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Uma equipa que não tem pés nem cabeça mas tem uma Crysan que não desaparece (a crónica do Benfica-Santa Clara) /premium

O Benfica esteve a perder, deu a volta e parecia ter tudo controlado. Rúben Dias fez penálti, Ferro ofereceu um golo e a crise da equipa não tem pés nem cabeça parece não acabar.

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Ferro esteve associado ao golo que deu a vitória ao Santa Clara

EPA

Ferro esteve associado ao golo que deu a vitória ao Santa Clara

EPA

O futebol, incluído no desporto de uma forma geral, foi uma das primeiras áreas de intervenção em que a teoria de mind over body, de a mente controlar o corpo, foi adotada. Há décadas que o aspeto psicológico, a preparação mental e superioridade de uns em relação a outros nestes parâmetros são estudados e interpretados, tornando-se também um tópico importante na hora do treino. Há muito que ouvimos falar em mind games, em bluff, em pressão acrescida e em espiral descendente — ainda que a preocupação com a saúde mental, essencial e consequência para tudo isto, só recentemente tenha requerido atenção. Mind over body, no futebol, não é uma novidade. Mas nunca como agora se falou do aspeto psicológico dos jogos e das competições.

Depois de quase três meses de paragem competitiva, era um dado adquirido que os jogadores iriam voltar abaixo da intensidade exigida, abaixo do ritmo habitual e com maior tendência para lesões musculares. Tudo isto se confirmou nas primeiras semanas de Bundesliga, a primeira grande liga europeia a voltar, e tudo isto se repetiu em Portugal, quando a Primeira Liga voltou. Entre as inevitáveis lesões, e mais do que o cansaço nas pernas ou a falta de resistência, os erros mais recorrentes nas equipas são posicionais, táticos e técnicos, são passes mal feitos e jogadores fora do sítio. A concentração não é a mesma, mesmo que o físico não tenha sido assim tão afetado, e a ansiedade e a falta de discernimento acumuladas em jogos que não correm bem está claramente exacerbada.

Ficha de jogo

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Benfica-Santa Clara, 3-4

28.ª jornada da Primeira Liga

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: João Pinheiro (AF Braga)

Benfica: Vlachodimos, André Almeida, Rúben Dias, Ferro, Nuno Tavares, Taarabt (Cervi, 86′), Weigl, Gabriel (Zivkovic, 45′), Pizzi (Dyego Sousa, 86′), Seferovic (Vinícius, 45′), Rafa

Suplentes não utilizados: Zlobin, Chiquinho, Samaris, Jota, Tomás Tavares

Treinador: Bruno Lage

Santa Clara: Marco, Rafael Ramos, João Afonso, Fábio Cardoso, Zaidu, Francisco Ramos, Anderson (Nené, 53′), Rashid (Zé Manuel, 68′), Costinha (Salomão, 75′), Thiago Santana (Crysan, 68′), Carlos Júnior (Candé, 53′)

Suplentes não utilizados: Rodolfo, César, João Lucas, Sagna

Treinador: João Henriques

Golos: Anderson Carvalho (44′), Rafa (50′), Zaidu (57′), Vinícius (63′ e 65′), Crysan (gp, 81′), Zé Manuel (90+5′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Anderson Carvalho (17′), a Gabriel (31′), a Rúben Dias (81′)

Tudo isto, e a importância do mind over body, tem sido extraordinariamente mencionado — ainda que nem sempre de propósito ou nem sempre com essa intenção — para explicar o atual momento de Benfica e FC Porto. Os resultados menos positivos, as escorregadelas e os deslizes de um e de outro têm sido interpretados principalmente como falhas de caráter psicológico, como a ausência de uma mentalidade vencedora ou o conformismo, do que como problemas do foro físico, sempre mais compreensíveis devido ao contexto da época atual. E por tudo isto e por mais algumas coisas que, na semana passada e quando o Benfica venceu o Rio Ave em Vila do Conde, a primeira vitória dos encarnados nesta retoma significou bem mais do que três pontos conquistados: significou um pontapé nos empates anteriores, o agarrar da oportunidade de ser novamente primeiro depois de o FC Porto ter empatado e a possível entrada numa fase de maior tranquilidade e vontade de ganhar.

Para confirmar estas três premissas e entrar no segundo capítulo, porém, era necessária a continuidade. Uma continuidade que era colocada à prova esta terça-feira, no regresso do Benfica à Luz depois de dois jogos seguidos fora de casa, contra o Santa Clara. Com o FC Porto a defrontar o Boavista apenas horas depois, uma vitória encarnada significava uma vantagem provisória de três pontos na liderança e a imposição de uma pressão acrescida — o tal ponto fulcral no futebol desta fase final da temporada 2019/20 — nos ombros dos dragões. Uma nova escorregadela, contudo, era o retrocesso rumo à fase anterior às três premissas angariadas em Vila do Conde.

