(Artigo em atualização)

Fim das audições de arguidos, fim da produção de prova, fim de uma longa primeira parte do julgamento do caso de Alcochete que teve início a meio de novembro e que chegou a esta sexta-feira com 35 sessões. Fim mas também um dos momentos mais esperados, com Bruno de Carvalho a prestar depoimento sendo o último arguido a fazê-lo, como tinha sido solicitado pelo seu advogado, Miguel A. Fonseca. A sessão desta tarde começou com a audição do antigo ex-líder da Juve Leo, Fernando Mendes que rejeitou ter incitado ao ataque e disse não ver “mal nenhum” do que fez a 15 de maio em Alcochete.

O depoimento começou pelo jogo na Madeira, que antecedeu o ataque à Academia do Sporting em Alcochete, com o ex-líder da Juve a dizer à juíza presidente Sílvia Pires que quando a equipa foi agradecer aos adeptos no final do jogo (em que o clube saiu derrotado frente ao Marítimo) “o jogado Acuña esteve menos bem e até fez um gesto de um manguito”. Descreveu depois que, já no aeroporto do Funchal, falou com Jorge Jesus sobre a a”atitude” do jogador: “Mister, um clube centenário, com esta história, não pode fazer aquilo”. E que nessa altura passou Acuña e atirou-lhe: “Hijo de puta”. “Hijo de puta és tu“, respondeu Mendes que admite ter havido logo ali “um momento de exaltação”  porque “já tinha bebido um bocado, não estava a falar assim calmo”. 

Foi Jesus que acalmou os ânimos e pediu à Juve para sair dali “porque havia câmeras”. “Disse-lhe que não custava nada pedir desculpa publicamente aos adeptos e associados. E que falávamos na nossa casa, a Academia”, explicou. E assim foi, na terça-feira, Fernando Mendes diz que por estar com a carta apreendida pediu boleia para ir até à Academia, garantindo: “Não falei com mais ninguém desde que vim da Madeira, não me encontrei com ninguém, não tenho redes sociais”. Embora mais adiante revele que quando estava na Madeira ligou a Bruno de Carvalho para dar conta do que tinha acontecido no aeroporto. “Para ele saber por mim, da minha boca”.

Acabaram por falar uma segunda vez, ainda por telefone a partir da Madeira, numa conversa que classifica “de bêbados”. “Sem ofensa ao Bruno de Carvalho, a segunda conversa nesse dia na Madeira é uma conversa de bêbados. Nem sei se me ouviu, se o ofendi. Se ofendi, peço desculpa, pronto… para mim era uma situação excecional. Apanhei nove presidentes do Sporting desde o Sousa Cintra, fui sempre chamado à palmatória como líder da Juve Leo. Não era normal ligar, mas era para não haver deturpação” da história do aeroporto, justificou-se Fernando Mendes em Tribunal.

“Quem não deve não teme, claro que entrei com a cara destapada”

Quando confrontado com a paragem no parque de estacionamento do Lidl do Montijo, Mendes explica que “estavam lá mais dois ou três carros e um deles era do Nuno Torres, um BMW azul, e uma carrinha monovolume”, mas garantindo que não “fazia ideia” do que estavam ali a fazer. “Não falei com ninguém de ninguém”. Apenas com Tiago Silva, que foi quem lhe deu boleia. Lembra que a dada altura ouviu “alguém dizer ‘vamos todos nesta carrinha’. Percebi depois que iam lá falar também, mas nada do que tinham combinado”, assegura.

Já junto à Academia, recorda que “estavam mais de dez carros” estacionados no parque de terra batida e que não se juntou aos outros que começaram a correr, nem tapou a cara. “Entrei com a cara destapada, com toda a calma, claro. Quem não deve não teme, claro que entrei com a cara destapada”, reforçou perante as juízas. Sobre o momento do ataque propriamente dito, Fernando Mendes conta que estava fora do local onde tudo aconteceu e que quando chegou ao campo principal é que viu Jesus: “Fernando, Fernando, ajuda-me. E eu: de quê? ‘Olha para isto’, disse ele ali com umas lesões na cara”. Depois apareceram William e Raúl José a dizer “que tinham entrado e partido tudo e agredido”.

