O Swansea defronta este sábado o Brighton e tenta somar o sexto encontro consecutivo na Premier League sem derrotas, que seria também o 11.º jogo invencível contando com os compromissos na Taça de Inglaterra. Sim, esse mesmo Swansea que, à 20.ª jornada, estava no 20.º e último lugar e somava apenas 13 pontos e que agora, sete rondas depois, tem mais do dobro de pontos (27) e se encontra na 16.ª posição ligeiramente acima da zona de despromoção. O que mudou? O treinador.

Diz o adágio popular que muitas vezes mais vale cair em graça do que se engraçado. Carlos Carvalhal, que tinha saído de forma surpreendente do Sheffield Wednesday, foi anunciado de forma ainda mais surpreendente no lanterna-vermelha da Premier League onde está também José Mourinho (Manchester United) e esteve Marco Silva (Watford) e alcançou as duas: por um lado, conseguiu soltar física, tática e mentalmente uma equipa presa aos maus resultados; por outro, fruto das conferências “atípicas” e das tiradas cheias de humor, foi conquistando também a própria comunicação social inglesa.

Saiu da Segunda e parou na Premier League: Carlos Carvalhal assina pelo Swansea

Na semana passada, a BBC apelidou o técnico de “excêntrico arquiteto do renascimento do Swansea”. E, pelo meio do trabalho sobre o treinador português, aproveitou para recuperar a licenciatura do antigo central em Ciências do Desporto e a passagem, durante um ano, pelo curso de Filosofia em Braga. Porquê? Para ir buscar o interesse do técnico em Descartes. “Sou uma pessoa do futebol (…) Entendo o futebol como um fenómeno complexo e, se percebermos essa complexidade, sabemos um pouco melhor o que é o futebol. Tudo está ligado, não existe apenas uma parte que é importante. Há a motivação, a vertente física, a tática. Tudo tem de estar ligado porque tudo é importante”, cita a publicação britânica.

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“Ele diz-nos que tem um lado A e um lado B. Às vezes quando se sente a tensão ele conta-nos uma série de histórias que nos fazem rir, mas quando é trabalho é muito sério. Quando é para rir, é para rir; quanto é para trabalhar, concentramo-nos”, explicou o médio Ki Sung-yueng. “Desempenhou um papel enorme na ajuda à equipa para dar a volta aos resultados”, disse André Ayew, o grande reforço do mercado de Inverno. “É uma pessoa vibrante, emotiva e positiva, alguém que dá gosto ter ao nosso lado com toda aquela energia. É a pessoa certa”, rematou o defesa Alfie Mawson.

Carvalhal. “E se o Van Basten jogasse no Braga?”

Aos 52 anos, após passagens por Sp. Espinho, Freamunde, Vizela, Desp. Aves, Leixões, V. Setúbal, Belenenses, Sp. Braga, Beira-Mar, Asteras Tripolis (Grécia), Marítimo, Sporting – numa fase particularmente complicada em termos “políticos” no clube –, Besiktas, Istanbul BB (ambos da Turquia) e Sheffield Wednesday, Carvalhal chegou onde todos sonham: à Premier League, com o Swansea. E tem brilhado, dentro e fora de campo, como se percebe pelas tiradas no último mês e meio.

As sardinhas, os robalos e as lagostas

A primeira grande tirada de Carlos Carvalhal como treinador do Swansea teve como tema a abordagem dos cisnes ao mercado. Que tipo de jogadores poderiam chegar? De onde? E para que posições? O treinador foi ao mar e pescou a melhor forma de explicar o que poderia ou não acontecer. “Temos dinheiro para sardinhas, mas eu quero lagosta. Vou fazer de tudo para trazermos os melhores jogadores possíveis, vou tentar lagostas e robalos, mas se não for possível, então teremos de comprar sardinhas. Às vezes as sardinhas podem ganhar jogos…”, comentou, prosseguindo: “A situação não está fácil, a nível financeiro e de mercado. Nem todos querem vir para uma equipa que luta pela permanência”.

Quando um Fórmula 1 enfrenta Londres em hora de ponta

Após o triunfo inicial com o Watford, Carvalhal teve um adversário de peso na estreia em casa: o Tottenham. Perdeu e os spurs foram melhores nesse jogo, mas também ganhou lições para o futuro. Lições que foram utilizadas mais tarde na abordagem à receção ao Liverpool, um dos crónicos candidatos ao título (ou, no caso deste ano, ao segundo lugar). “Fiz uma analogia com os meus jogadores para este encontro: o Liverpool é uma equipa de topo, têm um Fórmula 1, mas se colocarmos um carro da Fórmula 1 no trânsito de Londres às 16h, em hora de ponta, ele não vai andar muito”, disse. E o Swansea conseguiu mesmo vencer os reds por 1-0 nesse jogo.

O bom tempo, a cadeira, Alexis Sánchez e uma chamada inesperada

A “química” entre Carvalhal e os jornalistas era por demais evidente, como se percebeu na antecâmara da receção ao Arsenal, apenas uma semana depois de ter defrontado o Liverpool. E enquanto travava uma luta com a cadeira da sala de conferências do Swansea, que estava demasiado para baixo, o técnico lá ia falando do “bom tempo” no País de Gales. A certa altura, quando explicava que a ausência de Alexis Sánchez não poderia ser determinante porque as grandes equipas não estão apenas assentes num só jogador, por melhor que ele seja, o telefone de um jornalista. “Hello?”, disse enquanto agarrava no aparelho para entregar ao atrapalhado proprietário.

