Olhava para cima, gesticulava para baixo, falava sozinho para o lado. Num encontro importante para a Liga saudita frente a um Neom que continua a crescer para um patamar pouco abaixo dos vários candidatos ao título, Cristiano Ronaldo foi tentando de tudo para chegar ao golo e empurrar o Al Nassr para a vitória. Foi de penálti, que saiu ao lado ainda na primeira parte. Foi sozinho na pequena área a ter apenas de encostar, com a bola a sair por cima. Foi num passe que podia isolar um companheiro, que ficou nos pés de um defesa contrário. Foi em mais uma tentativa de remate em boa posição, que saiu ao lado. O avançado português teve um dos jogos mais desinspirados das últimas semanas mas outro avançado português, que se posiciona com o passar dos encontros como o MVP da competição, acabou por resolver a partida: João Félix.

Falhou a baliza num penálti, desviou por cima na pequena área, falhou isolado: Félix voltou a disfarçar outra noite para esquecer de CR7

Com um único golo a meia hora do final, o jogador formado no Benfica, que leva cinco golos e com mais quatro assistências em 11 jogos oficiais, conseguiu decidir a partida e dar mais três pontos ao Al Nassr, que somou o terceiro triunfo e ascendeu à terceira posição com 22 pontos, menos dois do que o Al Hilal e menos três do que o Al Qadisiyah, tendo ainda o Al-Ittihad (20) e o Al Ahli (18) por perto. Os lugares cimeiros da Liga saudita estavam mais “embrulhados” do que nunca, com a regularidade a surgir como fator essencial na corrida ao título. Foi isso que motivou mais críticas ao novo técnico da equipa de Riade, Ange Postecoglou.

Mais uma vez, o técnico australiano foi criticado nos programas televisivos sauditas, não apenas pela fase que o Al Nassr atravessava em campo mas também, ou sobretudo, pela diferença da qualidade do futebol em comparação com o que acontecia na última época com Jorge Jesus. “Para mim, o mais importante é que Postecoglou seja brilhante como treinador mas ele não é. Alguns elogiam os discursos que ele faz aos jogadores no vestiário mas, se eu falasse no lugar dele, as minhas palavras seriam melhores. E, como já disse, para mim o treinador é, em primeiro lugar, tática e questões técnicas”, disse Turki Al-Ajma, no programa “Al-Manassa”, um dos mais seguidos do país. Com mais ou menos razão, a “pressão” de resultados continuava.

Era também aqui que Ronaldo teria uma palavra a dizer, na sequência do início de temporada mais modesto pelo Al Nassr com cinco golos em dez jogos (abaixo da média que foi conseguindo desde que chegou à Arábia Saudita). E havia uma nova celebração preparada para o caso de voltar aos golos, num gesto com a mão que foi partilhado pelas redes sociais do clube de Riade sem mais explicações. Estava pronta, acabou por ser feita com o 982.º golo da carreira e permitiu a quarta vitória consecutiva do Al Nassr após a paragem.

Era importante entrar bem no encontro para tentar fechar cedo as contas, a grande novidade no onze deu o mote para isso: na sequência de uma saída rápida, Abdullah Al-Hamdan recebeu de Sadio Mané com um movimento de Cristiano Ronaldo a deixar passar a bola e atirou forte ainda de fora da área para o 1-0 sem hipóteses para Fernando Pacheco, que tivera também antes um passe precipitado na construção do Al Faisaly (4′). No entanto, e apesar desse golpe inicial que poderia ter condicionado ainda mais a equipa visitada, foi preciso esperar até à meia hora para haver uma nova oportunidade de golo, com Ronaldo a receber descaído sobre a esquerda, a arriscar o remate com pouco ângulo e a acertar no poste (32′). Estava dado o “aviso”.

Logo no arranque do segundo tempo, o avançado português quebrou essa “maldição” que o perseguia nos últimos encontros e fez mesmo o 2-0, desviando de cabeça um livre lateral batido por João Félix com a bola a bater ainda no poste antes de entrar (49′). Ronaldo fez a celebração que se encontra ainda por desvendar no 982.º golo da carreira e ainda celebrou logo no minuto seguinte o 983.º, que acabou adiado por fora de jogo de Al-Hamdan no início da jogada. O Al Nassr tinha o jogo controlado mas a entrada de Theo Bongonda em campo trouxe outra versão do Al Faisaly, que reduziu a desvantagem com um golo do congolês que reabriu a partida a meio da segunda parte (66′). Voltava a dúvida sobre uma possível surpresa mas também Postecoglou soube mexer na equipa, com Ângelo a render Samu Costa e a marcar o 3-1 final (79′).

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]