Portugal “corre um grande risco” de se tornar a “lanterna vermelha”, a nível de desenvolvimento económico, entre os países europeus. O alerta é de Aníbal Cavaco Silva, ex-primeiro-ministro e ex-Presidente da República que, em entrevista ao jornal Sol, recusa fazer avaliações sobre a governação atual – por causa da pandemia – mas deixa fortes críticas à legislatura anterior, em que o PS governou com “posições conjuntas” assinadas com BE, PCP e Verdes. “Os valores da social-democracia foram aplicados muito pouco ou quase nada”, acusa.

Um exemplo da negligência que Cavaco Silva viu nessa governação, em relação aos tais valores da social-democracia”, é o investimento na Saúde – ou alegada falta dele. “No caso da Saúde, por exemplo, um dos princípios fundamentais da social-democracia é colocar os interesses dos utentes no centro da política de Saúde, assegurando-lhes serviços de qualidade. Nos quatro anos de Governo da ‘geringonça’, isso não aconteceu: o subfinanciamento, a redução para 35 horas…”, critica.

“Se um Governo tiver oportunidade” de aplicar melhor esses valores, diz o ex-Presidente, aí “conseguiríamos aproximar-nos mais rapidamente do rendimento médio da Europa”. O que seria importante porque “neste momento Portugal corre um grande risco: se as coisas não se inverterem em breve, a lanterna vermelha a nível de desenvolvimento dos países da zona-euro”.

Quem é que ainda está atrás de nós? A Letónia, que atualmente cresce mais rapidamente do que Portugal. A Grécia, em recuperação da situação em que se encontrava. A Eslovénia, a Eslováquia, Malta, a Estónia, a Lituânia, a República Checa, já estão todos à nossa frente. Como português, sentiria uma grande tristeza ao ver Portugal como lanterna vermelha da Europa”, diz Cavaco Silva.

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Esta é uma situação que coloca uma “grande responsabilidade dos governos da atualidade – e dos políticos em geral da atualidade, incluindo a oposição”. Cavaco Silva refere um estudo do Banco de
Portugal publicado no final do ano passado, onde se lê que o rendimento per capita com base na paridade do poder de compra em 2018, comparado com a média europeia, “foi inferior àquilo que eu [Cavaco] deixei em 1995, quando terminei as minhas funções como primeiro-ministro”. “Não sou eu que o digo… É o Banco de Portugal”, remata.

Além do que considera ser um mau desempenho económico, quando comparado com outros países, Cavaco diz que o que mais o “impressiona” hoje é a “agressividade na linguagem dos políticos”. “As minhas relações com os políticos da oposição – do Partido Comunista ao CDS – foram sempre cordiais. Hoje, há demasiados insultos na política, demasiadas falta de respeito. E isso afasta os eleitores, particularmente os jovens, que não se reveem nisso”, lamenta.

A mim, surpreende-me muito que o insulto se tenha tornado tão corrente no combate político – e eu participei em muitos, como sabe. Mas nunca olhei um adversário como um inimigo. Nunca ouvi insultos, nunca insultei ninguém. Agora é comum”, acrescenta.

Em concreto, Cavaco Silva diz que no seu tempo “não estávamos, um ano depois de chegar ao Governo, a culpar governos anteriores”. “Hoje, cinco anos depois, vejo-os culparem o Dr. Passos Coelho, que fez, ainda por cima, uma obra altamente meritória e tirou Portugal da bancarrota”, afirma Cavaco Silva.