Título: A Paixão
Autor: Jeanette Winterson
Editora: Elsinore
Ano da Edição: março de 2020
Páginas: 216
Preço: 16,59€

O romance foi publicado originalmente em 2001, mas só agora chegou a Portugal, pela Elsinore

Nos primeiros anos da década de 1800, Henri, um jovem dos arredores pobres de Paris, alista-se no exército francês. Tal como o resto do país, Henri estava perdido de amores por Napoleão Bonaparte, “o corso, nascido em 1769, de signo Leão”. Com o seu mentor padre, que lhe tinha dito que talvez “Bonaparte fosse o Filho de Deus regressado à Terra”, tinha estudado as suas batalhas e campanhas em vez de história e geografia; com a ajuda de um velho mapa-múndi, tinha olhado “para os sítios onde ele tinha ido” e visto “as fronteiras da França a dilatar-se lentamente” enquanto ele somava conquista atrás de conquista.

Essa paixão só cresceu assim que chegou a Boulogne, de onde é possível ver o outro lado do Canal da Mancha. Henri queria ser tambor, mas a fraqueza das suas mãos fez com que acabasse a trabalhar nas cozinhas e a servir comida ao próprio Napoleão, que não comia outra coisa a não ser frango assado. Bonaparte queria conquistar Inglaterra, mas os seus soldados insistiam em ir viver com as sereias. À medida que o número de mortes aumentava e os soldados afogados eram substituídos por outros soldados que acabavam igualmente no fundo do mar, a paixão cega de Henri pelo imperador a quem os franceses tinham chamado imperador antes de o ser foi-se transformando em ódio e o ódio em obsessão.

A história do inocente Henri, que não matou um único homem durante a guerra mas que perdeu a conta às galinhas que estrangulou, é o fio condutor de uma história maravilhosa sobre o amor que escraviza, a paixão que hipnotiza e sobre alguns dos muitos que se perderam por amor. A Paixão, obra-prima de Jeannette Winterson, foi publicada há praticamente 20 anos, mas chegou há pouco a Portugal, numa edição da Elsinore. Aclamado pela crítica e considerado o romance mais influente desta escritora inglesa, inspirou outros artistas, como o músico e vocalista dos Dire Straits, Mark Knopfler, que o homenageou com o tema “Done With Bonapart”.

Henri fica definitivamente farto de Bonaparte na Rússia. O soldado nunca conheceu a fartura, mas em território russo depara-se com a maior das misérias humanas — a fome e o frio começaram a dizimar lentamente o exército francês, que Bonaparte, bêbedo de glória e cego para a realidade, insiste em fazer marchar atrás dos russos. Com o seu acesso privilegiado às cozinhas, Henri vai-se safando, mas há quem chegue ao ponto de cortar os próprios braços para ter o que comer. Quando menos esperamos, a narrativa dá uma reviravolta, e desdobra-se em múltiplos e labirínticos caminhos, que nos levam até Veneza, cidade de sombras, mística e supersticiosa.

A mudança dá-se perto de Moscovo, onde o exército de Napoleão continua no encalço dos russos. Durante esta viagem, Henri conhece Villanelle, e o espaço que a paixão por Bonaparte deixou no seu coração é preenchido por ela. Villanelle não é uma mulher qualquer — filha de um barqueiro, é capaz de atravessar os canais com a mesma destreza com que caminha pelas ruelas venezianas. Tal como a cidade que a viu nascer, é sempre diferente, nunca igual, umas vez mascarada de rapaz, outras vezes rapariga de cabelo ruivo. A dualidade da sua vida expressa-se também através da forma como ama, indiferente a géneros, formas. Esta mutabilidade contrasta fortemente com a firmeza e constância do exército, enquanto a sua sexualidade livre e desimpedida pouco tem a ver com a de Henri, personagem de caráter religioso, quase pio. Afinal, o amor pode ter as mais diversas formas, e o que Henri e Villanelle tem um pelo outro não podia ser mais diferente — ela ama-o como um irmão, ele quere-la para sua mulher.

Todas as grandes histórias de amor de A Paixão acabam mal — a de Henri por Napoleão, a de Villanelle pela Rainha de Copas —, mas todas servem o mesmo princípio — o de precipitar uma descoberta íntima que, de outra maneira, não podia ser feita. Não deixa de ser significativo que esse encontro das personagens com elas próprias se dê na cidade onde tudo é possível, numa realidade encantada de histórias implausíveis que Winterson cria com grande mestria. Veneza, com as suas máscaras, oferece a oportunidade de se ser quem é, de dar asas às mais secretas fantasias, de jogar alto, com a vida e a morte, e perder tudo, até mesmo o coração.

“O amor, dizem, escraviza”, reflete Henri, perdido dentro dele próprio, anos depois. “A paixão é um demónio e muitos se perderam por amor. Eu seu que isso é verdade, mas também sei que, sem amor, andamos às cegas no túnel das nossas vidas e nunca vemos o Sol. Quando me apaixonei, foi como se olhasse para um espelho pela primeira vez e me visse a mim próprio. Ergui a mão, num assombro, e toquei nas minhas bochechas, no pescoço. E depois de ter olhado para mim próprio e de me ter acostumado a quem eu era, já não tinha receio de detestar algumas partes de mim, pois queria ser digno do portador daquele espelho.”

Em A Paixão, encontramos temas que são caros a Winterson — o amor, as questões de género e a complexidade do ser humano, sempre diferente, nunca igual —, tratados também no seu último romance, Frankissstein, que esteve nomeado para o Booker Prize no ano passado (mas que não passou à shortlist). Este conta a história de amor entre um médio transgénero e um misterioso investigador, que termina tão mal quanto a vida amorosa da própria Mary Shelley, autora de Frankenstein, que serve de pano de fundo ao enredo principal. O problema talvez seja o mesmo que levou França e o mundo a entrarem em guerra durante o tempo de Napoleão: “Se tivéssemos a coragem de amar, não daríamos assim tanto valor aos atos de guerra”.

A guerra, tal como o amor, deixa as suas marcas, muitas vezes demasiado profundas. Se muitos se perderam por amor, como diz Henri, também muitos perderam o rumo depois de a batalha terminar. A história do soldado filho de agricultores dos arredores de Paris é a metáfora perfeita disso mesmo. No amor como na guerra, há cicatrizes que são incapazes de sarar. É isso que Winterson nos diz na sua obra-prima, onde realidade e fantasia se misturam criando uma cenário intrincado onde tudo é possível e nada é proibido.