14h30 em Portugal, 15h30 na Alemanha, cinco jogos a começar ao mesmo tempo. Este sábado, mais de dois meses depois da paragem forçada, da interrupção obrigatória, o futebol estava de regresso. A liga alemã tornou-se a primeira das cinco principais na Europa a voltar e este sábado, numa altura em que as contas para o campeão, para as competições europeias, para as subidas e as descidas já deviam estar quase decididas, meio mundo tinha os olhos na Alemanha.

Não só porque o futebol está de volta, não só para ver um jogo cujo resultado ainda não conhecemos e que é mais do que uma repetição, mas também para aprender. Para aprender com o que é bem feito e com aquilo que corre bem e também para aprender com os eventuais erros que poderão ser evitados nos restantes países. Depois de algumas semanas de preparação, do isolamento em hotéis para evitar qualquer contacto com o exterior, de um primeiro adiamento de Angela Merkel quando os números no país subiram dias depois do desconfinamento, a Bundesliga voltava com dezenas de medidas e como verdadeira prova de fogo.

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Afinal, e depois de tudo o que aconteceu, a maioria dos países atua com base no exemplo — não necessariamente no exemplo positivo mas no negativo. Nos últimos dois meses, a resposta portuguesa à pandemia foi diversas vezes associada à tardia resposta de países como Itália ou Espanha, quase como se Portugal tivesse aprendido com os erros dos outros. Este sábado, no meio de toda a incerteza, existia uma garantia: se nas próximas semanas algo correr mal na Bundesliga, as restantes ligas europeias, incluindo a portuguesa, serão obrigadas a repensar estratégias, medidas e planos de ação. Até porque segundo Kroos, alemão do Real Madrid, se as coisas correrem mal na Alemanha, não vão correr bem em lado nenhum.

“A impressão que tenho é esta: se os alemães falharem, ninguém irá conseguir. Se eles não conseguirem acabar a Bundesliga, então quem irá conseguir?”, questionou o médio, sublinhando as discrepâncias nos números de casos e vítimas mortais na Alemanha e em países como Espanha e Itália.

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Mas independentemente dos receios, do aviso de Kroos, das centenas de medidas de segurança, o futebol estava mesmo de volta. E voltava logo com uma das rivalidades mais acesas da Bundesliga, entre o Borussia Dortmund e o Schalke 04, num dos estádios onde as bancadas vazias parecem ser uma cena de um filme de ficção científica. Este sábado, no Signal Iduna Park, a Yellow Wall estava despida, não existiam gigantescas faixas de apoio ao Dortmund, não apareciam fumos amarelos e o apoio vinha apenas dos bancos de suplentes.

Na altura da interrupção, o Borussia era segundo classificado com menos quatro pontos do que o Bayern e o Schalke era sexto e a primeira equipa depois dos cinco primeiros que ainda lutam ativamente pela conquista do campeonato. Sem os lesionados Witsel, Reus e Emre Can, Lucien Favre deixava de fora do onze inicial o inglês Jadon Sancho e lançava Haaland a titular no ataque — assim como o português Raphaël Guerreiro, que jogava de início na faixa esquerda. Gio Reyna, o jovem norte-americano, foi inicialmente introduzido no onze mas acabou por sair das escolhas do treinador depois do aquecimento, provavelmente devido a uma lesão, e substituído por Thorgan Hazard.

A primeira parte, onde o Borussia Dortmund foi sempre superior — com mais bola, mais discernimento, mais perigo –, mostrou claramente quais serão os principais problemas desde reinício do futebol. Parados há dois meses, a treinar apenas em casa e com pouco ritmo de treino de conjunto, os jogadores estão fora de forma, a precisar de uma nova pré-época e sem resistência para 90 minutos ao mais alto nível. Se o Borussia se tentou resguardar da fadiga com mais bola, a recolher a posse durante largos minutos até encontrar linhas de passe sem obrigar a grandes picos de velocidade, o Schalke viu-se obrigado a atuar muitas vezes em contra-ataque e não teve forças para recuperar terreno na hora de recuar.