Mais adiante, confrontado pela juíza Fátima Almeida com o facto de não ter estranhado que os seu grupo tivesse corrido, Fernando Mendes rejeitou que fizesse parte de grupos. “Eu não tenho grupos, eu vou sozinho às coisas. Quando os vi a correr, pensei que não iam entrar”. O ex-líder da Juve alega que na portaria até a ele costumavam sempre pedir identificação, para que pudesse entrar na Academia.

Antes, na parte da manhã, foi ainda ouvida a última testemunha de defesa, Ângelo Girão, capitão da equipa de hóquei em patins do Sporting, e mais dois arguidos, Ricardo Neves e Eduardo Nicodemus. Tudo de manhã. À tarde, o ex-líder dos leões, que tem estado dispensado de marcar presença no Tribunal de Monsanto, regressa e para falar.

[O resumo do dia 34 do julgamento do caso de Alcochete]

O antigo presidente do Sporting chegou uns minutos antes das 14h, hora para que estava agendada a sessão esta tarde. Vinha acompanhado pelo advogado e pelo pai. À porta do tribunal havia um pouco mais de 10 pessoas à esperta de Bruno de Carvalho, todos apoiantes do ex-presidente sportinguista.

A sessão ainda não começou porque muitos dos arguidos ainda não chegaram ao tribunal. É possível, no entanto, que Fernando Mendes, antigo líder da Juventude Leonina, preste declarações antes de Bruno de Carvalho.

Fernando Mendes, que sofre de leucemia, tem estado em tratamentos e por isso não pode dirigir-se ao tribunal na última quarta-feira. Mas a advogada dele terá entregue um requerimento pedindo ao tribunal para que o antigo líder da Juve Leo pudesse ser ouvido esta sexta-feira, último dia de produção de prova, mas antes do ex-presidente do Sporting.

Ângelo Girão e a noite no hospital a levar soro com Bruno ao seu lado

Ao contrário do que estava inicialmente previsto, Ângelo Girão, jogador de hóquei em patins do Sporting que foi contratado por Bruno de Carvalho como grande aposta no regresso da modalidade em força no clube em 2014, esteve de manhã no Tribunal de Monsanto para ser a última testemunha de defesa do antigo presidente leonino e reforçar aquilo que tem sido referido por outros jogadores do clube que não do futebol profisisonal.

“Antes de mais, é uma honra falar com um campeão do mundo, muitos parabéns”, começou por atirar Miguel A. Fonseca, antes de passar a palavra ao guarda-redes que explicou ter passado a capitão na última temporada, já depois de Ricardo Figueira e João Pinto terem ostentado a braçadeira nas épocas anteriores. E para uma história em específico que se passou entre a meia-final e o jogo decisivo da Taça CERS de 2015, quando o conjunto verde e branco venceu o Igualada e se preparava para defrontar o Reus (que venceria, nos penáltis).

“Da meia-final para a final tive um problema com uma gastroenterite, passei a noite no hospital a levar soro. Passei a noite com o presidente Bruno de Carvalho. Havia médicos e enfermeiros lá mas foi ele que ficou comigo. O nosso médico era o capitão de equipa, o Ricardo Figueira, mas como tinha de descansar ficou o presidente porque era uma pessoa próxima de mim e do plantel. Sou profissional há oito, dez anos, apesar de jogar há muitos mais. Nunca tive um presidente tão próximo. Era um trato próximo, sempre com a distância patrão-atleta, também cá fora. Tinha uma grande cultura de exigência, era muito próximo mas queria resultados”, recordou.

– Na hora dos festejos, como é que ele era? Estava com vocês ou na tribuna?
Qual é a relevância? Era amigo dos atletas, próximo, já percebemos, interrompeu a juíza Sílvia Pires. O que é que interessa se estava com eles ao saltos ou sentado na tribuna?
– Tem relevância mas ok… Choravam juntos?
– Era muito próximo dos atletas, não fugia desses momentos quando não ganhávamos também…
– Sim mas chorava com os atleta, está a perceber?
– Era homem para estar sempre connosco, não vou dizer se chorou ou não…

“Trocávamos mensagens, deixava fazer o contraponto ao que dizia mas sempre de incentivo porque queria ganhar tanto como nós”, acrescentou Ângelo Girão, que referiu também que “nunca Bruno de Carvalho enviou mensagens a dizer que estavam todos despedidos”, perante nova questão de Miguel A. Fonseca

– Consegue perceber alguma probabilidade de desejar mal aos seus atletas?
– A testemunha já foi explícita, já percebemos doutor…, voltou a interromper Sílvia Pires.
– Pronto, ok… Parabéns senhor Ângelo Girão, foi uma honra como sportinguista e português.

