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Paulo Gonçalves morre no Dakar 2020

O motociclista Paulo Gonçalves morreu na sétima etapa do Dakar 2020 este domingo na sequência de uma queda, confirma organização do Dakar. O português tinha 40 anos.

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Paulo Gonçalves era motociclista e tinha 40 anos

AFP via Getty Images

Paulo Gonçalves era motociclista e tinha 40 anos

AFP via Getty Images

O motociclista Paulo Gonçalves morreu no Dakar 2020, na Arábia Saudita, este domingo. O piloto português de 40 anos morreu na sequência de uma queda, refere a organização do Dakar em comunicado.

O acidente ocorreu ao quilómetro 276 da sétima etapa, de 12, da corrida, entre Riade e Wadi-al Dawasir, que se estava a realizar este domingo. Ao todo, esta prova tinha 546 quilómetros.

Depois de anos a competir pela marca japonesa Honda, Paulo Gonçalves participava pela primeira vez no Dakar pela indiana Hero.

Segundo conta o El Espanol, o piloto australiano Toby Price (KTM), vencedor da última prova do Dakar, tentou ajudar o português.

A organização da prova foi avisada do acidente às 10h08 (hora local) e, às 10h16, um helicóptero de apoio chegou ao motociclista mas este já estava “inconsciente depois de entrar em paragem cardíaca”. O piloto português ainda foi levado de helicóptero para o Hospital de Layla, em Riade, onde foi declarado o óbito.

“Passei a tentar disputar cada dia como se fosse uma corrida nova”

Este sábado o piloto português deixou no Instagram um vídeo com um “breve resumo” sobre a prova que estava a realizar. No vídeo explica: “Comecei o rally de forma regular. Infelizmente, no terceiro dia, tive um problema mecânico que quase me colocava fora da corrida. Consegui resolver, mantive-me na corrida. A partir desse dia o objetivo foi alterado, obviamente”, diz. E continua: “Sem conseguir um bom resultado final passei a tentar disputar cada dia como se fosse uma corrida nova. Consegui bons resultados até ao momento. Consegui ser 4º numa etapa, 8º e 1oº”.

Paulo Gonçalves estava a participar na sua 13ª prova do Dakar. Foi o vencedor do Campeonato Mundial de Rally Cross-Country em 2015. O piloto natural de Esposende participava no Rally Dakar desde 2006 tendo ficado quatro vezes no top 10 da prova. O motociclista começou a carreira a participar em provas de motocross.

Foi em 2015 que o motociclista conseguiu o seu melhor resultado nesta prova quando terminou o Dakar no segundo posto, a 16m53s do vencedor, tempo de atraso causado pelos 17 minutos acumulados nas três penalizações que lhe foram impostas durante a corrida. Na altura, tinha 35 anos.

Em 2016, falava da vontade e ambição de conseguir ganhar a prova: “Vejo pilotos que ganham um Dakar com 40 e 50 anos, com performances incríveis. Se olhar para as idades dos pilotos de motas que estão em competição, tenho pelo menos mais 10 anos de Dakar pela frente. Continuo a acreditar que é possível, cada vez mais, e Portugal nunca esteve tão perto de o conseguir. É a minha grande motivação”.

Paulo Gonçalves parou em 2016 para ajudar Matthias Walkner. O piloto português ficou junto do austríaco até a equipa médica chegar. Por causa disso perdeu perto de 11 minutos, que foram compensados posteriormente pela organização.

[O momento em que Paulo Gonçalves ajudou Matthias Walkner]

No mesmo ano, o piloto contava também sobre esta prova: “Bem, não me considero o senhor azar, porque tive a possibilidade de regressar sem problemas de maior. É um Dakar que teve partes muito positivas e uma parte menos boa, que foi o facto de não ter conseguido alcançar o resultado final ao qual me propunha. Ou pelo menos um que me satisfizesse. Fiz uma corrida de altos e baixos”.

A última vez que alguém morreu durante a prova do Rally Dakar foi em 2015, quando o motociclista polaco Michal Hernik morreu por desidratação.

O Dakar 2020 começou a 5 de janeiro e terminará a 17 deste mesmo mês. Com um percurso de quase oito mil quilómetro, começou em Jidá e vai terminar em Al-Qiddiya.

“Morreu a tentar alcançar o sonho”, diz Presidente da República

O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte do motociclista Paulo Gonçalves apresentada “à família enlutada as mais sentidas condolências”. “Paulo Gonçalves morreu a tentar alcançar o sonho de vencer uma das mais duras e perigosas provas de rally do mundo, na qual foi sempre um digníssimo representante de Portugal, chegando a alcançar o segundo o lugar em 2015”, escreveu o chefe de Estado numa mensagem.

Também o primeiro-ministro António Costa comentou a morte de Paulo Gonçalves. “Lamento profundamente a morte do motociclista Paulo Gonçalves no Dakar 2020. Um atleta de exceção, Paulo Gonçalves será lembrado como um exemplo de ética, altruísmo e sã competição. Foi Prémio Nacional de Ética no Desporto de 2016. As mais sentidas condolências à sua família”, referiu o PM, numa mensagem publicada na rede social Twitter.