Ainda assim, eram notórias as diferenças de forma física entre uma e outra equipa: Hakimi só precisava de dois ou três passos para deixar Todibo e Nastasic para trás, superiorizando-se com frequência no lado direito, e o Borussia conseguia chegar à área contrária em praticamente todas as investidas que fazia. Haaland teve a primeira oportunidade depois dos primeiros 20 minutos, ao rematar à malha lateral na sequência de um cruzamento (24′), e só precisou de mais cinco minutos para abrir o marcador e confirmar que nem uma pandemia interrompe a temporada inacreditável que está a realizar. Jogada pela direita, o lado por onde a equipa de Dortmund mais desequilibrou no primeiro tempo, Brandt tocou de calcanhar para Hazard e o belga cruzou tenso para a zona da pequena área. De primeira, com um ligeiro toque de pé esquerdo, Haaland enganou o guarda-redes do Schalke e colocou o Borussia a ganhar (29′).

Depois de uma celebração com distanciamento social, sem abraços, sem ajuntamentos e sem os habituais cumprimentos entre jogadores, Raphaël Guerreiro esteve perto de aumentar a vantagem com um remate de fora de área depois de um arranque impressionante de Hakimi na direita (35′). Ainda assim, e tal como Haaland, o internacional português também só precisou de uma segunda ocasião para inscrever o próprio nome na ficha de jogo. Depois de um erro do guarda-redes do Schalke, com um pontapé demasiado curto, Brandt isolou Guerreiro com um passe vertical na esquerda e o português aumentou a vantagem com um remate cruzado mesmo em cima do intervalo (45′).

Ao intervalo, o Borussia Dortmund ganhava tranquilamente e ganhava em todos os índices — no resultado, na frescura física e na inteligência de saber esperar com bola para não gastar energia de forma desnecessária. Do outro lado, Todibo parecia ser a primeira baixa no Schalke, depois de ficar lesionado ao tentar acompanhar Hakimi num sprint, e o treinador David Wagner começava a segunda parte logo com uma dupla substituição, lançando Matondo e Bugstaller e tornando a equipa significativamente mais ofensiva. De recordar que, neste reinício do futebol, as equipas estão autorizadas a realizar cinco substituições mas apenas em três paragens.

No regresso para o segundo tempo, o Schalke voltou com as linhas mais adiantadas e dominou durante os primeiros instantes, adivinhando-se durante esse período uma resposta à vantagem do Dortmund. A eficácia da equipa de Lucien Favre, porém, ficou novamente provada num contra-ataque letal que depressa acabou com as esperanças do Schalke: Haaland foi travado em falta mas conseguiu saltar para Brandt, que assistiu Hazard para um remate forte onde o guarda-redes Schubert não ficou isento de culpas (48′). Julian Brandt, com duas assistências e intervenções nas três jogadas que deram golo, era claramente o elemento em destaque no Borussia Dortmund e o grande pêndulo entre ataque e meio-campo que deixava os pouco preparados defesas do Schalke sem grandes ferramentas para parar as investidas.

O Schalke teve sempre mais bola na segunda parte, até porque o Borussia Dortmund recuou no relvado para poupar esforços e construiu uma autêntica muralha à frente da baliza de Burki. Numa altura em que a partida caía a pique no que toca à intensidade e velocidade, Raphaël Guerreiro aproveitou um novo contra-ataque para bisar e tornar-se o verdadeiro protagonista deste regresso da Bundesliga. O internacional português combinou com Haaland e recebeu isolado na cara de Schubert, finalizando com uma trivela que até deixou o próprio jogador surpreendido (63′).

Até ao fim, com os jogadores já visivelmente fatigados e com um cansaço acima do normal para aquilo que são as principais ligas europeias, o Schalke não conseguiu voltar a aproximar-se com perigo da baliza de Burki e o Borussia Dortmund focou-se principalmente na tarefa de não sofrer golos e deixou de dar primazia ao setor ofensivo. O último quarto de hora ainda recebeu uma injeção de energia, não só pelas várias substituições do Schalke como pelas entradas dos virtuosos Balerdi e Jadon Sancho no Dortmund, mas as alterações já não tiveram qualquer impacto no resultado final.

Dois meses de paragem depois, o Borussia Dortmund voltou com uma goleada frente a um dos principais rivais e prolongou a melhor fase da temporada que vinha a atravessar antes da interrupção, somando a quinta vitória consecutiva na Bundesliga. A equipa de Lucien Favre pressiona assim o Bayern Munique, que só joga este domingo e com apenas um ponto de vantagem, e para isso contou principalmente com um maestro surpreendente: Raphaël Guerreiro.