O novo coronavírus pode permanecer e replicar-se no trato respiratório superior, ou seja na boca e no nariz, durante uma semana antes de chegar aos pulmões, à traqueia e aos brônquios, infetando-os. Por outro lado, este vírus também é expulso do organismo em grandes quantidades, através das fezes, logo nas primeiras duas semanas de doença.

As conclusões no relatório publicado esta quarta-feira na Nature surgem do estudo de nove pacientes com Covid-19 acompanhados num hospital em Munique, Alemanha, em janeiro deste ano. Embora já tenha sido revisto por outros cientistas, os autores deste estudo sublinham que o número de pacientes analisados é ainda pequeno para se chegar a certezas mais profundas sobre a forma como o vírus se comporta dentro do organismo humano. É preciso estudar mais pessoas e segui-las durante mais tempo.

Ainda assim, esta amostra permitiu já que os investigadores, liderados por Christian Drosten, especialista em novos agentes patológicos virais, tirassem algumas conclusões ao compararem os materiais biológicos recolhidos no nariz, boca, catarro, sangue, urina e fezes.

Essas amostras recolhidas, entre o primeiro e o quinto dia de sintomas, no nariz e faringe dos doentes com uma zaragatoa tinham, em média, 676 mil cópias da informação genética do vírus. No máximo, no entanto, chegou-se a encontrar 711 milhões de cópias numa só zaragatoa.

De acordo com os cientistas, estes valores chegam a ser mil vezes superiores aos que foram registados durante a epidemia da síndrome respiratória aguda grave (SARS) em 2003. Ao contrário do que aconteceu com o coronavírus responsável pelo SARS, este vírus tem uma grande capacidade de se replicar quando ainda não chegou ao trato respiratório inferior e ainda está apenas na boca, nariz ou garganta.

Mais. Nalguns casos, estas cópias da informação genética do vírus só deixaram de ser detetadas ao fim de 28 dias nas zaragatoas, até quando os pacientes já não tinham sintomas.

Mesmo nas fezes, embora sejam encontradas em maiores quantidades nas duas primeiras semanas da doença, essas cópias do vírus persistem durante 18 dias, em média. Em alguns casos ainda são detetadas ao fim de 26. Além disso, os cientistas recolheram amostras que continham células infetadas com uma forma de ARN que sugere que o novo coronavírus consegue replicar-se no trato gastrointestinal.

Isso “coloca as estratégias de contenção da Covid-19 em perspetiva”, consideram os cientistas: “Estas descobertas sugerem uma transmissão mais eficiente de SARS-CoV-2 o momento em que os sintomas ainda são leves e típicos de infeção do trato respiratório superior”, descrevem. O novo coronavírus parece ter uma maior facilidade de se replicar, o que pode explicar a forma como se espalhou pelo mundo.