Já o presidente da Assembleia da República manifestou “choque e tristeza” pela morte do piloto. Eduardo Ferro Rodrigues “irá tomar a iniciativa de apresentar um voto de pesar em próxima reunião plenária da Assembleia da República, endereçando, em seu nome e em nome da Assembleia da República, as mais sentidas condolências à família e amigos”, lê-se numa nota enviada à Agência Lusa.

Presidente da Federação de Motociclismo: “Era um amigo que corria desde pequenino”

Jorge Viegas, presidente da Federação Internacional de Motociclismo (FIM), disse à Rádio Observador que Paulo Gonçalves “era um exemplo a seguir”. Como conta o responsável na modalidade: “Fui acordado pela notícia pelo diretor da prova. Não posso estar mais triste. O Paulo era uma excelente pessoa, era um amigo que corria desde pequenino. Era um grande piloto. Era um exemplo a seguir”.

O presidente da FIM lembrou ainda o momento, em 2016, em que Paulo Gonçalves recebeu o Prémio de Ética no Desporto, atribuído pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude.

É muita estranha a circunstância da morte porque foi numa reta. Ele nem sequer ia àquelas velocidades loucas que por vezes há no Dakar. A verdade é que foi encontrado já sem vida. Não se sabe [a circunstância da morte]. Mas pouco importa, estamos de luto carregado”, diz Jorge Viegas.

Sendo uma reta, Jorge Viegas justifica ainda a afirmação: “Não se sabe se aconteceu alguma coisa fisicamente antes da queda. É preciso esperar pela autópsia”, termina.

Manuel Marinheiro, presidente da Federação de Motociclismo de Portugal falou também à Rádio Observador referindo: “Foi uma grande perda para o motociclismo e para o desporto nacional, até porque o Paulo era desportista de eleição mas também um excelente homem e um exemplo a seguir por todos e qualquer desportista”. O responsável lembrou também o momento em que o motociclista ficou a apoiar um rival: “Foi merecedor de prémios de Fairplay da federação de desporto e da federação de desporto de internacional”.

“Quando tudo apontava para que abandonasse, não” o fazia

O jornalista e amigo do piloto, Rui Belmonte, revelou ao Observador algumas histórias que marcaram a amizade entre ambos. Uma, em particular, remonta a uma das primeiras edições de sempre do Dakar, em Marrocos. Belmonte lembra que estava a acompanhar Paulo Gonçalves e que o piloto sofreu uma queda violenta, danificando a mota.

Informaram-me que o Paulo tinha voltado para trás com a mota totalmente partida e que era impossível regressar à corrida. O que é certo é que o Paulo conseguiu de alguma forma remendar a mota com o que havia à mão: muitos arames a braçadeiras de plástico. O típico desenrasca como só os portugueses sabem fazer. E conseguiu voltar à especial”, lembra. 

“Acompanhámos o Paulo na prova, iluminando o seu caminho com a nossa pick-up — porque a mota nem tinha luz. Com muitas dificuldades, foi andando à nossa frente, devagarinho. Conseguiu reparar a mota e terminar. Quando tudo apontava para que abandonasse, não: a força dele levou a que, mais uma vez, conseguisse encontrar uma solução de recurso e terminar a corrida”, conta ainda o jornalista.

“O Paulo Gonçalves era uma força, tinha uma força de vontade e querer enorme, como muito poucos pilotos têm. E, naturalmente, é isso que faz a diferença entre ser campeão, como ele foi em 2013, e aqueles que sonham, mas nunca conseguem lá chegar. O Paulo sonhou, lutou e conseguiu lá chegar“, lembra Rui Belmonte.

Colega no Dakar em choque: “Vou tentar apagar da memória tudo o que vi”

António Maio (Yamaha), um dos pilotos portugueses presentes no Rali Dakar de todo-o-terreno, mostrou-se “em choque” com a queda fatal de Paulo Gonçalves no decorrer da sétima de 12 etapas da edição deste ano.

“Vou tentar apagar da minha memória tudo o que vi e o que se passou depois, nesta que foi a etapa mais difícil da minha vida”, escreveu na rede social Facebook, acompanhando com uma fotografia com Paulo Gonçalves, entre outros pilotos, num dia de treinos.

António Maio foi um dos pilotos que passou pelo local do acidente, revelando ter ficado “em choque” quando chegou ao acampamento.

“É com aquele piscar de olho e o desejo de “boa sorte” uns segundos antes de partires para a 7.ª etapa que te vou recordar para sempre! Um verdadeiro Homem, um ser humano fantástico e um piloto único! Obrigado Paulo por seres uma das minhas referências”, escreveu o antigo campeão nacional de todo-o-terreno, que participa no Dakar pela segunda vez.