A situação de Mahrez e a ligação com os vizinhos

Veio o jogo com o Arsenal, o Swansea voltou a ganhar (3-1) e seguiu-se um encontro fora com o Leicester no rescaldo do mercado de Inverno que, mais uma vez, tinha deixado Mahrez a ver navios em relação a uma transferência. O argelino faltou a alguns treinos por estar deprimido e deveria ser baixa confirmada com os swans, algo que Carlos Carvalhal não quis comentar dando o exemplo do que se passa em Portugal. “No meu país vivo numa casa, há alguns vizinhos e eu não sei o que fazem, acreditem. Digo-lhes adeus, bom dia, boa tarde, mas nunca olhei para dentro da casa dos meus vizinhos. Preocupo-me com a minha casa, com a minha família, com os meus cães, mas nunca olho para os vizinhos. Portanto, não é um problema meu”, referiu a propósito do caso do extremo africano.

Querem saber o que é bom? Pastéis de nata para todos

A 6 de fevereiro, o Swansea confirmou o seu favoritismo nos 16 avos da Taça de Inglaterra e goleou o Notts County por expressivos 8-1; poucos dias depois, seguia-se um jogo importante da Premier League com o Burnley. Pelo meio, Carlos Carvalhal tinha uma surpresa reservada para os jornalistas que por norma seguem o conjunto galês: pastéis de nata para todos. “Português, pastel de nada”, ia explicando enquanto colocava o prato à frente de cada pessoa para retirarem a iguaria. Nesse dia o treinador português estava mesmo bem disposto e, enquanto um jornalista fazia uma pergunta, começou a fazer por gestos que tinha um bocado de creme do pastel na cara. “Não, estava só a brincar consigo”, atirou depois entre os risos na sala.

Os códigos do amigo treinador e a boa disposição que não é um circo

Na conferência seguinte, a dose de Carvalhal foi dupla: primeiro, explicando a importância do equilíbrio entre uma defesa sólida e um ataque fluente, o técnico deu o exemplo de um treinador seu amigo acusado de ter a equipa a jogar com linhas demasiado baixas e que criou um código com os seus jogadores onde utilizava a mão esquerda para mandar avançar os jogadores mas com a mão direita, que era a que contava mesmo, fazia recuá-los (tudo com gestos, claro); depois, quando lhe perguntaram se o ambiente muito mais divertido que trouxera era o segredo da recuperação do Swansea, teve a tirada do dia dizendo que não trabalhava no circo. “Se trabalhasse no circo vinha para aqui e fazia piadas, vestia-me de palhaço e fazia rir, mas as coisas não são assim”, frisou.

A subida na classificação, numa versão marítima

Contas feitas, o Swansea, que estava no último lugar quando Carlos Carvalhal assumiu o comando, tinha saído da zona de despromoção. Ou, como referiu, “está pela primeira vez a cheirar o ar”. “Quando chegámos, estávamos fundo no oceano. Estava muito escuro. Haviam apenas algumas pedras, nenhum peixe e não conseguíamos ver nada. Ganhámos alguns jogos importantes frente ao Liverpool e Arsenal, mas foi apenas na semana passada que metemos o nariz fora de água para apanhar ar fresco. Neste momento começámos a nadar e já conseguimos ver a costa. Sabemos a direção em que queremos nadar, mas ainda temos muito que nadar até chegarmos lá”, descreveu.

Ah, o típico “all the meat on the fire, on the barbecue”

O Swansea conseguiu uma importante vitória na receção ao Burnley da última jornada da Premier League, num encontro que não saía do nulo e onde colocou o reforço de Inverno André Ayew a jogar em simultâneo com o irmão Jordan (saiu Martin Olsson) e Tammy Abraham no lugar de Nathan Dyer até conseguir, finalmente, inaugurar o marcador a nove minutos do fim por Ki Sung-yueng. No final, utilizou uma expressão muito portuguesa para explicar o que se passou na segunda parte. “Merecemos ganhar. Há uma famosa expressão portuguesa, da autoria do Quinito (uma das minhas referências), que normalmente usamos quando fazemos a pressão que fizemos hoje: ‘Colocámos a carne toda no assador’. Terminámos o jogo com o Clucas na esquerda e três homens no ataque”, destacou.

Contratar jogadores é como… “comprar melões”

Por altura do regresso ao estádio do Sheffield Wednesday, por onde passou antes de chegar ao Swansea, Carlos Carvalhal deu uma entrevista onde lhe perguntavam se, quando tentava contratar um jogador, olhava apenas para as suas características enquanto futebolista ou se tentava ir um pouco mais longe. A resposta, objetiva, teve outra expressão muito nacional: “Não, queremos sempre saber um pouco mais sobre a sua personalidade, sobre como é no dia a dia. Mas contratar um jogador é como comprar um melão: nunca sabemos o que vai sair de lá. Às vezes é muito bom, outras vezes nem por isso. Todos os jogadores conseguem sempre surpreender um treinador, umas vezes pela parte positiva de superar o que achamos que pode dar, outras vezes por não ser bem o que achávamos”.

Um frango e um piquenique para falar de estatísticas

Na antevisão do encontro deste sábado entre o Swansea e o Brighton & Hove Albion, importante a nível de fuga à linha de água, o treinador português enfatizou que não é propriamente um grande adepto dos números e das estatísticas e foi buscar mais uma analogia para explicar o porquê das mesmas poderem enganar. “As estatísticas são como quando eu e tu vamos a um piquenique. Levamos um frango, eu como o frango todo e tu não comes nada. Ainda assim, e em termos estatísticos, tu comeste metade. É por isso que eu não ligo a estatísticas nem faço esse tipo de contas. Usar a matemática pode ser uma perda de tempo e, no final, ser algo frustrante”, comentou.