O ar condicionado do átrio da sala do hotel de Bragança onde esta noite decorreu o Conselho Nacional do PSD contrastava com os 5 graus que se faziam sentir lá fora. Mas se tivéssemos que medir a temperatura aos ânimos da sala, era algures no meio dos dois termómetros que estava a verdade: bem mornos, muito tépidos. Um mês e três dias depois das legislativas, o PSD analisou por fim, no órgão máximo entre congressos, o significado dos 27,7% dos votos conseguidos por Rui Rio em “circunstâncias” que desde o primeiro dia apelidou de “difíceis”, e a análise foi a que se esperava: oscilou entre “o pior resultado das últimas décadas” e o resultado possível dadas as “circunstâncias”. Ou seja, um mês e três dias depois, nada de novo. Mas não estamos em pleno clima de eleições internas, com três candidatos em jogo? Estamos. Em Bragança, contudo, pouco se notou.

Os apoiantes de Luís Montenegro (Almeida Henriques e Pedro Alves) ainda tentaram criar um facto político, propondo que fosse votada uma proposta de alteração ao regulamento para abrir os cadernos eleitorais, e permitir dessa forma que todos os militantes (mesmo sem quotas em dia) pudessem votar nas diretas, mas a Mesa do Conselho Nacional não aceitou alegando que a proposta incorria contra os estatutos do partido — que dizem que só elegem e são eleitos militantes com quotas pagas. A verdade é que nem as quotas, nem os estatutos, nem tão pouco a proximidade das diretas que se vive por estes dias no PSD, aqueceu o clima morno da sala. Ao que o Observador apurou junto de vários conselheiros presentes na reunião, Rui Rio foi mais presidente do que candidato e apontou tudo para as autárquicas de 2021. Esse é o passo seguinte. Rio não garante que as vá ganhar (ou seja, que o PSD tenha mais câmaras do que o PS), mas promete que vai inverter a tendência de queda que se verifica desde 2009 e que vai recuperar autarquias. Muitas, se possível. Ganhar, ganhar, não se promete o que não se sabe que se pode cumprir.

“Neste momento temos 90 e tal câmaras contra 160 e tal do PS, temos de recuperar essa diferença. Mas se demorámos 12 anos a cair de 151 para 92 câmaras, não se queira numa só eleição passar de 90 para 150. É por isso que as autárquicas são a prova da real implantação de um partido: porque custa mais a cair mas também custa mais a subir”, disse Rui Rio aos jornalistas já depois das 2h30 da madrugada, quando terminou a reunião e as portas se abriram. Ou seja, o objetivo é “apostar a sério nas autárquicas para inverter a tendência de queda e transformá-la numa tendência de subida”. Tudo o mais é “irreal”, disse ainda, contrariando a ideia de que não pôr a fasquia na vitória seja “pouco mobilizador” para o partido. Antes de Rio, já o secretário-geral José Silvano tinha lembrado os desastres da votação do PSD em Lisboa e Porto nas autárquicas de 2017 (na ordem dos 10, 11%) apontando para aí a fasquia: é preciso trabalhar já para desastres como esses não se repetirem.

Adversários ensaiam críticas e tentam alterar regulamento. Combate já tem data marcada

Para chegar às autárquicas, contudo, é preciso, primeiro, ganhar as eleições diretas contra Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz. E apesar de a atual composição do Conselho Nacional pender mais para o lado do atual líder (os conselheiros foram eleitos em listas feitas por Rio, há dois anos, ainda que com uma grande quota de nomes indicados por Santana Lopes), Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz não se deixaram de representar no Conselho Nacional desta sexta-feira. Os próprios só teriam lugar a falar na reunião se fossem convidados formalmente, e se os convites chegassem à mesa do Conselho Nacional, coisa que não aconteceu. Rui Rio quis mostrar que é o líder em funções, e não que é candidato a líder, e na intervenção inicial que fez aos conselheiros até “evitou”, segundo fonte próxima, “falar como candidato em campanha”.

Do lado de Luís Montenegro, os mandatados para fazer a sua defesa foram Almeida Henriques, presidente da câmara de Viseu, e Pedro Alves, atual deputado e líder da distrital de Viseu, que vai ser o diretor de campanha de Montenegro na disputa interna. Munidos de uma proposta de alteração ao regulamento para abrir os cadernos eleitorais e permitir que todos os militantes, em efetividade de funções ou não, com quotas pagas ou não, pudessem votar nas diretas que vão decidir quem é o próximo presidente do PSD, defenderam o alargamento do universo de votantes mas viram a proposta bater numa parede: Paulo Mota Pinto, presidente da Mesa, nem sequer admitiu a proposta para votação por entender que violava os estatutos-base do partido, que indicam que só elege e é eleito quem é militante com quotas em dia. Resultado? A polémica morreu como começou: questão das quotas é “burocrática”, não é a questão “principal”, o “importante é discutir as questões políticas”, tinha dito Pedro Alves à chegada ao hotel onde se realizou a reunião.

Perante Rui Rio, dentro de portas, Pedro Alves ainda criticou o facto de Rio dizer que vai apostar tudo nas autárquicas mas “não ter feito nada nos últimos dois anos para se aproximar dos autarcas”. Ao que o Observador apurou, a mesma crítica foi feita por Bruno Vitorino, líder da distrital de Setúbal e conhecido crítico de Rui Rio, que também apontou o dedo à “incapacidade” de Rio de “ouvir”, de “unir”, e “de trabalhar com os autarcas e as estruturas do partido” em nome de um projeto comum.

Também a líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes, que tem mantido uma postura institucional perante o líder do partido, embora, durante a campanha, tenha sido acusada de provocar a direção do partido ao convidar críticos para o seu distrito, foi perentória ao apelidar o resultado do PSD nas legislativas de um “mau” resultado e “o pior das últimas décadas”. Sem anunciar quem apoiará nas diretas de janeiro, Margarida Balseiro Lopes agradeceu ao líder do partido “e a todos os que se dedicaram na campanha” mas acrescentou que era “inegável” que o resultado do PSD tenha sido mau, atribuindo a culpa desse resultado a erros não corrigidos no tom do discurso, na ausência de demarcação em relação ao PS e na fraca defesa do legado da “marca PSD”. Sobre o processo das diretas, Margarida Balseiro Lopes pôs-se ao lado de Rio para defender que o partido tem de acabar com o pagamento maciço de quotas ou com as imagens de um partido a “transportar militantes em carrinhas”, mas contrapôs que isso não invalida que se alargue a base eleitoral para que o presidente do PSD não passe a ser eleito por um universo cada vez mais reduzido de militantes.

Do lado de Miguel Pinto Luz, quem marcou presença foram Telmo Faria e José Matos Rosa, que chegaram ao Conselho Nacional lado a lado a defender que a questão do alargamento da base de votantes não devia ser essencial, apesar de ser uma questão “preocupante”, mas preferindo apostar no tom de moderação adotado por Pinto Luz: pediram que o PSD não se transformasse “num filme de Star Wars em que é uma guerra e os adversários são inimigos”.

Mas guerra, essa, vai sempre haver. E é a partir deste sábado que começam oficialmente os preparativos. O Conselho Nacional aprovou formalmente o calendário, e o primeiro combate, o das diretas, já tem data marcada: dia 11 de janeiro. O segundo, se não houver um knock out à primeira volta, será dia 18. E o congresso de entronização do novo (ou velho) líder será de 7 a 9 de fevereiro. A proposta de calendário foi aprovada por 58 conselheiros, 10 abstiveram-se e 6 votaram contra. “Ampla maioria”, portanto.