Da chapada em Acuña ao pedido de uma segunda oportunidade de vida

Ricardo Neves foi o primeiro arguido a ser ouvido de manhã e um dos poucos que falou e admitiu ter agredido jogadores, neste caso Acuña (antes apenas Rúben Marques se tinha identificado como o portador do cinto que atingiu Bas Dost na cabeça). Depois de primeiras palavras que até a juíza presidente teve dificuldades em ouvir, por falar baixo e longe do microfone, começou por explicar como tinha chegado à Academia num trajeto.

“Fui inserido no grupo ‘Academia Amanhã’, já estava no ‘Piranhas on Tour’ que era um grupo de amigos. No dia 15 fui à Academia. Fui de boleia, fui até Alvalade e apanhei uma boleia. Parei no Lidl mas não tive a perceção de quantos eram e depois fomos em caravana para a Academia, deviam ser perto de dez carros. Saí do carro, pus uma balaclava que levava comigo. Comecei a correr, havia uma dúvida sobre o treino porque não se sabia se era às quatro ou às cinco e a ideia era parar o treino para contestar os jogadores”, referiu.

“Na minha ignorância, achei que devíamos contestar… Queria confrontar, fazer perguntas, perceber o relacionamento dos jogadores. Ia também pela não ida à Liga dos campeões mas deixei-me influenciar um pouco também por aquilo que tinha acontecido na Madeira. Vínhamos de uma série de resultados positivos mas houve aquela derrota, a prestação dos capitães na Madeira que achei que tiveram um fraco rendimento, o que se passou na Madeira…”, acrescentou, antes de especificar que a ideia não passava por agredir qualquer elemento leonino.

“O confronto era por palavras, não tinha intenção de bater nos jogadores. Referi isso de cabeça quente nas conversas, achei que tinha dado muito para seguir o clube e achei que estava no direito…”, prosseguiu.

– Tenho aqui mensagens como ‘Partir tudo’, ‘Bater em todos’, ‘Por um pagam todos’, ‘William Carvalho’… Se a intenção era falar…
– Foi tudo depois do jogo da Madeira, estava de cabeça quente, não era minha intenção concretizar isso…
– Mas esta aqui é às 22h35 de dia 14, o jogo já tinha acabado há umas horas…
– Mas estava ainda com a frustração do resultado, foi tudo a quente…
– Então não tinha intenção, tapa a cara e começa a correr…
– A ideia era parar o treino mas quando entrei até fui a passo, um pouco mais acelerado, porque já estava cansado…
– Já tinha ido à Academia antes?
– Sim, uma vez fomos ver o treino, eu e um grupo de amigos. Penso que não havia nenhum pré-aviso mas deram-nos uma autorização especial, cantámos uns cânticos de apoio e tudo…
– Ia com a claque?
– Não, fora de qualquer grupo organizado…
– E quem era o treinador?
Não tenho ideia, não era o Jorge Jesus… Foi há uns cinco anos…

“Fui em direção aos campos, estava lá o Jorge Jesus e mais dois ou três funcionários do clube. Viro à esquerda. Fui atrás de algumas pessoas porque alguém referiu que os jogadores estavam dentro do edifício. Já havia algumas tochas abertas, levava uma também, abri, lancei e só depois é que tive noção da gravidade do meu ato, depois de estar detido e ver as imagens… A intenção não era atirar para baixo do carro, até reconheci o carro que era do Nelson quando vi depois das imagens. Mas fosse ou não dele, jamais tentaria fazer isso porque tenho noção das consequências que podia ter tido…”, assumiu Ricardo Neves, sobre as primeiras tochas deflagradas no exterior do edifício da ala profissional, incluindo uma que outro arguido retirou e que estava debaixo do Porsche de Nelson Pereira, na altura treinador de guarda-redes da equipa profissional do Sporting.