Bruno Lage tinha André Almeida de volta às opções, depois de o lateral direito ter cumprido castigo contra o Rio Ave, e continuava sem Jardel e Grimaldo — sendo que o lateral esquerdo deve mesmo falhar o resto da temporada depois de se ter lesionado em Portimão. De forma natural e tal como aconteceu na última jornada, Ferro era titular no eixo defensivo, ao lado de Rúben Dias, e o jovem Nuno Tavares voltava a ocupar o corredor esquerdo da defesa. A surpresa, que para quem viu com atenção o jogo de Vila do Conde não foi assim tão grande, era a titularidade de Seferovic, que depois de ter marcado o golo do empate contra o Rio Ave voltava ao onze inicial 11 encontros depois e atirava tanto Vinícius como Dyego Sousa para o banco.

Do outro lado, estava um Santa Clara desprovido de uma das suas grandes figuras, o médio Lincoln, de fora por castigo, mas com pouco a perder. A meio da tabela, com uma posição mais do que confortável relativamente à manutenção, os açorianos mostraram logo nos primeiros instantes que tinham a intenção de discutir o resultado, posicionando a equipa muito adiantada no terreno e a aplicar uma pressão alta à primeira fase de construção encarnada. Os 15 minutos iniciais foram discutidos principalmente na zona do meio-campo, já que o Benfica privilegiava sempre a faixa central para atacar e o Santa Clara povoava muito esse setor, para criar uma barreira ao adversário. Ainda assim, era a equipa de João Henriques que ia criando mais perigo, com Vlachodimos a fechar o primeiro quarto de hora da partida com duas defesas — não fez nenhuma contra o Rio Ave, ainda que tenha sofrido um golo –, incluindo uma importantíssima que evitou o golo quase certo de Carlos Júnior (13′).

A primeira oportunidade do Benfica surgiu por intermédio de Nuno Tavares, com um remate ao lado depois de um mau alívio da defesa do Santa Clara (15′), e o jovem lateral esquerdo ia tendo um protagonismo semelhante ao que teve contra o Rio Ave. Como aconteceu em Vila do Conde, os encarnados estavam muito tombados para o lado esquerdo — e se na semana passada esse dado podia ser explicado pelo facto de estar Tomás Tavares na direita da defesa e não André Almeida, que tem uma dinâmica muito mais oleada com Pizzi naquele corredor, esta terça-feira esse fator só era justificado pela escassa presença do capitão em espaços mais interiores. Pizzi estava permanentemente encostado à ala, sem oferecer linhas de passe e sem procurar bola, e tanto Gabriel como Taarabt optavam quase sempre por variar os lances para a esquerda, para Nuno Tavares e para Rafa, sendo que o avançado aparecia mais por dentro e o lateral explorava a profundidade e os cruzamentos.

Ultrapassada a fase de maior intensidade do Santa Clara, o Benfica esteve perto de inaugurar o marcador em três ocasiões, com Marco a manter sempre o nulo no marcador: Weigl bateu um livre de forma direta e viu o guarda-redes defender (18′), Nuno Tavares também rematou na recarga e Marcou voltou a afastar e alguns minutos depois, depois de ser isolado de forma brilhante por Taarabt, Rafa também permitiu a defesa do guardião dos açorianos (39′). Os encarnados tiveram a fase de maior posse de bola já nos últimos minutos da primeira parte, mas a circulação lenta e a ausência de ideias — muito agudizada pela falta de intervenção de Pizzi e pelo total desaparecimento de Rafa — secava a maioria dos lances do Benfica, até porque o Santa Clara interrompia rapidamente os caminhos para a baliza, com duas linhas paralelas, assim que a equipa de Bruno Lage precisava de recuar para construir.

