É difícil perceber a importância de Roger Scruton (que morreu este domingo, 12 de janeiro, aos 75 anos) sem ter uma certa noção do pensamento conservador inglês. Ora, não só porque a Magna Carta dotou a Grã-Bretanha de um sistema com instituições fundamentalmente diferentes das instituições europeias tradicionais, nem apenas porque o rompimento com a Igreja de Roma é bastante precoce em relação aos países do Sul da Europa, o conservador inglês procura conservar coisas bastante diferentes do seu congénere europeu.

Se a defesa da democracia já seria estranha a qualquer De Maistre, Donoso Cortés ou Schmitt, a importância do ceticismo no pensamento inglês é praticamente impensável na tradição europeia. Ora, este ceticismo é, desde Gibbon, cuja influência no pensamento conservador é frequentemente subestimada, um aspeto fundamental do conservadorismo inglês. O conservadorismo inglês não é apenas não confessional; é profundamente cético, à maneira clássica, por não nos encontrar capazes de destrinçar um sentido da História – e daí rejeita a ideia de haver na política um desígnio ou um caminho em direção a qualquer tipo de sociedade – por não acreditar na possibilidade de corrigir a natureza humana ou, até, na possibilidade de encontrar verdades políticas. Todo o vocabulário conservador está, em Inglaterra, dominado por este ceticismo. Oakeshott fala sempre da “disposição” conservadora, como se a inclinação política fosse uma questão de afeto, algo que está dependente do nosso feitio e não da falível, abstrata e simplista razão; mesmo as teses de Burke são interpretadas à luz destas ideias: do seu pensamento sobre a revolução destaca-se a ideia de prudência, a descrença na capacidade de o homem prever os efeitos das suas ações e a ideia de que as liberdades não podem ser fixadas como postulados universais – são questões concretas, decididas a cada momento.

O conservadorismo inglês não conserva por acreditar propriamente no seu mundo; conserva por desconfiança, por não acreditar na capacidade do Homem para prever todos os efeitos das suas acções públicas e das suas leis. O conservadorismo – e isso Oakeshott percebeu bem – nem é propriamente uma doutrina política: não só porque a sua herança cética o torna avesso à ideia de um sistema e de um mundo ordenado e reconhecível como tal, mas até porque desconfia da própria ideia de política. A não-intervenção estatal, a defesa das comunidades civis e das leis orgânicas, tudo isto revela uma descrença em relação ao sentido mais tradicional da política como uma relação de poder entre Estado e cidadãos ou súbditos e soberanos. O conservadorismo inglês acredita na sociedade, mas não na política. Acredita nas leis geradas por uma tradição, acredita na “democracia dos mortos”, mas é estranho à ideia de valores universais, aqueles que, na linguagem do tradicionalismo europeu, permitem “distinguir uma tradição de um mau hábito” e que são o objeto habitual da política.

Morreu Sir Roger Scruton, grande filósofo e pensador conservador

Roger Scruton é, em muitos aspetos, um herdeiro natural desta tradição inglesa. A sua Salisbury Review tem este nome em homenagem ao terceiro marquês de Salisbury, personagem que, segundo ele, teve um governo tão substancialmente conservador que pouco sabemos sobre ele, é também um feroz defensor das leis tiradas dos hábitos espontâneos das comunidades e das liberdades individuais.

Ao mesmo tempo, é formado em Cambridge, na escola filosófica de Russell e Wittgenstein que, se não o apaixonou pela filosofia analítica, pelo menos deu-lhe um certo sentido de verdade universal e o afastou do descrédito da razão tão comum no pensamento conservador. Scruton é herdeiro de um certo iluminismo, do iluminismo que acredita na lei antes de acreditar na vontade; e acredita na razão antes de acreditar no interesse individual. E é a sua defesa da lei e da razão que, curiosamente, o aproximará mais do que qualquer outro pensador inglês da tradição europeia. Contra as ideias de campo epistemológico e da crença na ciência como perpetuação de discursos de poder, vindas de Foucault, Scruton é um defensor de certas verdades universais. Ora, é nesse sentido que Scruton defende as leis espontâneas. Para Scruton, não há divisão entre leis de tradição e leis extraídas de princípios: o viver das comunidades expressa sempre princípios a que a razão, enquanto mecanismo interpretativo, pode não chegar, mas que não deixam por isso de ser verdades. Não são verdades irracionais, são apenas verdades a que a razão ainda não chegou.

Estas leis espontâneas, no entanto, só são possíveis enquanto a sociedade e o Homem forem entendidos de uma certa forma. Não é possível acreditar no valor da sociedade se esta é destruída em nome da omnipotência do indivíduo. A antropologia de Scruton está escorada na ideia de que há na natureza leis que são maiores do que o indivíduo e a que este se deve sujeitar, até para se cumprir como indivíduo. O Homem pode de facto afastar-se da sua natureza e há uma série de aspetos, desde a vida no campo à relação com os outros, que nos reaproximam de nós próprios. O mundo, para Scruton, tem uma ordem, a que também nós estamos sujeitos. Há, de facto, leis universais, mas não aquelas que a nossa razão postula como uma lógica inabalável: as leis universais são aquelas a que o Homem obedece desde o princípio dos tempos e a que cabe à nossa razão encontrar o sentido. Deve ser a razão sujeita à lei e não o contrário. Não é por acaso que Scruton foi dos primeiros conservadores a escrever sobre ecologia e a defender a importância do pensamento ecológico. Não se trata apenas de uma questão económica, em que as externalidades negativas são pagas, não por quem as produz, mas por quem sofre com elas; para Scruton, a Natureza contem uma verdade sobre o Homem que este perde quando se afasta dela. A ideia de omnipotência humana, até a ideia de que é possível viver impolutamente, sem matar, destruir, como se a sobrevivência fosse garantida, é uma ideia que a Natureza se encarrega de dissipar. Há, na civilização, um mal-estar que vem da eliminação de um conjunto de rituais e de trabalhos que deveriam ser próprios do Homem.

