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“Edward Snowden, consegue ouvir-me?”. A questão do jornalista James Ball deu o mote para que os dois ecrãs do palco central da Web Summit mostrassem, em direto da Rússia, a imagem daquele que era um dos oradores mais aguardados para o dia de arranque da conferência de tecnologia e empreendedorismo. Foram 20 minutos em que a privacidade dos dados dominaram o tema de conversa. E a explicação é quase dispensável para quem o estava a ouvir no Altice Arena: Snowden trabalhou nos serviços secretos norte-americanos e decidiu expor o que sabia sobre uma série de programas de vigilância de cidadãos em 2013, abrindo um debate sobre privacidade que dura até hoje.

Sob olhar (e ouvido) atento de uma sala preenchida, o atual presidente da Fundação Liberdade de Imprensa — que ainda hoje enfrenta as acusações feitas pelo governo norte-americano — começou por explicar que nenhum cenário faria prever qualquer tipo de conspiração contra o seu próprio governo. “Nunca estive bêbado, nunca fumei um charro, a minha família tinha trabalhado para o Governo”, referiu.

[O resumo da participação de Snowden na Web Summit]

Quando entrou na NSA, a visão que tinha em mente mudou porque, nas suas palavras, o trabalho que tinha de fazer ia contra as regras do juramento que fez para defender a Constituição dos Estados Unidos: “Começamos a vigiar toda a gente, em todo o lado, a toda a hora, mesmo as pessoas que não tinham feito nada de mal”. Todos, sem exceção, “eram vigiados mesmo antes de infringirem a lei”.

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Anos mais tarde, descobre-se que o trabalho que se está a fazer é uma gigante conspiração para acabar com aquilo a que se jurou no primeiro dia. Foi isso que me perturbou estes anos todos. Cumprir o juramento ou fazer o que é o trabalho. Acho que o público tinha o direito de saber”, acrescentou Edward Snowden.

A sala do Altice Arena permanecia em silêncio para ouvir a experiência de Snowden, que falava com um cenário cinzento atrás de si. “A lei não importava para nada, porque o sistema estava comprometido”, referiu ainda o denunciante, que devolveu uma questão: “O que fazemos quando as instituições mais poderosas na sociedade se tornam as menos responsáveis para a sociedade?”.

Edward Swnoden esteve na Web Summit através de videoconferência (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Para Snowden — que reconhece que “o mundo está a mudar” e há cada vez mais atenção à privacidade dos dados –, o problema passa também pelo facto de “as pessoas estarem frequentemente zangadas com as pessoas certas, mas pelas razões erradas”. “Seja o Facebook ou o NSA, este é o problema: legalizamos o abuso da pessoa, fizemos um sistema que torna a população vulnerável”, explicou. Os casos conhecidos nos últimos anos sobre empresas tecnológicas que fizeram uso indevido dos dados, diz, foram uma espécie de “acordo com o diabo”.

A conversa parecia caminhar para “a versão boa da internet”, mas os caminhos foram sempre dar ao problema. Questionado sobre o que acha do Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), que está em vigor em todos os estados-membros da União Europeia, Snowden admitiu que é “um bom esforço”, mas apontou um problema: “O RGPD presume que a recolha de dados aconteceu, que é OK espiar toda a gente a toda a hora, desde que nunca haja fugas de informação, desde que apenas eles estejam ao controlo dela”. Tudo isso, aponta, dá um “falso sentido de segurança” às pessoas.

A minha geração, principalmente a geração a seguir à minha, não é dona de nada. Já não tem permissão para ser dona de nada. Simplesmente por terem um telefone, há uma recolha massiva de dados. E isto é uma coisa que as empresas não percebem”, continuou.

Nos últimos minutos de conversa, Snowden voltou a deixar uma mensagem de preocupação: “Não são os dados que estão a ser explorados, as pessoas é que estão a ser exploradas. As pessoas é que estão a ser manipuladas “. Então, quem é que nos pode proteger deste abuso? “A lei e a tecnologia não são as únicas que nos podem proteger. Nós mesmos somos os únicos que nos podemos proteger”.