“Entrei na ala profissional, no edifício. Fui atrás de algumas pessoas mas calculei que fosse ali. Depois lembro-me de ver o Manuel Fernandes à esquerda, segui no corredor, as portas estavam abertas. Cumprimentei o Bas Dost com a cabeça e entrei no vestiário. À porta estava o Ricardo Gonçalves [diretor de segurança da Academia], a tentar acalmar. Entrei, virei à minha esquerda e percorri em ‘L’ da esquerda para a direita essa zona. Lembro-me de alguns jogadores que estavam sentados. Estava a falar com os jogadores, de certa forma a ofendê-los e a confrontá-los”, continuou, antes de falar da agressão.

– O que disse?
– Fui passando por eles um a um… Lembro-me do Rafael Leão, do Mathieu, do Acuña, do Fredy Montero, do Bryan Ruíz e não me lembro de mais…
– Mas o que lhes disse?
– Que eram uma vergonha, que não jogavam nada, que não mereciam a camisola que tinham ao peito… Estava frustrado e naquela onda de estupidez…
– Bateu em algum dos jogadores?
– O Acuña questionou o que se estava a passar, não me lembro se trocámos palavras e agredi-o com uma chapada. – Estava fora de mim, não calculei o que estava a fazer naquela altura… Foi uma questão de segundos, fui um dos primeiros a entrar. Primeiro estava só eu e ele, não sei se alguma pessoa se juntou…
– Mas é dos primeiros a entrar…
– Mal cometo esse erro, o Acuña não teve reação, até se sentou. Contornei, passei por eles, vejo o William de relance ao pé da entrada, tentei ir falar com ele. Estava com alguns elementos à volta mas vi-o sair do balneário. Fui atrás dele mas foi para a esquerda e estava a falar com outra pessoa, que também é arguido e não quis estar a ir lá…
– E depois?
– Estava muito fumo. Havia um pote de fumo amarelo. Saiu para o corredor e eu saí também para o corredor. Já havia alguns a sair, fui um dos últimos. Não consigo percepcionar quando foi aberto mas já estava fumo quando estou a sair…
– Bateu em mais alguém?
– Não, não, não…
– Fez alguma alusão à final da Taça de Portugal?
– Não… Havia gritos, algumas ofensas, ‘Filhos da p***… O resto não me recordo de ter ouvido…
– E quando sai?
– Vejo o Jorge Jesus a passar por mim pela lado esquerdo a estrabuchar aos gritos mas deu-me a entender que ia atrás de alguém…
– E não viu ninguém a agredir?
– Não, não, não…

“Fui-me logo embora mas tive logo a perceção que o que tinha feito não era correcto e queria sair dali o mais rápido possível. Antes, quando chegámos, apercebi-me que havia pessoas que vinham a andar, não sabia se era de cara destapada. As conversas foi tudo da boca para fora, deixei-me levar… Na altura não tive a perceção, não tive a inteligência e a maturidade para perceber que estava a fazer uma maldade…”, salientou mais uma vez.

– Faz parte dos casuais?
– Não.
– Tem amigos que façam?
– Não faço questão, não sei quem são…
– E da Juventude Leonina?
– Não tinha, cheguei a pertencer mas afastei-me…

“Achava que o que fazia estava bem, não pensava em consequências, não tinha a noção que tenho hoje. Consigo perceber que aqueles jogadores têm famílias, como eu tenho, que viram 20 ou 30 pessoas de cara tapada a entrar no seu local de trabalho… Sinto-me envergonhado, não quero ser mais aquela pessoa… Hoje consigo perceber a maldade que fiz, o que lhes causei… Já quando ia para ali, quando meti a balaclava, sabia que não era normal mas na minha cabeça era correto…”, continuou já em lágrimas, numa pausa para beber água.

