Mario Draghi diz-se “otimista” de que a zona euro acabará por ter maior “integração política”, o que irá incluir um orçamento gerido de forma centralizada. Porém, o italiano, que abandona a presidência do Banco Central Europeu no final de outubro, defende que, antes disso, os países com capacidade para estimular a economia através de estímulos orçamentais devem fazê-lo — algo que é “mais urgente do que nunca”. Prestes a terminar um mandato de oito anos em que foi decisivo para a história da zona euro, Mario Draghi garante que, embora continuem a existir dificuldades, “os adversários do euro não tiveram sucesso”.

“Tendo em conta a fragilidade inerente dos estados nacionais num mundo globalizado, aquilo que importa é que temos de tornar a união monetária mais robusta. E, em algumas áreas, este objetivo atinge-se com uma maior integração política”, afirma Mario Draghi numa entrevista ao Financial Times.

Em termos concretos, o que isso implica é, entre outras matérias, um orçamento público comum na zona euro. “Claramente o debate político em torno disso ainda tem um caminho a percorrer. Mas estou otimista”, garante o italiano, que irá ceder o lugar a Christine Lagarde na liderança do Banco Central Europeu (BCE).

Mario Draghi garante estar confiante de que Lagarde será uma “excelente” líder do banco central e descreve o cenário que a francesa vai encontrar como uma zona euro que enfrenta dificuldades mas onde os “adversários do euro” — chama-lhes “soberanistas” — perderam. Perderam na crise grega, já que a Grécia não saiu da zona euro, e perderam a batalha política nas eleições europeias de maio último.

Além disso, os mercados financeiros tiveram a reação positiva que Mario Draghi esperava provocar quando, em julho de 2012, garantiu que iria fazer “tudo o que for necessário” para preservar a união monetária.

Todas as decisões de política dependem das circunstâncias, mas não tenho qualquer razão para pensar que as pessoas que se vão sentar nestas cadeiras vão interpretar o nosso mandato de forma diferente da interpretação que foi feita pelo conselho do BCE no verão de 2012″.

No curto prazo, porém, o que é mais “urgente” — “mais urgente do que nunca” — é que os países onde existe margem orçamental para estimular mais a economia tomem essa decisão. “Tenho falado sobre a política orçamental como um complemento necessário, além da política monetária, desde 2014. Mas essa é uma necessidade que é, hoje, mais urgente do que nunca”, afirma o italiano.

Fizemos o suficiente? Sim, fizemos — e temos capacidade para fazer mais. Mas, faz sentido perguntar, o que está a faltar? A resposta é a política monetária — está aí a grande diferença entre a Europa e os EUA”.

Muito criticado — na Alemanha mas não só — por ter avançado com uma nova intensificação dos estímulos monetários à economia, Mario Draghi reconhece que as compras de dívida e os juros negativos produzem “efeitos negativos” que serão “cada vez mais visíveis à medida que o tempo passa”. Daí que seja “urgente” agir pelo lado orçamental, para fomentar o crescimento económico no bloco e fazer acelerar a taxa de inflação até um nível mais próximo do objetivo que o BCE tem de cumprir.

Berlim recusa fazer galopar a despesa para atacar arrefecimento económico

As ideias transmitidas por Draghi na entrevista ao Financial Times vêm na sequência daquilo que o presidente BCE tinha defendido em Bruxelas, há uma semana: a existência de um “instrumento orçamental central” na zona euro, ainda que “perfeitamente consciente das dificuldades políticas” para o criar, devido à “falta de confiança” entre Estados-membros.

No seu “diálogo” de despedida com a Comissão de Assuntos Económicos e Financeiros do Parlamento Europeu, perante a qual compareceu ao longo dos últimos oito anos enquanto presidente do BCE, Draghi passou em revista algumas das “lições” retiradas do seu mandato e, entre as falhas detetadas, apontou a ausência de um instrumento orçamental centralizado na área do euro.

“Ao comparar a resposta da zona euro à crise com a resposta de outras economias avançadas, é evidente que estas últimas foram capazes de alcançar na altura uma combinação de políticas macroeconómicas melhor, graças a ações mais decisivas tanto no domínio orçamental como no financeiro”, declarou, apontando que “uma diferença fundamental”, comparando por exemplo com a resposta dos Estados Unidos, “foi a falta de um instrumento orçamental central, para atuar de forma contracíclica ao nível federal”.

Estou perfeitamente consciente das dificuldades políticas para construir um tal instrumento na zona euro. Também existem dificuldades semelhantes nas discussões sobre como completar a união bancária e no estabelecimento de uma verdadeira união de mercados de capitais”, observou o presidente do BCE.

Em resposta a questões dos eurodeputados, Draghi desenvolveu a ideia e comentou que, “para ser eficaz”, um tal instrumento orçamental “deve ter uma dimensão adequada e deve operar de uma forma automática, para ser atempado”, mas deve também “ser apoiado por todos os Estados-membros”.

Draghi volta a cortar as taxas de juro e relança “bazuca” sem votação no BCE