Tem o melhor maxilar de Batman, ainda que as suas aventuras com capa de morcego super-herói tenham sido um flop. É uma das partes de um dos mais bem sucedidos e duradouros bromances (amor entre amigos) de Hollywood, com Matt Damon. E apesar de uma carreira intermitente, sobretudo enquanto ator, as notícias sobre o fim da carreira de Ben Affleck têm sido muito exageradas. Sobretudo porque ele arranja sempre forma de voltar – e desta vez até volta com um filme que é precisamente sobre voltar.

O Caminho de Volta, o filme de Gavin O’Connor que estreia esta quinta-feira, 12 de março, marca o regresso de Ben Affleck ao grande ecrã enquanto verdadeiro foco das atenções de um filme – é ele o protagonista que arrasta toda a narrativa, Jack Cunningham, uma antiga estrela de basquetebol totalmente decadente, um alcoólico deprimido, que encontra uma nova oportunidade no convite para treinar a equipa do seu antigo liceu.

[o trailer de “O Caminho de Volta”:]

E qualquer semelhança deste contexto de alcoolismo e depressão e de novas oportunidades com a realidade não é mera coincidência. Com este filme, não há apenas um ator a voltar ao grande ecrã com uma interpretação que tem sido unanimemente celebrada pela crítica – há também Ben Affleck, o homem que, aos 47 anos, assumiu os seus problemas com o álcool e usou também este filme como um passo rumo a uma nova vida, mais equilibrada e mais honesta. Uma honestidade que transpareceu na entrevista que deu em fevereiro ao jornal New York Times:

“Bebi de forma relativamente equilibrada durante muito tempo. Mas comecei a beber cada vez mais quando o meu casamento começou a degradar-se, em 2015, 2016. Depois, claro, os meus problemas com a bebida criaram mais problemas na relação. (…) Cometi muitos erros. Fiz muitas coisas de que me arrependo. Mas temos de superar isso, aprender com os erros, aprender mais ainda, e tentar seguir em frente.”

E é mesmo por isso que aqui estamos.

Poderá ser esta a era do perdão em Hollywood?

No discurso que fez na última cerimónia dos Óscares, onde ganhou o prémio de Melhor Ator, Joaquin Phoenix não quis deixar de agradecer à comunidade pelas segundas oportunidades que foi tendo apesar das vezes em que foi “egoísta”, “cruel” e “difícil de trabalhar”. Nessa mesma noite, já tinha subido ao palco Brad Pitt, que passou toda a temporada dos prémios de cinema a agradecer a quem o ajudou no caminho para a sobriedade, como o actor Bradley Cooper.

É neste ambiente de uma Hollywood mais predisposta a “perdoar” fragilidades e problemas pessoais que Ben Affleck agora se ergue enquanto exemplo de superação, uma superação que agora se procura mais nos atores do que nas personagens. Agradeceu também a Bradley Cooper, e a Robert Downey Jr., pelo apoio, e, claro, ao amigo Matt Damon e ao irmão, Casey Affleck, que também já falou publicamente sobre os seus problemas com alcoolismo: “Nem consigo explicar quão valioso é ter ao nosso lado pessoas que sabem o que passaste, que sabem como foi a tua vida, que estiveram lá nos altos e baixos. É por isso que a minha amizade com Matt Damon e com o meu irmão tem sido tão importante. Não sei o que seria de mim sem eles”, disse recentemente ao Entertainment Tonight.

Isto não significa que Hollywood não tenha sido – e não continue a ser – um sítio cruel e demasiado exposto para se atravessar fases difíceis. Affleck sabe disso como ninguém: não só foi filmado e fotografado quando teve uma recaída no ano passado, algo que, como disse ao New York Times, “preferia que não estivesse na internet para os meus filhos verem”, como durante muito tempo, e numa das fases mais difíceis da sua vida, se tornou um dos memes mais virais de que há memória.

O famoso “Sad Affleck”, captado durante as entrevistas de promoção do filme Batman vs Super-Homem, é muito simbólico sobre as lutas do ator, que se tornou objeto de comédia mundial enquanto enfrentava o fim do casamento de dez anos com Jennifer Garner, enquanto o seu último filme era considerado um falhanço e enquanto estava prestes a ir pela terceira vez para uma clínica de reabilitação.

