Um pedido de desculpas feito a viva voz no plenário da Assembleia da República gera sempre um grande barulho de fundo nas bancadas. Foi o que aconteceu esta tarde no hemiciclo, durante um debate agendado pelo PSD sobre a “situação da Saúde em Portugal”. A ministra Marta Temido ia lançada na sua intervenção quando fez um parênteses para admitir o “lapso” da véspera. A bancada do CDS, a visada, aplaudiu entusiasticamente.

“Quero aproveitar para fazer um pedido de desculpas à deputada Cecília Meireles, porque fui eu que induzi em erro o senhor primeiro-ministro nos números de tempo de espera do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa”, disse, referindo-se à troca de argumentos de António Costa e Cecília Meireles na véspera, no debate quinzenal. Já ontem, o Ministério da Saúde tinha assumido o lapso. Em causa está o tempo de espera de 1482 dias para a primeira consulta de cardiologia no hospital de Padre Américo, que Costa disse ser um dado que se encontrava “desatualizado” porque o número certo era metade, 593 dias. A verdade é que o número facultado pelo Ministério da Saúde ao primeiro-ministro referia-se não ao número de dias, mas sim ao número de doentes à espera de primeira consulta de cardiologia há mais de um ano.

Lapso corrigido, desculpas aceites. No debate desta tarde, a ministra foi confrontada por todas as bancadas com a falta de autonomia dos hospitais para contratarem profissionais de saúde e pelo estado “caótico” do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente com a questão do encerramento das urgências pediátricas do Hospital Garcia de Orta em Almada que, segundo a deputada do PCP Paula Santos, é um “retrocesso de 30 anos”. Do lado do Governo, a ministra não se comprometeu com nada, mas anunciou a criação de 20 novas unidades de saúde familiar com maior autonomia e incentivos financeiros.

Na sua intervenção inicial (em resposta à interpelação do PSD), a ministra, de resto, levava os números na ponta da língua: o SNS realizou mais 4% de cirurgias em outubro deste ano do que no período homólogo de 2018; em 2019 há mais 6% de utentes com médico família do que em 2015; e  em novembro deste ano há mais 14.784 trabalhadores no SNS do que em finais de 2015.

“Descalabro” equiparado aos tempos antes da troika

Mas o PSD, que era o promotor do debate, não ficou satisfeito com os números. Se, na intervenção inicial, Ricardo Batista Leite tinha criticado o “desnorte da Saúde em Portugal”, que era a principal “falha” do atual governo, na intervenção de encerramento, o PSD alertou para o facto de o prejuízo do SNS poder chegar aos mil milhões de euros este ano, sendo que a “suborçamentação no setor nunca foi tão grave”.

“Até às eleições de outubro, o Governo e o PS negaram os problemas do SNS, mas recentemente mudaram de atitude, e agora reconhecem que há problemas, mas tentam passar a ideia de que sempre existiram”, criticou Álvaro Almeida, do PSD, numa crítica que foi comum às bancadas da direita: antes das eleições não havia problema com o SNS, agora até a própria líder parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, e o ex-líder Carlos César, reconheceram em entrevistas que o problema existe.

Números com números se pagam. E foi isso que fez Álvaro Almeida no encerramento do debate com a ministra. “Mil milhões de euros de suborçamentação não é um pequeno problema que se resolva com 1 ou 2% no Orçamento do Estado”, disse, afirmando que, “somados aos 3 mil milhões de dívidas a fornecedores”, estamos perante “um descalabro financeiro semelhante ao que existia quando a ‘troika’ foi chamada pelo PS em 2011″. É o diabo a chegar pela porta do setor da saúde?

Para Álvaro Almeida, que é o coordenador para a saúde da bancada do PSD, “a capacidade de contração do SNS não aumentou a sua capacidade de resposta”, já que os recursos humanos disponíveis hoje — à exceção dos médicos — “são menos do que os que existiam quando o PS tomou posse”. “O problema é que quem gere o Ministério da Saúde no governo socialista é o ministro das Finanças”, criticou o social-democrata repetindo uma crítica já feita ontem pela coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro.

No final do debate, ainda houve tempo para a deputada do CDS Ana Rita Bessa provocar alguns risos nas bancadas mais à direita ao recuperar as personagens com nomes reais trazidas várias vezes ao plenário pelo ex-líder parlamentar do PS Carlos César: o Nuno, o André, o avô do André, a Augusta, etc. Na altura, Carlos César fazia-o para demonstrar os sucessos da governação socialista. Agora, Ana Rita Bessa fê-lo para demonstrar como os portugueses reais sofrem na pele os problemas relacionados com o SNS. “A Augusta tinha ido viver para Almada por causa dos passes sociais. Tentou ir à urgência do Garcia de Orta e estava fechada, teve de apanhar dois autocarros e um comboio para ir à urgência em Lisboa”, ironizou num relato feito em jeito de novela da vida real.