Cientes de que o Benfica não estava a alcançar os objetivos, os açorianos não deixavam de estar bem abertos no terreno e exploravam principalmente a intervenção ofensiva dos laterais, Zaidu e Rafael Ramos. Numa altura em que tanto Bruno Lage como João Henriques já pensavam no intervalo, um erro de Nuno Tavares deu origem ao primeiro golo do jogo: depois de um canto batido para a grande área de Vlachodimos e de um alívio da defesa encarnada, o lateral procurou sair a jogar com a bola controlada e foi desarmado por Anderson Carvalho, que rematou à saída do guarda-redes e abriu o marcador na Luz (44′). Na ida para o intervalo, para além da escassez de criatividade e dos processos muito lentos do Benfica, saltava à vista um dado específico — o Santa Clara terminava a primeira parte com cinco cantos conquistados no terreno dos encarnados, enquanto que a equipa da casa não tinha ainda beneficiado de qualquer bola parada deste tipo.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Benfica-Santa Clara:]

Ao intervalo, Bruno Lage fez duas alterações na equipa para ir à procura da reviravolta. Trocou Seferovic por Carlos Vinícius e tirou Gabriel para colocar Zivkovic, que se estreou na Liga esta temporada e voltou a jogar mais de seis meses depois, já que a última vez que tinha sido lançado tinha sido em dezembro, contra o Sp. Covilhã e para a Taça da Liga. Zivkovic foi para a direita, Pizzi trocou de lado e foi para a esquerda e Rafa passou a aparecer nas costas de Vinícius, onde é normalmente mais criativo, com Taarabt a recuar para o espaço que tinha sido de Gabriel na primeira parte. A entrada do Benfica foi positiva, com uma intensidade que não se tinha visto até ao intervalo, e teve frutos logo nos instantes iniciais da segunda parte.

Numa jogada construída na direita por Zivkovic, Taarabt e André Almeida, o lateral português descobriu Rafa na grande área, que dominou, evitou dois adversários e empatou a partida (50′). João Henriques reagiu ao golo sofrido com duas substituições, lançando Nené e Mamadu Candé, e a verdade é que os açorianos depressa chegaram novamente à vantagem — e por intermédio de um canto, o lance que estavam a conquistar vezes sem conta junto da baliza de Vlachodimos. Bola batida na direita e Zaidu, entre Rúben Dias e Weigl, cabeceou para fazer o segundo do Santa Clara (57′). Mas a segunda parte estava interessante, ainda que sem enorme qualidade técnica e tática, e Carlos Vinícius só precisou de cabecear uma vez por cima da trave (61′) para ensaiar para a performance que ia repetir nos minutos seguintes.

Em apenas dois minutos, o avançado brasileiro fez dois golos, ambos de cabeça, e colocou o Benfica a ganhar pela primeira vez na partida. Primeiro foi na sequência de um canto batido na esquerda por Pizzi, ao aparecer entre três jogadores do Santa Clara para cabecear (63′), e logo de seguida foi depois de um cruzamento de André Almeida na direita (65′), num lance onde fica na retina o livre marcado de forma muito veloz por Taarabt. Depois de seis jornadas sem marcar, Vinícius voltou aos golos, chegou aos 17 nesta edição da Liga, bisou e parecia ter desatado um nó que estava muito complicado para o Benfica.

Em vantagem, Bruno Lage optou por não mexer na equipa, o ritmo caiu a pique e o Benfica procurou controlar o resultado sem ir em busca de mais um golo que desse mais tranquilidade — como tem feito recorrentemente, sempre sem grande sucesso. A menos de 10 minutos do apito final, Rúben Dias cometeu uma grande penalidade por mão na bola, num lance em que João Pinheiro recorreu às imagens do VAR, e o recém-entrado Crysan converteu o penálti para voltar a empatar a partida (81′). O treinador encarnado reagiu ao tirar Pizzi e Taarabt para lançar Cervi e Dyego Sousa, à procura de mais presença na área, mas acabou por tirar músculo ao meio-campo e perder toda a capacidade de reter a posse de bola. Os açorianos controlaram por completo os seis minutos de descontos e acabaram por chegar ao golo da vitória por intermédio de Zé Manuel, também lançado por João Henriques já na segunda parte, na sequência de um erro de Ferro à entrada da grande área (90+5′).

Num jogo onde foi para o intervalo a perder mas acabou por conseguir dar a volta a meio da segunda parte, o Benfica desperdiçou uma vitória nos últimos 15 minutos da partida e colocou-se à mercê de cair para o segundo lugar e ficar com três pontos de desvantagem para o FC Porto. O Benfica tem pouca qualidade de jogo, e os exemplos paradigmáticos disso são Pizzi e Rafa; tem pouca cabeça, cometendo erros táticos e posicionais sem conseguir segurar uma vantagem dentro de portas; mas tem principalmente uma crise que parece não terminar e que acumula desaires. Desta vez, depois dos empates nas duas primeiras jornadas da retoma, o Benfica perdeu mesmo. E numa altura em que o mind over body é mais importante do que nunca, perder em casa com o Santa Clara num jogo em que chegou a estar a ganhar depois de uma reviravolta pode ter um efeito de desmotivação generalizada na equipa de Bruno Lage.

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