Isabel dos Santos vai deixar de ser acionista do EuroBic. A empresária angolana já está a negociar a venda da sua posição, segundo um comunicado do banco. A iniciativa partiu de Isabel dos Santos, garante o mesmo comunicado, que vai deixar de exercer os direitos de voto associados à sua participação de 42,5%. A angolana é neste momento a maior acionista do EuroBic.

No mesmo comunicado, o banco diz que existem interessados que asseguram a concretização da venda “a muito breve prazo”, sendo que o novo acionista (ou mesmo no caso dos compradores serem os atuais acionistas) terá sempre de ser autorizado pelo Banco de Portugal. Para além de Isabel dos Santos, são ainda acionistas do EuroBic, Fernando Teles que foi fundador do banco, e que tem 37,5%, e mais três acionistas a título individual.

Estrutura acionista atual do EuroBic

O EuroBic informa ainda que os administradores não executivos que exercem funções na estrutura de gestão do universo da Isabel dos Santos, apresentaram a renúncia aos cargos na instituição financeira que é liderada por Teixeira dos Santos. De acordo com indicação recolhida pelo Observador, essa decisão irá afetar Vanessa Ferreira Loureiro, que era do comité de remunerações, e Rui Carlos de Carvalho Lopes, que estava no comité de riscos financeiros.

O EuroBic já tinha anunciado esta segunda-feira o corte de todas as relações comerciais com a sua principal acionista Isabel dos Santos, na sequência das revelações feitas pelo Luanda Leaks, em particular no caso de uma transferência ordenada pela Sonangol de 38 milhões de dólares. Esta operação foi feita a partir da conta da petrolífera em Lisboa para uma empresa de consultoria associada a Isabel dos Santos, numa altura em que a angolana tinha acabado de ser exonerada do cargo de presidente da petrolífera.

O Banco de Portugal anunciou também que iria investigar esta operação, nomeadamente para avaliar se foram cumpridas as regras de prevenção e controlo de branqueamento de capitais nesta transferência que deixou a conta da Sonangol no EuroBic quase vazia naquele dia. O banco já foi alvo de inspeções que apontaram para falhas nesta área.

Já no domingo após se conhecerem os primeiros resultados da investigação do consórcio internacional de jornalistas, o comentador Marques Mendes defendia que o Banco de Portugal devia pressionar Isabel dos Santos a sair do capital do EuroBic. De acordo com o comunicado do banco, a iniciativa terá partido da própria e não há para já informação sobre quem serão os potenciais interessados no negócio.

Mas considerando o contexto atual, há obstáculos de peso a um negócio bem sucedido. Para além das dúvidas reputacionais que rodeiam a instituição financeira, há também a pressão de uma venda forçada que não ajudará a obter um bom resultado. Por outro lado, o qualquer investidor sabe que enfrentará um exigente escrutínio por parte do Banco de Portugal, o que à partida afastará potenciais interessados. Uma forma de contornar estes condicionalismos será tentar diluir a participação acionistas por vários investidores.

Grupo chinês mostrou interesse há 4/5 meses. Isabel dos Santos não quis vender

Perante a aparente rapidez com que se conseguiu encontrar possíveis compradores para entrar no EuroBic, uma fonte do setor bancário nacional disse ao Observador que no outro lado da mesa negocial poderá estar um grupo bancário chinês – um que ainda não tem presença em Portugal – que terá manifestado interesse em comprar o EuroBic no final do verão de 2019.

Nessa altura, perante essa manifestação de interesse, o sócio de Isabel dos Santos Fernando Teles terá mostrado que gostaria de vender, mas Isabel dos Santos, nessa altura, indicou que não queria vender a sua participação, pelo que a história ficou por ali.

Uma possível reativação dessa negociação é vista como uma hipótese forte para perceber quem poderá ajudar a resolver o problema do banco, cuja principal acionista foi pressionada pelo supervisor — o Banco de Portugal — a vender a sua participação no banco. A comissão executiva do EuroBic é liderada por Fernando Teixeira dos Santos, que, como ministro das Finanças, no final de 2010, também se virou para a China para tentar resolver problemas do Estado – com uma colocação privada de dívida portuguesa adquirida pelo estado chinês).