O famoso meme “sad Affleck”

Por tudo isso, e ainda mais, faz todo o sentido que Ben Affleck tenha enfrentado este papel em O Caminho de Volta como mais uma forma de chegar a essa honestidade que agora procura, e como uma forma muito pública e muito assumida de catarse. Como disse o realizador do filme também ao New York Times, “acredito que o Ben, de uma forma muito artística, muito humana, quis enfrentar os seus próprios problemas através da personagem e sarar as feridas”.

Numa possível era do perdão, o público, que sempre foi vulnerável ao efeito de estrelato Ben Affleck, mais ainda do que ao efeito realizador/argumentista premiado, parece estar a torcer por ele. E é um bom ano para isso – além do filme que estreia agora, Affleck estabeleceu desta vez um regresso particularmente ambicioso, que contará também com o filme que já chegou à Netflix (A Sua Última Vontade), a estreia do thriller Deep Water (em novembro) e, preparem-se para a comoção, o regresso à parceria com Matt Damon como argumentista (mais de vinte anos depois de O Bom Rebelde) para o novo filme de Ridley Scott, The Last Duel, que já começou a ser filmado.

Os mil e um regressos de Ben Affleck – nos filmes e na vida

Agora, quando se pesquisa Ben Affleck no Google, percebe-se que a internet está apaixonada pela possibilidade de ele estar apaixonado de novo, desta vez por Ana de Armas, com quem contracenou em Deep Water e com quem foi de férias para Havana.

Com Ben Affleck foi sempre assim. A imprensa segue-o como um farol de grande estrela mundial mesmo quando alguns dos seus papéis no cinema – além de Batman, há Armageddon, Shakespeare in Love, Duro Amor… – levantaram dúvidas sobre as suas competências como ator. Por isso, seja no romance que teve com Jennifer Lopez, e que deu origem à sua participação no videoclipe do hit “Jenny from the Block”, seja em gags de comédia, como o confronto entre Sarah Silverman e Jimmy Kimmel que deu origem aos vídeos musicais “Fucking Matt Damon” e “Fucking Ben Affleck”, seja na longa relação e igualmente longo divórcio com Jennifer Garner (com quem tem três filhos), o público nunca se cansa dele.

[o vídeo de “Jenny From the Block”:]

Na verdade, quem às vezes parece que se cansa disto tudo é Ben Affleck. O famoso episódio da tatuagem nas costas é a epítome disso mesmo: durante anos, desde que Ben Affleck apareceu em 2016 numa praia com uma enorme fénix renascida tatuada nas costas, que a imprensa cor-de-rosa dos EUA escreveu dezenas de artigos sobre o assunto. Primeiro porque era uma crise de meia-idade, depois porque o ator disse que era falsa e apenas para um filme, depois porque a tatuagem voltou a ser avistada e afinal devia ser verdadeira e ele tinha mentido…

Dois anos depois, em 2018, Ben Affleck ainda estava a dar entrevistas sobre a malfadada tatuagem, e até a insuspeita revista New Yorker escreveu sobre o seu poder semiótico. “Menti porque fiquei irritado por me andarem a espiar. Senti que estavam a invadir a minha privacidade”, confessou ao New York Times. E se a tatuagem é de facto real, mais real é o poder de atração inabalável de Affleck, mesmo nos piores momentos da sua carreira.

Acontece que, felizmente, Ben Affleck é mais do que uma superestrela satisfeita com o estrelato que lhe está sempre reservado, aconteça o que acontecer. Pelo meio de alguns baixos, a sua carreira teve muitos altos, quase todos criados pelo próprio. Desde a sua estrondosa entrada em Hollywood, com o Óscar para Melhor Argumento Original partilhado com Matt Damon em 1997 por O Bom Rebelde, o filme da vitória de um grupo de jovens de Boston sobre as suas origens difíceis e sobre um meio privilegiado que os costuma deixar de fora, até ao Óscar de Melhor Filme para Argo, que realizou e produziu, passando até pela sucesso da sua interpretação no filme Em Parte Incerta, de Fincher, onde Affleck usou precisamente a sua qualidade de estrela bem-amada pelo público a favor da personagem.

[o trailer de “Em Parte Incerta”:]

Agora, mais uma vez, apesar dos memes, das tatuagens, dos papéis com péssimas críticas e apesar da superação pessoal que o acompanha desde sempre (“O meu pai só conseguiu ficar sóbrio quando eu já tinha 19 anos. Há muito alcoolismo e doença mental na minha família, e esse legado é muito poderoso e difícil de contrariar.”), parece que O Caminho de Volta é mesmo o caminho de volta para Ben Affleck. E, como sempre, está toda a gente a torcer por ele.