora a perceção é que não é fácil antecipar uma subida da inflação.

Na despedida, Mario Draghi diz que se sente “como alguém que tentou cumprir o mandato da melhor forma possível“. Mesmo não tendo nunca conseguido aproximar-se do mandato de uma inflação de 2% — Draghi deu a entender que se teria ficado bem mais longe do objetivo se as medidas de estímulo não tivessem sido tomadas. A maior vitória de Draghi, segundo o próprio, é que este BCE tenha sido um “banco central credível“.

Draghi não revelou o que pretende fazer no futuro, fugindo a comentar as apostas de que, mais tarde ou mais cedo, tentará a presidência de Itália.

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