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Morreu, aos 70 anos, Luis Sepúlveda, vítima de infeção pelo novo coronavírus. Deixa uma vasta obra literária, um autêntico “exercício de memória”, onde a fábula, melhor género para conhecer o ser humano “à distância”, como dizia, se convertia num pretexto para se debruçar sobre as personagens que foi conhecendo ao longo da vida. Porque a escrita não fazia parte de uma terapia para curar feridas do passado. A escrita era sempre parte do presente do autor.

Luis Sepúlveda foi internado em Gijón, nas Astúrias, no final de fevereiro, depois de ter sido diagnosticado com Covid-19, dias após ter estado em Portugal, para participar no festival literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. Todos os participantes no festival acabaram por ficar em quarentena, que terminou sem que ninguém manifestasse sintomas da doença.

Sepúlveda foi, e em primeiro lugar, fruto de uma época que só poderia convertê-lo num contador de histórias. A ditadura de Augusto Pinochet, a guerra do Vietname, a descolonização em África, a revolução cubana, o maio de 68 antes do maio de 68 francês. E a Guerra Fria, que foi useira e vezeira da América Latina. De criança à vida adulta, o escritor chileno esteve sempre um pouco por dentro das convulsões sociais da segunda metade do século XX.

Nascido em 1949, numa pequena vila chamada Ovalle, no Chile, envolveu-se na política muito novo, ainda na faculdade. Antes veio o teatro, ou a produção teatral, na Universidade Nacional do Chile. Um género que iria marcar muito da sua vida antes de se tornar um autor mundialmente famoso. Ainda em adolescente, decide ler Moby Dick, de Herman Melville, com 16 anos. É com esse livro que desperta uma dúvida que iria levá-lo até ao género da fábula, ao reino animal, esse “convite à literatura”.

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“Percebi que Melville nunca se referia ao comportamento da baleia neste livro. Porque é que ataca? Porque é que teve aquele comportamento? O testemunho era só dos marinheiros naufragados”, contava em entrevista à RTP, em setembro de 2019, a propósito do seu último livro, Histórias de Uma Baleia Branca.

Em 1969, recebeu uma bolsa de cinco anos para estudar em Moscovo. Um ano antes conheceu Carmen Yáñez, sua mulher de hoje. Os dois acabariam por ser afastados pelas grades da ditadura durante vinte anos. Amantes distantes ideologicamente que foram viver outra vida para mais tarde se voltarem a juntar. Uma maoísta, outro guevarista. Correu mal, sofreu-se muito, mas resistiu-se.

Esta bolsa de cinco anos transformou-se em apenas cinco meses de experiência no outro lado do mundo. Foi expulso por “mau comportamento” ou, como se lê em inúmeros sites sobre a sua vida, por “atentado à moral proletária”, por Sepúlveda ter mantido supostos contactos com dissidentes soviéticos. Não ficou muito tempo, é certo, mas talvez o suficiente para ter dado o nome de Carlos Lenine a um dos filhos, que teve com Carmen. Hoje em dia, Carlos é músico de rock’n’roll na Suécia. “Não renego o que fui”, confessa em entrevista ao Jornal SOL. Primeiro comunista, depois socialista, algo que o levou a escrever dois livros: Nome de Toureiro (1994) e O Fim da História (2017).

Luis Sepúlveda: “Nenhum governo chileno sente uma especial simpatia por mim”

Regressa ao Chile, sai da Juventude Comunista e filia-se no Partido Socialista com a esperança de ver o seu país transitar para um outro modelo e junta-se a Salvador Allende, fazendo parte inclusivamente do GAP (Grupo de Amigos Pessoais do presidente, responsáveis pela sua segurança) — um grupo com quem continuava a encontrar-se, sempre que possível. Mil dias depois, a 11 de setembro de 1973, é instaurada a ditadura militar de Augusto Pinochet, a primeira em 136 anos de história do país. Essa memória levou-o a escrever o Memorial dos Anos Felizes, onde o autor descreve esta experiência política como “dura, intensa, sofrida e satisfatória”, onde se fumava marijuana nos Andes e se ouvia Janis Joplin. “Dormíamos pouco. Vivíamos em toda a parte e em nenhuma”, descreve.

Acaba na prisão, onde esteve quase três anos, saindo em julho de 1977 graças à Amnistia Internacional. No tempo em que esteve em prisão domiciliária, conseguiu escapar-se e viver na clandestinidade, criando um grupo de teatro, visto como resistência cultural à ditadura. Foi novamente detido e condenado a 28 anos de prisão, por “traição e subversão”. Volta a Amnistia Internacional a ajudá-lo e aí sim, começa a vida de exilado.

Durou 15 anos, sendo que esse fim de estar longe da pátria — logo ele que se considerava um patriota — terminou na Nicarágua.

“Sou o escritor mais querido, mais popular e mais acarinhado, mas, simultaneamente, sou sistematicamente ignorado pelo governo. Para eles eu não existo, não se fala de mim, não faço parte dos planos de leitura, de nada… os meus livros são pirateados na rua!”, confessava em 2003, em entrevista ao Correio da Manhã.