– Achava que iam perceber o que clube significava para a gente, que estávamos sempre com eles, que podia ser uma motivação para a final da Taça de Portugal mas fizemos o contrário, só prejudicámos. A eles, ao clube, a vida deles e as nossas vidas…
– O que pretende fazer agora de diferente?
– Estive preso, tive que pensar. O sofrimento que causei nessas famílias, sobretudo os internacionais, às vítimas e às famílias. É algo que não se deseja a ninguém. Já tive uma depressão, o meu irmão tem uma deficiência, fica sempre dependente dos meus pais ou de mim, sinto-me mal comigo…

Ricardo Neves tinha volta a chorar e, enquanto se ia recompondo, a juíza Fátima Almeida começou a preparar o microfone para fazer mais algumas perguntas.

– Costumava ver os jogos na zona da Juve Leo?
– Repartia-me, via na bancada sul, na norte, na central. Nos jogos fora ficava na zona das claques normalmente.
– Conhecia as pessoas que são arguidas?
– Algumas, poucas.
– Foi à Madeira?
– Sim.
– Ficou até ao final?
– Não, tinha avião logo a seguir e saí mais cedo…
– E o que soube do que se passou hoje?
– Pela comunicação social que tinha sido uma falta de respeito do Acuña e do Battaglia…
– Não percebo a reação…
– Se calhar se fosse jogador mesmo sendo profissional reagia da mesma forma…
– Mas o que levou a fazer isso, a ter essa reação?
– Parece que o rendimento baixou de um momento para o outro, parece que alguns jogadores não quiseram aquele objetivo
– E de onde veio essa ideia?
– Da minha cabeça, da minha estupidez…

“O Manuel Fernandes disse qualquer coisa do género ‘Não façam isso’, depois cumprimentei o Bas Dost. Não sei se magoei ou não o Acuña. Não foi com toda a minha força mas ele não teve reação, ficou estupefacto”, disse.

– Acho estranho ficar-se, alguém como o Acuña…
– Tenho noção de que pode ter havido outros, não consigo ter a certeza…
– Há uma tocha, disse.
– Um pote de fumo, que não deita chama como a tocha. Apercebo-me do fumo quando volto para o balneário. Quando entrei, ainda não há fumo nem sei se o alarme já estava a tocar.
– A tocha já tinha levado?
– Sim, levei. Tinha-a do passagem de ano, tinha sobrado.
– E como vai reagir agora? E atenção, não é mau ser do Sporting, o mau é não tirarem o bom do que é essa experiência social… Ninguém estava à espera que não fossem…
– Ainda sou do Sporting mas não vejo as derrotas com a frustração que via antes, consigo abstrair-me. Não gosto de ver o meu clube perder mas não faz parte de mim reagir assim…
– Faz desporto?
– Sim, joguei futebol e futsal e pratiquei artes marciais

“É preciso ser preso para pôr a mão na consciência, é triste. Não tinha a maturidade para perceber isso, tinha 22 anos. Só aí é que percecionei os danos que causei, não tinha noção…”, referiu depois, antes de uma interrupção de Sílvia Pires, a juíza presidente, perante questões do advogado de Bruno de Carvalho, Miguel A. Fonseca, sobre se alguém tinha pago ou incentivado para haver a invasão. “Senhor doutor, não tenho feito essa pergunta porque me parece completamente percetível que todos os arguidos dizem ‘Eu fui’, ‘Eu quis ir’… Logo, não ofereceu dinheiro, ninguém ofereceu dinheiro, ninguém andou a incentivar”, comentou num dado importante para o caso.

“Quero pedir desculpas ao tribunal, à minha família pelos atos. Queria pedir uma segunda oportunidade, tenho objetivos pessoais e profissionais. Sou novo, acredito que mudei e não vou voltar a cometer os erros. Tenho hoje uma maturidade diferente, sinto-me envergonhado. Queria que este tribunal me desse uma segunda oportunidade para provar que consigo ser pessoa, que acredito que já sou”, concluiu, num momento de novo mais emocionado antes de voltar ao lugar e, ao contrário do que é normal, sentar-se junto aos outros arguidos na sala.

