No dia 27 de junho, ainda sem hora marcada, André Ventura, deputado único do Chega, quer descer a Avenida da Liberdade, passar pela Baixa de Lisboa, e seguir caminho até ao Palácio de Belém, a residência oficial do Presidente da República, a segurar uma faixa onde se vai ler “Portugal Não é Racista” ou “Minorias com Direitos e Deveres”. A acompanhá-lo, antecipa, vão estar “milhares de portugueses”. Se isso não acontecer, se o partido não mobilizar tantas pessoas, o líder do Chega diz-se preparado para “assumir os riscos políticos”.

A manifestação, que ainda não foi autorizada pelo Ministério da Administração Interna, pretende reunir militantes do Chega de todo o país, que vão poder contar com o apoio logístico do partido para as deslocações, elementos das forças de segurança – como seja, o Movimento Zero, próximo da estrutura partidária – e uma “maioria silenciosa” de eleitores que, segundo André Ventura, podem ser do CDS, PSD, IL ou até PCP. Provocações à parte, Ventura assegura que tudo será feito de acordo com as recomendações da Direção-Geral de Saúde, no âmbito da pandemia de Covid-19.

O objetivo político é mostrar que “a rua não é só da esquerda ou dos movimentos sindicais”. André Ventura diz ainda que a manifestação pretende dar voz aos que acham que em Portugal “não há uma cultura racista” e assume as comparações em termos de mobilização com a manifestação contra o racismo, Black Lives Matter, de 6 de junho. O que não significa, garante, que o desfile vá “promover o racismo”. A linha é ténue, mas André Ventura recentra o discurso nos temas “transversais” à sociedade (e omnipresentes na cartilha do partido), como seja a “defesa das forças de segurança” ou os “deveres” das minorias que “exigem direitos”, referindo-se, novamente, ao caso da etnia cigana.

“As últimas cerimónias ou momentos festivos a que assistimos, indignaram as pessoas. Sabemos que isso é verdade porque fizemos o nosso trabalho de casa antes de convocar esta marcha. Estou convicto de que vamos fazer um ponto de viragem na história das manifestações de direita”, diz Ventura.

O deputado, que já foi acusado de racismo e que tem sido associado à extrema direita, assume que o ambiente na rua será tenso e até admite estarem reunidas as condições para um possível “confronto” com forças da esquerda radical ou de movimentos anti-racismo – durante a manifestação Black Lives Matter, foi pendurado um cartaz onde o deputado surge com uma caricatura, de bigode, e apelidado de fascista. Ventura fala de um “perigo real”, mas chuta as responsabilidades para a PSP, que tem de “garantir a segurança dos participantes”. “Não vamos mostrar que temos medo da rua”, diz.

A tensão também se sente no interior do Chega. André Ventura garante que o partido vai controlar infiltrações de grupos “pouco recomendáveis”, ligados à extrema direita tradicional e diz que não é essa a imagem que quer passar para a comunicação social, como já aconteceu no passado, quando um militante do Chega, num jantar do partido, foi apanhado por um vídeo a fazer a saudação nazi, durante o hino nacional.

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