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Já passaram quase sete anos mas aquele Brasiuuuuuuuu dos jornalistas portugueses que faziam o relato do jogo em Solna ainda ecoa sempre que se vê as imagens da vitória da Seleção em Solna, a 19 de novembro de 2013. Só havia uma vaga no playoff para o Campeonato do Mundo do ano seguinte entre Portugal e Suécia mas existiu uma certa tendência para bipolarizar a luta entre Cristiano Ronaldo e Zlatan Ibrahimovic, à data o avançado que mais se juntava ao então jogador do Real Madrid e a Lionel Messi no pódio dos melhores avançados do futebol. O capitão nacional aceitou o desafio e se o sueco marcou por duas vezes, o número 7 só acabou no hat-trick, desmistificando a perceção errada que se parecia criar de que tinha um rendimento no clube e outro na Seleção.

Portugal vence Suécia com bis de Ronaldo e lidera grupo da Liga das Nações a par da França

Esse foi um ano que marcou a viragem da produção em golos (não ofensiva, que se revelou constante) de Ronaldo por Portugal. Até esse ano de 2013, e em 100 internacionalizações desde 2003 quando se transferiu do Sporting para o Manchester United, tinha marcado 45 golos; de 2013 para a frente, fez 54 em apenas 64 partidas. Mais: esse ano de 2013 foi o primeiro em que o capitão da Seleção terminou um ano civil com uma média de golos superior a um golo por jogo (dez em nove), algo que aconteceria apenas mais uma vez e no último ano de 2019, com 14 golos em dez encontros, havendo médias “certas” em 2016 (13 em 13) e 2017 (11 em 11). Quanto mais velho, melhor. E com dois grandes triunfos pelo meio no Campeonato da Europa de 2016 e na Liga das Nações de 2019.

Parte desse sucesso pode ser explicado com aquilo que se passou sábado, no Dragão. Na bancada, ainda com dores provocadas pela infeção no pé direito, as câmaras do Esporte Interativo estiveram sempre apontadas ao avançado, apanhando episódios mais insólitos como a chamada de atenção de uma responsável da UEFA para colocar a máscara. No entanto, e numa outra imagem que passou mais ao lado, quando acabou o encontro Ronaldo desceu ao relvado já equipado e esteve a fazer alguns sprints já a preparar a possibilidade de jogar em Solna, numa Friends Arena que lhe diz muito. É também por esses exemplos que Fernando Santos faz sempre questão de falar daquele que é “o melhor do mundo”: “Se me apresentar condições ao nível dos colegas, a probabilidade de jogar é grande. Se não, não pode entrar nas contas. É sempre imprevisível. Aquilo que sabemos é que a infeção está praticamente debelada, não há resquícios. Se se sentir bem e apto, a probabilidade de jogar é forte”.

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Recuperou mesmo e fez parte da equipa inicial frente aos escandinavos, depois de uma exibição de encher o olho a abrir a Liga das Nações que terminou com goleada por 4-1 frente à Croácia. “Nenhuma equipa pode ser melhor quando o melhor do mundo não está. O que sei é que esta equipa, mesmo quando não pode contar com o Ronaldo, continua a ser uma grande equipa e com capacidade para lutar pela vitória em todos os jogos”, defendeu antes do jogo o selecionador nacional, que se mostrou despreocupado com o momento da temporada (ou ainda de pré-temporada para a maioria) que se vive e com a capacidade de recuperação dos jogadores.

“Os jogadores têm níveis de recuperação diferentes. Alguns jogam três ou quatro seguidos e estão bem, outros já não conseguem ao fim do terceiro. Vamos tentar aferir isso no treino, vamos falar com os jogadores que têm uma palavra importante. Vamos analisar, ver como se sentem e vamos olhar para a cara deles. Às vezes a cara deles mostra coisas que não conseguimos perceber de outra forma. Tenho um grupo em quem confio em absoluto. Aqui há uma enorme lealdade, quem não estiver bem vai dizer porque não tem medo de fazer isso”, frisou na antecâmara da partida, antes de um treino de adaptação onde se sentiu uma temperatura diferente do calor que se tem vivido em Portugal. Aliás, foi por causa da chuva e das baixas temperaturas que a comitiva nacional decidiu cancelar o habitual passeio de manhã pelas imediações do hotel onde a equipa pernoitou.

O grupo deu boas indicações e Fernando Santos promoveu apenas a entrada de Ronaldo para o lugar de Diogo Jota, mantendo ainda Anthony Lopes na baliza da Seleção em vez de Rui Patrício. A equipa era quase a mesma, as características do encontro mudaram de forma radical: num misto de estratégia e mérito do poderio físico dos suecos, Portugal teve menos bola do que contra a Croácia, nunca pressionou tão alto e em vez de ir à procura do golo deixou quase que o golo viesse ao seu encontro. Aliás, no primeiro quarto de hora, houve três situações com “buracos” enormes para transições rápidas como aquelas que valeram os três golos a Ronaldo em 2013 mas essas saídas acabaram por não ter os passes e as movimentações certas na hora exata para surpreender os escandinavos. Estava ligado o “modo Santos” na Seleção: pode nem sempre ganhar mas dificilmente irá perder.