Eduardo deixou um papel no café a dizer que voltava às 18h. Voltou. Mas…

“Queria falar sobre os factos e sobre mim”, começou por dizer Eduardo Nicodemus, de 48 anos, que já tinha sido falado pela sua advogada por um facto que referiu logo: os bilhetes para a final da Taça de Portugal. “ No dia 15 de maio recebi uma chamada para ir à Academia e resolvi ir por volta das quatro, quatro e pouco. Ia ver o treino e tentar arranjar bilhetes para a Taça. Já tinha ido lá algumas vezes”, frisou, no início de um depoimento que em algumas ocasiões colocou os próprios arguidos no segundo a esconder a cara a rir.

– É sócio do Sporting?
– Sim.
– Era da Juve Leo?
– Também.
– E é chefe de núcleo?
– Sim, do Vale da Amoreira. Mete ali Baixa da Banheira, Lavradio…
– Decidiu ir à Academia ver o treino, pronto. E então?

“Chego ao portão da Academia, deparo-me com os jornalistas, pergunto a que horas é o treino, dizem que é às cinco e meia e volto para trás. Quando estou a ir embora, vejo uma caravana de carros a passar. Como iam com o pisca ligado, chamou-me logo a atenção. Reconheci dentro dos carros algumas pessoas, fiz marcha atrás num cruzamento uns 20 metros, cerca de 20 metros, porque ali era apertado e perigoso, e fui atrás deles. Mas tive de fazer três manobras, demorei tempo…”, contou, sobre os momentos que antecederam a entrada.

“Depois tirei as chaves, o tabaco, telemóvel. Não cheguei a ver o primeiro grupo. No parque de estacionamento já só estavam umas duas ou três pessoas, de cara destapada. Estava sozinho, entrei de cara destapada, sempre sozinho. Deixei de ver os carros quando estava a fazer as manobras e perdi o rasto da caravana. Um dos senhores do último grupo, que vai atrás, fala comigo. Eu fui o último e o grupo que estava mais atrás, uns oito. Dizem-me para meter o colete na cabeça”, continuou Eduardo Nicodemus.

– Então mas porquê, estava sol?, perguntou Sílvia Pires.
– Estavam os jornalistas à porta…
– E os outros?
– Eles tinham chapéus, outros gorros…
– E depois?
– Entro na Academia, vejo três seguranças de portão aberto, lembro-me de um cão e sigo para os campos de treino. Já fui dezenas de vezes à Academia, não achei estranho.
– Foi lá em que contexto?
– Ver os seniores, o futebol feminino, as camadas jovens…
– E deixavam entrar?
– Quando era preciso comprar bilhete pediam identificação, na maioria bastava o cartão de sócio porque não se paga, nunca pediram nada… E fui ver vários treinos.
– Vários treinos? Quem era o treinador?
– Primeiro era o Fernando Santos até, em 2004 ou 2005… [Fernando Santos foi treinador do Sporting na temporada de 2003/04]

“Ali na zona dos primeiros arbustos, vejo um segurança de óculos e uma pessoa do Sporting, dizem as palavras ‘Eles foram por ali, eles foram por ali’. Às vezes há 15 minutos aberto à comunicação social, pensei. Vi o senhor Jorge Jesus e as palavras dele foram ‘Tu és mais velho, tu és mais velho, ajuda-me lá se faz favor’. Não sabia nada do que se estava a passar. Na porta da ala profissional vejo o senhor Manuel Fernandes que me expulsa praticamente dali. Exaltado, a dizer que o Sporting não é aquilo, eu a dizer que o Jesus tinha pedido para ir ali. Como repetiu duas ou três vezes para me ir embora, fui-me embora, fiquei ali na porta que me pareceu ser do gabinete do senhor Manuel Fernandes. Ouvi gritos, fumo não. Fiquei em pânico com aquilo. Não me apercebi de Jorge Jesus entrar no edifício. Quando cheguei cá fora, fui pelo outro lado e segui para o meu carro. No caminho sou apanhado por um grupo de 15 elementos, por aí”, explicou sobre a permanência no espaço.

