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Na passada quarta-feira, dia em que os técnicos de Direção-Geral da Saúde e do Instituto Ricardo Jorge voltaram a colocar os líderes partidários e as mais altas figuras do Estado a par do que se passa na linha da frente do combate à pandemia, houve um valor que saltou do auditório do Infarmed para o exterior e desde então tem sido repetido por especialistas e leigos como uma espécie de número mágico a alcançar: 0,7.

Para que as medidas de restrição comecem a ser levantadas e para que a vida possa voltar ao normal, o R0 (que é como quem diz o número básico de reprodução) do novo coronavírus deve baixar até aos 0,7, explicaram os especialistas na passada quarta-feira, não só mas também recorrendo ao exemplo da Noruega, que só terá decidido aliviar as restrições quando o índice chegou a esse valor.

O problema, relataram na altura ao Observador várias fontes presentes, reproduzindo os ensinamentos recolhidos na sessão, é que será frequentemente mais fácil (e mais rápido) baixar de um R0 inicial de 2 para 1, do que baixar de 1 para 0,7.

Se há três dias, aquando da reunião no Infarmed, o número de contágio por pessoa estava entre os 0,88 e os 0,89, este sábado, anunciou a ministra Marta Temido na habitual conferência de imprensa diária, para dar conta da evolução da Covid-19 no País, o R0, ponderado através da média dos dados relativos aos últimos 5 dias, é de 0,91.

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Perante os jornalistas, a ministra da Saúde preferiu comparar o valor atual com o registado entre 21 de fevereiro e 16 de março — nessa altura, o número médio de pessoas que cada doente infetado contagiou com o novo coronavírus foi de 2,08. “Ou seja, um caso infetado tinha o risco de gerar 2,08 outros casos”, explicou. “Com a introdução de medidas de contenção, verificou-se uma diminuição do risco de transmissibilidade, que se situa agora, face à média dos últimos cinco dias, nos 0,91.”

“Estes dados continuam a permitir estimar que o máximo da incidência tenha ficado no passado, entre os dias 23 e 25 de março. São números que nos encorajam mas são também resultados que nos responsabilizam”, concluiu Marta Temido, para depois voltar a apelar  à “responsabilidade de todos ao nível do comportamento individual”. “Até ao final de abril continuam a esperar-nos dias muito exigentes; as regras mantêm-se”, frisou ainda a ministra.

Consultas e cirurgias adiadas começam a ser feitas na próxima semana

O que deverá começar a alterar-se já no final da próxima semana, avançou também Marta Temido, é o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que deverá voltar ao “normal”.

Depois de enumerar as quebras sentidas no SNS no mês de março, por causa da pandemia — houve menos 300 mil consultas nos cuidados de saúde primários; menos 180 mil consultas hospitalares; foram feitas menos 9 mil cirurgias e as idas às urgências caíram 11,5% — a ministra da Saúde anunciou que “está na altura de invertermos esta lógica”.

A partir da próxima semana, explicou, a situação deverá começar a alterar-se, em articulação com as administrações regionais de saúde: “O que iremos fazer nos próximos dias é um reagendamento da atividade assistencial não realizada, garantindo que começamos por dar prioridade aos casos que têm avaliação clínica para tal”, acrescentou Marta Temido, que garantiu que “não há necessidade de os utentes terem qualquer receio de utilizar o SNS”.

O objetivo não é, pelo menos para já, acabar com as consultas por telefone ou por videochamada — continuarão a estar aconselhadas, nomeadamente em casos de renovação de receituário e outras situações não urgentes —, nem sequer liberar o acesso generalizado às urgências hospitalares — sendo que os episódios de urgência triados com pulseiras brancas, verdes ou amarelas deverão ser encaminhados dos hospitais para os centros de saúde.

“O que vamos fazer, nos próximos dias, é o reagendamento da atividade assistencial não realizada. Daremos prioridade aos casos com indicação clínica para tal, numa avaliação que vai ter de ser feita em articulação com prestadores de serviços de saúde. É mais um desafio para o Serviço Nacional de Saúde”, explicou a ministra.

Reservando para o decorrer da próxima semana todo o “trabalho de bastidores” essencial a este regresso à normalidade, Marta Temido não quis comprometer-se com um prazo concreto, preferiu antes avisar que o processo terá de ser feito de forma gradual — o que significa que os utentes dos hospitais que não chegaram a receber doentes com Covid-19, por exemplo, deverão começar a receber as suas cartas ou telefonemas a remarcar consultas e cirurgias mais cedo do que os outros.

A acompanhar este regresso à normalidade, estarão ainda uma série de outras medidas, nomeadamente o reforço de equipamentos de proteção individual e da higienização dos espaços; a separação de utentes em salas de espera e a criação de novas linhas de atendimento de doentes, acrescentou ainda a ministra.