É com aquele piscar de olho e o desejo de "boa sorte" uns segundos antes de partires para a 7.° etapa que te vou…

Posted by António Maio on Sunday, January 12, 2020

Diretor do rali: “Era um segmento rápido e foi onde o Paulo teve um acidente”

O diretor do rali Dakar2020, o francês David Castera, salientou a tenacidade de Paulo Gonçalves, que há poucos dias mudava o motor da sua mota e este domingo morreu na sétima etapa da corrida.

Paulo era meu companheiro, estava no Dakar há muito tempo, toda a gente o conhecia. Há cinco etapas estava a mudar o motor da sua mota, era muito tenaz. Conhecia os riscos de um rali, quando o pior acontece é muito difícil para todos”, disse.

Castera, que este ano substituiu Etienne Lavigne na direção da mítica corrida, explicou, num vídeo divulgado pela organização e que homenageia o piloto português, não se saber muito sobre o acidente ao quilómetro 273.

“Não sabemos as circunstâncias, era um segmento rápido e foi onde o Paulo teve o acidente, os médicos tentaram reanimá-lo, mas, infelizmente, não conseguiram e ele morreu ao quilómetro 273 da sétima etapa”, explicou.

Miguel Oliveira: “A tua coragem e valentia são exemplo para todos nós”

O clube Sport Lisboa e Benfica, do qual Paulo “foi parceiro”, também lembrou o piloto. “Foi parceiro do Sport Lisboa e Benfica em vários anos e sentia grande orgulho em ostentar a águia no equipamento de motard, nomeadamente no capacete, durante as provas sobre duas rodas. O Sport Lisboa e Benfica endereça sentidas condolências à família e amigos de Paulo Gonçalves neste dia de luto para o desporto motorizado”, escreve o clube no seu site oficial.

Mesmo noutras modalidades, o desportista é lembrado.O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, refere que “o desporto português perdeu um dos seus maiores atletas” e assinala que “Paulo Gonçalves foi sempre um símbolo de talento, vocação, persistência e coragem. Um exemplo de tenacidade e também de desportivismo”. O líder da FPF destaca ainda “os resultados alcançados por Paulo Gonçalves que o tornaram uma referência na modalidade mas também o exemplo de inspiração que representou o seu trajeto de desportista”.

A reações à morte de Paulo Gonçalves não tardaram a surgir também nas redes sociais. No Instagram, Miguel Oliveira, motociclista português que participa em provas mundiais como o Moto GP lembrou o piloto do Dakar. “Paulo, deixaste uma marca profunda na vida de quem teve o privilégio de se cruzar contigo. A tua coragem e valentia são exemplo para todos nós. DEP [Descansa em paz]”, escreveu Miguel Oliveira

A partilha de Miguel Oliveira no Instagram

O automobilista português António Félix da Costa também utilizou a mesma rede social para prestar homenagem ao piloto. “Um dos maiores guerreiros do nosso desporto. Deixou nos a fazer o que mais gostava. És um tigre Paulo. Descansa em Paz!”, escreveu.

À SIC Notícias, o motociclista Bernardo Vilar, prestou as condolências à família e a todos os motards. Era “uma pessoa super gentil, era uma referência”. O piloto salientou ainda que Paulo Gonçalves “teve uma carreira excelente”. “Começou como piloto privado com a suas dificuldade”. Por fim, salientou: “Perdemos um grande piloto (…) perdi um grande amigo”.

Oitava etapa do Dakar cancelada

A organização do Rali Dakar de todo-o-terreno decidiu cancelar a oitava de 12 etapas para motas e quads, prevista para segunda-feira, devido à morte do piloto português Paulo Gonçalves na tirada de este domingo.

A decisão foi tomada “em conjunto com equipas e pilotos” e surge devido à “consternação” que afetou “sobretudo os pilotos das motas”, pois o português “era uma figura querida da prova, imensamente respeitado tanto pelos veteranos como pelos menos experientes pilotos que o admiravam e se sentiam inspirados por ele”, escreveu a organização, em comunicado.

A anulação da etapa, com partida e chegada em Wadi Al Dawasir, surge “para dar tempo aos pilotos de fazerem o luto” pela morte do piloto português.

Câmara Municipal de Esposende vai decretar dia de luto municipal

O Presidente da Câmara Municipal de Esposende, de onde o piloto é natural, adianta ao Observador que a cidade vai decretar um dia de luto municipal como forma de homenagem.

Era uma pessoa fantástica. Vivem-se aqui momentos de muita consternação e tristeza, porque ele era um homem muito disponível para colaborar com as instituições, era uma pessoa do povo. Constantemente o víamos aqui na rua com a família, tinha muitos amigos. Nas redes sociais, muita gente tem fotografias com ele porque ele era dado a essas coisas, a conviver, a ajudar sem pedir nada em troca. Era efetivamente um ser humano fantástico”, lembra Benjamim Pereira.

O autarca lembra um “anti-herói”, um homem humilde e que nunca se deixou “envaidecer”. O dia de luto será combinado com a família e será no dia do funeral.

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