A 10 de dezembro de 2019, Wei Guixian começou a sentir-se doente. Uma semana depois, estava internada no hospital da cidade chinesa de Wuhan, local onde começou a pandemia da Covid-19 que já matou mais de 64 mil pessoas num universo de mais de um milhão de doentes infetados. Segundo documentos das autoridades chinesas, Wei Guixian, uma vendedora de marisco de 57 anos, foi a primeira pessoa a ter um diagnóstico confirmado de Covid-19 no mercado de mariscos de Wuhan, considerado até agora o local onde surgiu o coronavírus na origem da pandemia.

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Um documento das autoridades chinesas que chegou à comunicação social dá conta de que uma mulher que vendia camarões vivos no mercado de Wuhan tinha sido a primeira pessoa a testar positivo para o coronavírus entre as pessoas testadas ligadas àquele mercado, na origem da pandemia. No início de março, o jornal norte-americano The Wall Street Journal revelou a identidade da mulher: Wei Guixian, 57 anos.

Numa entrevista mais recente ao jornal chinês The Paper, a mulher contou o que lhe aconteceu. “Senti-me um pouco cansada, mas não tão cansada como em anos anteriores“, disse Wei, explicando que começou por pensar que estava apenas constipada, ou com uma gripe comum como habitualmente lhe acontecia. “Todos os invernos sofro com a gripe, por isso achei que fosse uma gripe“, afirmou. Foi a uma clínica local, onde lhe foi dada uma injeção para a gripe e regressou ao trabalho no mercado. Nessa altura, já estava infetada com o novo coronavírus.

O tratamento comum que lhe foi dado na clínica não funcionou e Wei acabou por procurar uma segunda opinião num hospital da cidade. Aí, foi observada pelos médicos — que também não conseguiram perceber em concreto o que a mulher tinha. Receitaram-lhe comprimidos, mas, novamente não funcionaram. A vendedora, cada vez mais doente, regressaria à clínica inicial para uma nova injeção.

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“Por essa altura, senti-me muito pior e muito desconfortável. Não tinha força nem energia”, contou Wei. A 16 de dezembro, seis dias depois dos sintomas iniciais, a mulher dirigiu-se a um dos maiores hospitais de Wuhan em busca de um tratamento eficaz, e foi aí que ouviu um médico pronunciar-se pela primeira vez sobre a doença que tinha. Não era uma gripe comum — e por aquela altura já várias pessoas tinham chegado ao hospital com sintomas semelhantes, vindos do mesmo mercado de mariscos.

Só no final do mês é que os médicos do hospital acabaram por estabelecer uma ligação entre a doença e aquele mercado de mariscos, no qual a 31 de dezembro já tinham sido identificados um total de 24 casos de infeção. Sabe-se agora que Wei Guixian foi a primeira no mercado — e os seis dias entre a manifestação dos sintomas e a ida ao hospital central podem ter sido cruciais na disseminação do vírus.

Ainda assim, apesar de Wei ser considerada pelas autoridades como a primeira pessoa a ter testado positivo para o vírus, não se pode dizer que esta mulher seja o chamado “paciente-zero”, ou a primeira pessoa a contrair o vírus a partir de um animal. A comunidade científica chinesa já conseguiu confirmar que a doença em humanos remonta pelo menos ao dia 17 de novembro, três semanas antes dos sintomas reportados por Wei.