E aqui, uma nota. Essa forma de atuar mais cautelosa, na tentativa de perceber o que pode dar o jogo, não tem de ser algo negativo. Aliás, é uma marca positiva. Porque enquanto isso acontece, a baliza está salvaguardada e não há grandes hipóteses para desfazer o empate. Depois, descoberta a chave para abrir a defesa contrária, é uma questão de perceber o caminho para o golo e acaba quase sempre por surgir, sobretudo para a equipa que conta com Ronaldo do seu lado. Já depois de um lance em que Danilo e Pepe ficaram próximos de desviar com sucesso um cruzamento da direita, e de Bernardo Silva ter dado o lugar a Gonçalo Guedes, o avançado teve uma primeira bola de perigo na sequência de um canto onde apareceu ao primeiro poste para desviar e encontrar Olsen pela frente (25′, com a curiosidade de antes dizer a Bruno Fernandes “Olha para mim” a antecipar o movimento) e atirou mesmo à trave após uma bola em profundidade que o guarda-redes desviou ainda com o pé (40′).

Olsson, numa segunda bola após canto, ainda teve uma tentativa para defesa fácil de Anthony Lopes (37′), depois da ameaça de Berg logo a abrir de cabeça mas ao lado (2′). A fluidez do jogo ofensivo dos laterais era bem menor em comparação com o jogo da Croácia, por mais do que uma vez Fernando Santos foi avisando a equipa que não estava a haver meio-campo e as próprias movimentações na frente não estavam afinadas como na estreia na Liga das Nações mas mesmo um Portugal mais calculista chegava para anular a Suécia que, em poucos mais de dois minutos ainda antes do intervalo, deitou tudo a perder em dois erros: 1) Svensson, que já tinha amarelo, teve uma entrada imprudente sobre Moutinho e viu o segundo amarelo; 2) a falta foi ao jeito de Ronaldo, ainda para mais ligeiramente descaída na esquerda. O capitão agarrou na bola, tirou as medidas à baliza e colocou no ângulo, mais em jeito do que em força. O 100.º golo foi aquele que só ele marcaria porque mesmo depois de ter visto as duas tentativas anteriores virarem-lhe as costas à fortuna, nunca deixou de tentar ser feliz. E foi.

Jan Andersson preferiu não mexer jogadores ao intervalo mas trouxe uma nova versão de 4x3x2 com os dois alas a jogarem mais por dentro para disfarçarem a inferioridade numérica e puxarem um pouco mais pelo protagonismo da subida dos laterais. Na teoria, esta era uma das poucas soluções que a Suécia teria para tentar chegar ao empate, sabendo que bastava ficar um pouco mais exposta a uma transição e poderia ver o jogo “acabar” de vez. Nesta parte, teve até algum sucesso porque Portugal nunca conseguiu encontrar os espaços que em alguns momentos da primeira metade surgiram; em tudo o resto, não fossem as bolas paradas e não seria capaz de criar perigo. Quanto mais a Seleção controlava o encontro, mais perto ia ficando do segundo golo e Bruno Fernandes, após cruzamento de Gonçalo Guedes na esquerda, desviou dentro da área à trave da baliza de Olsen (60′).

“Controla, obriga a correr”, gritava Pepe em campo. “Tenham cabeça”, pedia Fernando Santos fora dele. Com uma percentagem de posse bem superior até pela vantagem numérica em campo, Portugal controlava mas, até pela quebra física que se ia notando em alguns jogadores, não tinha capacidade no último terço para fazer a diferença. O que faltava para baixar a ansiedade que se começava a sentir (ou a ouvir) no banco? Ronaldo, claro. E bastou só um par de metros e uma tentativa para ser tiro ao alvo a acabar de vez com a “incerteza”: grande variação de flanco da direita para a esquerda, passe de João Félix para o capitão na zona da meia lua e remate sem hipóteses para Olsen, naquele que foi o 101.º golo pela Seleção numa Friends Arena que não mais esquecerá num longo percurso que a jogar começou ainda em 2003 e a marcar teve início em 2004, na abertura do Europeu com a Grécia. Depois, Pepe, Danilo e companhia “trancaram” o 2-0. A história do jogo estava escrita. Ronaldo fez mais história, ficando apenas a oito golos de igualar o iraniano Ali Daei como melhor marcador de sempre de seleções. Como dizia Albert Einstein, o impossível só existe até alguém duvidar dele e provar o contrário. E foi isso que Ele fez.