A capa de “Gentle Regrets”, livro de memórias de Roger Scruton

Nas suas memórias, Gentle Regrets, Scruton, numa discreta passagem de psicanálise Jungiana, divide a sua personalidade em duas personalidades diferentes. Explica que em pequeno era tratado pelo seu segundo nome, Vernon, e que, a propósito de uma rixa de que saiu vitorioso, passou a exigir que o tratassem por Roger. Destes dois nomes sairiam duas personalidades: uma introspetiva e literária – Vernon – outra combativa e aguerrida – Roger. De facto, é impossível pensar em Roger Scruton sem ter em conta o casamento entre estas duas facetas. Roger nunca decidiu de ser Vernon, e há em todos os seus textos um cuidado literário — de que o seu método de explicar ideias a partir de acontecimentos autobiográficos é o melhor exemplo — que faz de Scruton, mais do que um filósofo, um escritor; mas também há um lado combativo e aguerrido que, de certa forma, é estranho à fleuma conservadora inglesa. O Scruton das diatribes contra Hobsbawm e Foucault, o Scruton de Tolos, Impostores e Incendiários, que não tem medo de entrar na política do dia-a-dia e que se posiciona em relação ao Brexit é o mesmo que aparece num comovente episódio de On Beauty and Consolation, a tocar piano e a montar a cavalo como o mais pacificado dos homens.

Scruton não foi apenas um cético. Lutou pelos valores ocidentais e pela integração de imigrantes nas escolas contra a tribalização e a tolerância permissiva, de certa forma definiu o cânone novecentista dos inimigos dos valores ocidentais, contestou a historiografia marxista, fez todos os esforços para desacreditar a ideia da economia capitalista como um jogo de soma nula, em que toda a riqueza só existe enquanto explora a pobreza de alguém, mostrou o resultado opressor do relativismo moral e lógico. No entanto, toda a sua combatividade tem interesse apenas pelo que, num plano mais profundo, o alimenta. Numa passagem bonita de Gentle Regrets, Scruton explica que despertou para o conservadorismo no Maio de 68. Isto porque, enquanto as hostes universitárias pugnavam pela destruição de tudo, Scruton estava a ler as memórias de De Gaulle, que começavam com uma alusão discreta a Proust e uma declaração de amor a uma “certa ideia de França”.

Ora, o lado positivo do pensamento de Scruton, o seu amor pela cultura ocidental e pelos que os seus juízos expressam, vai muito para lá do ceticismo típico do conservadorismo inglês. Scruton ama aquilo que defende e até os seus textos de estética, aqueles em que, de forma mais clara, faz uma apologia da tradição ocidental, o demonstram. A estética de Scruton não é apenas uma diatribe contra o modernismo arquitetónico e a arte conceptual; a estética de Scruton é apenas a demonstração da obra da sua política. O que Scruton defende é a civilização, entendendo como civilização o esforço comum para que cada indivíduo consiga sair de si e ultrapasse aquilo que já tinha quando nasceu. Belo é aquilo que comunica e que, de certa forma, traduz um esforço do Homem para se elevar.

Poucos autores, como Scruton, casam tão bem a tradição europeia e britânica do conservadorismo. Se Isaiah Berlin reduz De Maistre a um para-fascista e a contra-revolução a um contra-iluminismo irracional, se Oakeshott põe a política na esfera da disposição e Popper, até cientificamente, é acima de tudo um cético, Scruton constrói uma ponte entre a Inglaterra e a Europa que poucos conseguem. Tem o gosto pela cultura ocidental que o dispõe para o conservadorismo, mas também acredita nela, no sentido em que acredita na sua universalidade. Casa as preocupações económicas e a defesa das public schools, próprias do conservadorismo Inglês, com a europeia compreensão de que, sem valores positivos e afirmativos a própria cultura acaba por se afogar nos mares de tolerância e abertura. Ler Scruton é ler ao mesmo tempo a mais apaixonada defesa dos séculos e a mais aguerrida luta pela atualidade. Misturam-se, nos seus textos, Platão e sindicatos, Thatcher e Napoleão, a sua vida e a natureza humana, Roger e Vernon.

Numa das suas reflexões mais introspetivas, a propósito da beleza, Scruton explicava a necessidade da beleza como a necessidade de encontrar consolo. O Homem tem esta estranha peculiaridade de nem sempre se sentir em casa no mundo, e o consolo da beleza traria esta sensação de casa, de algo que nos é próprio mas a que nem sempre chegamos. Scruton, nas suas melhores passagens, dá esta sensação de consolo que agora que lhe desejamos: a sensação de alguém que, finalmente e depois de muito tempo, reconhece à sua volta o interior de sua casa.