Um sentimento que não mudou, já que repetiu a frustração em entrevista ao Observador, 13 anos depois, quando regressou, mais uma vez, à Feira do Livro, para apresentar o seu livro História de um cão chamado Leal, onde explora a cultura mapuche, dos habitantes originais do Chile. “Nenhum governo chileno sente especial simpatia por mim”, conta alguém que tem no seu ADN uma “cultura de resistência política”, como o próprio chama.

Em 1977, decide rumar para a Europa, mais propriamente à Suécia, para ensinar literatura espanhola. Só que durante uma escala em Buenos Aires, aproveita para fugir e refugiar-se no Uruguai. Segue-se São Paulo e Paraguai, onde também não é bem recebido pelo governo daquele país. É, por isso, no Equador que descobre a sua próxima grande jornada: uma expedição da UNESCO para acompanhar os índios shuar, com quem viveu sete meses, numa região da Amazónia, que “fracassou ao fim de 12 semanas na selva”. Mas que, por persistência ou por curiosidade, lhe deu a conhecer uma “outra maneira de entender a vida e a morte — sem medo”, como confessa em entrevista ao Observador. E é dessa experiência que nasce O Velho que lia romances de amor (1989). E é também aí que começa uma das grandes marcas na escrita de Sepúlveda: a preocupação ambiental, aliada a um sentimento de justiça e luta pela igualdade. Especialmente por ter vivido, segundo o próprio, num país com um sistema de educação público, laico, gratuito e que mantinha uma responsabilidade ambiental muito forte, já que o Chile é alvo de diversos desastres ambientais.

“Eles, por exemplo, nunca viviam mais de três anos no mesmo lugar. É um exemplo de generosidade das duas partes — a natureza recupera e eles permitem que ela recupere. Foi como fazer uma espécie de doutoramento na melhor universidade, que é a universidade da diversidade”, confessa.

Depois, passou, como referido anteriormente, pela Nicarágua, pelas Brigadas Internacionais Simon Bolivar, para combater outro ditador, Anastácio Somoza, desta vez com uma vitória. Parte para a Alemanha, onde se torna repórter em Hamburgo. Mas a preocupação ambiental falou mais alto e Sepúlveda decide juntar-se à Greenpeace, tendo participado numa das maiores ações da organização, quando bloquearam o porto japonês de Yokohama, durante dois meses, para lutar contra a caça da baleia. Dessa experiência sai o livro Mundo Do Fim Do Mundo, uma homenagem aos voluntários da Greenpeace, onde o protagonista tem uma história muito semelhante ao autor. Na vida real, um dos navios em que o escritor chileno navegou chamava-se Moby Dick. A fábula e a realidade a encontrarem-se. Antes de chegar às Astúrias, onde vivia atualmente com a mulher, Sepúlveda teve ainda outras tantas “vidas”: trabalhou como motorista de autocarros, foi correspondente em Angola e ainda viveu em França. Gijón foi terreno do seu último exílio, pois fazia-lhe falta falar a língua materna.

O também autor de História de um Caracol Que Descobriu a Importância da Lentidão (2016), A Sombra Do Que Fomos (2009) ou História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar (1996) nunca deixou de criticar as esquerdas sendo um homem de esquerda, tendo, porém, esperança numa social democracia como alternativa. “A Europa tem-se convertido, um pouco, num continente de diletantes da política, e eu não confio em diletantes. Mas evidentemente há, ou tem de haver, exemplos, mas não sei quais são”, disse em entrevista ao Jornal de Negócios há dois anos, a propósito do lançamento do livro O Fim da História, no qual se debruça sobre alguns dos episódios que viveu em primeira mão, dedicando-o à mulher. E também nunca deixou de escrever, e, sobretudo, de ler, algo que gostava que fosse considerado como profissão ou, pelo menos, que fosse algo remunerado.

Nunca escreveu mais do que 200 páginas porque o jornalismo lhe deu capacidade para resumir, para agarrar “o leitor na primeira palavra”, como disse em entrevista ao jornal i em 2017. Gostava muito de cozinhar e gostava muito dos seus netos, que lhe serviram também de inspiração para as fábulas. Antes de ser escritor — muito disciplinado, com um horário restrito para escrever –, era cidadão, muito ativo, sempre político. Ao jornal espanhol 20 minutos, Sepúlveda confessou que não conseguia olhar para trás com melancolia.

“Vivo muito bem com a nostalgia e não permito que se transforme em melancolia, que é estar feliz por estar triste. Eu nasci e cresci num país que já não existe. Só tenho a minha memória, mas essa é a nostalgia sã, a outra não a deixo entrar”.

Ficará, talvez, o sonho, e a memória querida, de vir a contar histórias junto ao rio, como fazia o seu tio-avô Ignacio, quando Luis Sepúlveda era mais novo.