– Tinha ido à procura dos bilhetes, no final da época é mais difícil. Vejo tudo, vou fora, considero-me um bom apoiante do Sporting…
– E não viu no grupo do WhatsApp dos chefes dos núcleos que iam invadir a Academia?
– Mas não tive perceção…
– Calma, calma, tenho mais mensagens… Pedrada no bus à chegada…
– Não fui eu que escrevi isso…
– Não mas há estas todas… Calma ainda não acabei… O Patrício também se portou mal… Então, ia ver o treino e comprar bilhetes?
– O meu maior objetivo era ir comprar bilhetes e estar com o senhor Tiago Silva [Bocas] que é quem me fornece bilhetes.
– Como é que se meteu então nessas conversas?
– Estava a haver contestação, os sportinguistas no café estavam a contestar também e aquilo foi um desabafo… Aquilo que foram as minhas opiniões nem tiveram seguimento na conversa, se vir bem…
– Mantém então que ia ver o treino?
– Sim, isso. E ia tentar adquirir bilhetes…

Fátima Almeida, que pelas expressões de aceno da cabeça não ia gostando da conversa e das respostas dadas tendo as tais mensagens à sua frente, agarrou depois nas perguntas do coletivo de juízas.

– Quem é o chefe de núcleo do Lavradio?
– Não sei.
Então mas o Vale da Amoreira não engloba o Lavradio?
– Sim, mas são formados pelas pessoas da terra…
– Bom vamos lá ver… Vive no Lavradio e não sabe quem é o chefe de núcleo do Lavradio?
– Não…
– Esteve na famosa reunião na Casinha a 7 de abril?
– Não.
– Foi à Madeira?
– Não.
– Quando é começa a conversa então?
– Os bilhetes foi umas semanas antes, é sempre assim…
– Não quero saber dos bilhetes, quero saber disto da Academia.
– Nesse jogo, o do Marítimo.
– E não se apercebeu de nada de falarem em agressões?
– Não, não, nem disse nada disso… Estava a trabalhar no café, tinha aquilo cheio, disse ali uns desabafos…
– E o que é que o senhor leu daquilo?
– Que havia contestação…
– E que iam à Academia?
– Não, também não. Só soube no dia 15. Só à hora de almoço, entre as duas e meia e as quatro, por causa do café…
– E não teve noção de nada?
– Não, fiquei ali, pus um papelinho no café a dizer que regressava às 18h, que já voltava. E a seguir ainda voltei ao café.
– E falou com o Tiago Silva?
– Não, não houve contacto com ninguém.
– Mas não era normal falar com o Tiago Silva, se ainda por cima tinha de voltar ao café às 18 horas?
– Havia uma grande pressão por causa dos bilhetes. Era final da Taça de Portugal, também o andebol, os jogos do hóquei, o jogo com o Benfica, com o Porto…
– O que é que tinha de fazer para ter bilhetes?
– Nada, estar presente para ir buscar… Parece que acha que estou a mentir mas não estou a mentir…

“Não conheço mais ninguém a não ser o Tiago Silva. Conheço o Fernando Mendes, por ser uma figura pública mas nunca falei com ele. O Elton Camará? Não conheço. Nuno Mendes, o Musta? Conheço-o mas também não falo com ele. Adoro os jogadores, adoro o Sporting, fico à porta da Academia, peço autógrafos em bolas para os miúdos, peço bilhetes se os jogadores tiverem, são muitos anos…”, acrescentou, numa altura em que os arguidos presentes no segundo bloco do Tribunal de Monsanto olhavam uns para os outros a rir.

– Viu um segurança à porta então…
– Três seguranças. E o cão, vi um cão…

O depoimento estava a chegar ao fim e foi nesta altura que a maioria dos arguidos teve mesmo de baixar a cabeça para não desrespeitar o tribunal enquanto disfarçavam os sorrisos. “Fui por instinto atrás dos outros, nunca pensei que algo assim fosse acontecer”, advogou depois, numa altura mais serena e em que respondia a perguntas da sua advogada. “A minha vida foi por água abaixo com tudo isto. Tive prejuízos no café, fiquei sem clientela, os clientes desapareceram, dois anos depois não ganho para os gastos… O estado de saúde da minha mãe que já tem uma certa idade também se agravou… Foi tudo muito mau, teve um grande impacto no clube, nos jogadores, nas famílias dos jogadores… Foi muito mau”, concluiu Eduardo Nicodemus.