Once upon a time, o Leicester foi mesmo campeão. Quando recuamos a 2016 e pensamos naquela que foi uma das histórias mais improváveis do futebol europeu este século ainda custa acreditar. A incrível epopeia dos foxes com a conquista da Premier League teve depois uma natural queda, sendo que na temporada seguinte a primeira volta colocou a equipa a lutar pela permanência e levou à saída do comando técnico de um autêntico herói chamado Claudio Ranieri, substituído pelo interino que se tornou principal Craig Shakespeare. Claude Puel foi a aposta que se seguiu, Brendan Rodgers chegou em fevereiro de 2019. De outra forma, o clube voltou a sonhar.

O antigo treinador de Swansea, Liverpool ou Celtic, que se tornou um dos mais caros de sempre quando deixou os campeões escoceses para regressar à Premier League (mais de dez milhões de euros), foi começando a construir uma nova base na última temporada, onde perdeu Maguire mas ganhou nomes como Tielemans, Ayozé Pérez ou Dennis Praet, a que juntou agora Wesley Fofana e Timothy Castagne (perdendo Ben Chilwell). E os resultados foram aparecendo, ficando muito perto da qualificação para a Champions em 2019/20, frustrada pela queda após a paragem pela pandemia, e estando nesta fase no segundo lugar do Campeonato tendo derrotado adversários de peso como Manchester City (5-2), Arsenal (1-0) ou Leeds United (4-1), todos fora.

“O Leicester tem pontos fortes. Coletivamente é uma boa equipa, e isso é um elogio que faço Brendan Rodgers para mim o melhor treinador da atualidade em Inglaterra. Tem individualidades muito fortes também e um jogo difícil de contrariar, por isso é que marcou cinco golos ao City e quatro ao Leeds. Pode lutar pelo título inglês. É uma equipa equilibrada, tem um plantel vasto e equilibrado. Se não for este ano nos próximos anos irá lutar pelo título porque tem uma base muito boa e uma capacidade de recrutamento também grande”, admitiu Carlos Carvalhal, treinador do Sp. Braga que passou pela Premier League no comando do Swansea, uma passagem ainda hoje muito recordada não só pelo clube galês (que tem ainda à venda t-shirts com expressões suas como “Pôr a carne toda no assador”) mas também pela própria imprensa, que tem um regresso do português na calha.

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Atravessando a melhor fase da temporada, e tendo uma complicada deslocação à Luz no domingo, os minhotos chegavam a Inglaterra para um encontro que iria decidir a liderança do grupo da Liga Europa mas com algumas baixas de peso à mistura, casos de Ricardo Horta ou Fransérgio, que testou positivo à Covid-19. Mas nem isso nem o acumulado de jogos parecia tirar a ambição a Carvalhal, apostado em surpreender o Leicester mesmo admitindo que teria necessidade de fazer algumas alterações. “Vamos jogar em função do nosso sistema e da nossa dinâmica, o que implica ter bola. E há a outra parte, quando o adversário tem bola temos de nos ajustar. Mas vamos ser uma equipa destemida. Ausências? Há que lamentar… Jogámos há três dias e vamos defrontar o Benfica também daqui a três dias. Em Guimarães acabámos com nove, fizemos uma viagem longa para Ucrânia, tivemos jogos muito disputados. Saímos vitoriosos deste ciclo mas é claro que temos de olhar isto como um todo e em cada jogo fazemos uma avaliação com o departamento médico para detetar fatores de fadiga. Os jogadores não são máquinas, vamos apresentar a equipa mais fresca possível mantendo o padrão de jogo”, salientou.

Entre as mudanças, a equipa no seu coletivo falhou e o Leicester foi sempre melhor, apesar de ter demorado a criar a primeira oportunidade perto da baliza e já numa altura em que João Novais tinha tentado a meia distância e Galeno tinha visto um remate prensado num defesa contrário. E o fator desequilibrador em termos individuais até acabou por ser um habitual suplente, Iheanacho, numa noite de Lei de Murphy invertida em que tudo o que podia correr bem, correu ainda melhor. Do lado do Sp. Braga, Matheus foi o melhor. Ou seja, perante tantos erros dos três centrais (e na própria transição defensiva), o guarda-redes evitou ainda males maiores apesar da goleada por 4-0 frente ao Leicester que colocou os ingleses na liderança isolada do grupo da Liga Europa.

O nigeriano começou por inaugurar o marcador a meio da primeira parte, beneficiando de um enorme “buraco” na defesa dos minhotos para ganhar espaço pela esquerda, beneficiar de um ressalto no primeiro remate à baliza de Matheus e encostar para o 1-0 (21′), resultado com que se atingiria o intervalo depois de um cabeceamento após canto de Bruno Viana para defesa de Kasper Schmeichel (26′) e de uma intervenção extraordinária de Matheus depois de uma grande jogada de Maddison iniciada em Iheanacho (43′). Logo a abrir o segundo tempo, num tiro do nigeriano que bateu em Bruno Viana e enganou Matheus, o Leicester aumentou para 2-0 e o Sp. Braga quebrou de vez (48′), entre a incapacidade de esticar jogo e os erros em catadupa no setor recuado: Dennis Praet, assistido por Iheanacho que queria rematar, fez o 3-0 (67′) e Maddison fechou as contas aos 78′, sendo que pelo meio o nigeriano ainda teve a “sorte” de não haver VAR no jogo ou seria expulso após entrada sobre Novais.