Marta Temido revelou esta segunda-feira que os internamentos por Covid-19 nos hospitais, em enfermaria e unidades de cuidados intensivos, deverão ultrapassar os três mil na próxima semana. Segundo as projeções do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, a partir de 4 de novembro estima-se que estejam internados em enfermaria 2.634 doentes e 444 em unidades de cuidados intensivos. Já na quarta-feira, dia 28 de outubro, deverá ser ultrapassado o máximo de doentes hospitalizados nos cuidados intensivos registado na primeira vaga, de 271.

Não estou a dizer que no dia 4 [de novembro] teremos o pior cenário, estou a dizer que os cálculos vão até dia 4 e que o dia 4 traz um cenário de grande complexidade”, explica. “Se teremos capacidade de respondermos a esse dia 4? Teremos, mas já com grande complexidade daquilo que será a nossa necessidade de fazer adaptações àquilo que é a resposta à demais atividade assistencial.”

Para a ministra da Saúde não há duvidas de que o cenário pode ser pior “se continuarmos a ter uma progressão da transmissão de infeção e não a conseguirmos inverter” e alerta que “capacidade é relativamente dinâmica e flexível”. Numa situação “já muito extremada em reposta a picos de afluência”, os portugueses “podem contar como 17 mil camas de internamento em enfermarias e 800 unidade de cuidados intensivos”.

No entanto, apesar de o SNS estar “mais bem preparado” para responder à pandemia, a situação em Portugal é complexa” e “grave”. “Nenhum sistema de saúde tem uma capacidade elástica, por isso devemos imperativamente preservar a capacidade de resposta também dos nossos hospitais”, enfatiza, acrescentando que “como todos os sistemas de saúde, o SNS tem limites”.

O Ministério da Saúde avança estar preparado para reencaminhar doentes não Covid-19 que tenham consultas, exames ou cirurgias no SNS face ao agravamento da pandemia para os setores privados e social. “O que fizermos hoje terá impacto nos contágios que acontecerem amanhã e esses contágios terão impacto nas hospitalizações que acontecerem na semana a seguir, no internamento em cuidados intensivos e, eventualmente, nos óbitos.”

Temido garante que “não há tempo a perder” e, por isso, “é necessário que cada um faça o que está ao seu alcance” para parar transmissão da infeção. “Nenhum investimento que o Governo possa fazer ultrapassa a necessidade de cada um responder o melhor possível àquilo que está nas suas mãos (…) Trata-se de responsabilidades partilhadas e o SNS pede a ajuda de todos para poder fazer melhor o seu papel.”

Marta Temido admite ainda que o Executivo poderá avançar com um agravamento de medidas a nível local, à semelhança do que ocorreu na semana passada para os concelhos de Paços de Ferreira, Felgueiras e Lousada, tudo para “ajudar o país a controlar este novo crescimento da transmissão”. “Aquilo que o governo decidiu foi adotar o estado de calamidade para poder ter o enquadramento suficiente para, em função da avaliação de risco de cada concelho ou região, poder agravar as medidas. Essa avaliação está feita e poderá haver medidas mais graves agora decretadas.”

Na mesma conferência de imprensa, Temido avançou que, se houver necessidade, o Ministério da Saúde “fará gestão entre regiões” para garantir uma resposta concertada do SNS, pois “as regiões não estão fechadas à chave”.

Já relativamente à atividade assistencial para doentes com outras patologias, a ministra destacou que o esforço de recuperação foi “notável” e “significativo”. A recuperação da atividade não Covid-19 “tinha apenas um diferencial de 600.000 consultas entre urgentes e não urgentes em cuidados de saúde primários até setembro face ao período homólogo, num volume de 31 milhões”, no entanto, a ministra reconhece que o aumento exponencial de casos pode voltar a condicionar a resposta do SNS.

O esforço de recuperação foi significativo. Nos hospitais, o cenário também foi de melhoria, mas não tão vantajoso. E tínhamos programas de recuperação da atividade assistencial com incentivos diretos aos profissionais de saúde. Mas, se isso não chegar — e admitindo que não chegue, face à desprogramação de atividade que teremos de fazer — o encaminhamento para os outros setores convencionados ocorrerá de acordo com aquilo que forem as necessidades e o interesse dos doentes.”

Na mesma comunicação ao país, a governante anunciou que existe em Portugal um aumento de número de casos em todas as faixas etárias, com mais expressão no intervalo dos 20 aos 39 anos e nos indivíduos com mais de 85 anos, uma situação que pode levar “a um aumento das hospitalizações e dos óbitos nas próximas semanas”.