Foi quase com a mesma espontaneidade com que estas ervas crescem no campo que Mariana Santos decidiu começar a explorar as suas propriedades cosméticas. Não estas em particular, até porque a incursão desta artista de 32 anos começou a uns bons quilómetros de casa. Durante cinco anos, viveu em Bruxelas. Na verdade, foi a capital belga a lançar-lhe o isco da beleza natural e Mariana agarrou-o.

“Comecei a fazer workshops e pequenas formações na área do herbalismo, que está muito mais desenvolvida lá. A cosmética também me interessava, então foi como se as peças se começassem a juntar na minha cabeça”, explica a empreendedora ao Observador. Em 2017, quando tinha acabado de ser mão, regressou a Portugal. Diz que o sol foi o principal motivo. Já com algum conhecimento sobre as propriedades de espécies botânicas, começou a explorar as que tinha à mão. Mudou-se para o campo, mas propriamente para a região de Abrantes e redescobriu as ervas portuguesas.

Mariana Santos tem 32 anos e é a fundadora da Herbes Folles © Aline Macedo

Herbes Folles, a marca de cosmética natural que nasceu dessas primeiras experiências, chegou ao mercado no início do ano. Em Portugal, Mariana encontrou uma oportunidade por explorar, um segmento — o da cosmética natural — ainda pouco povoado de marcas e lojas. As formações em formulação cosmética e o conhecimento em naturopatia e medicinas alternativas fê-la chegar a uma primeira gama de produtos, focada nos cuidados do rosto e composta por um óleo de limpeza, uma loção iluminadora e um bálsamo multiusos. Ao trio inaugural junta-se um quarto produto, apenas à venda online — Konjac é a esponja biodegradável, de origem natural e disponível em duas versões: argila verde, para peles mistas e oleosas, e argila vermelha, para peles secas. Os preços variam entre os 8,50 e os 37,50 euros.

“O meu objetivo foi criar produtos suficientes para garantir uma rotina de cuidados de beleza”, apresenta. As fórmulas foram elaboradas por Mariana, com a ajuda de uma empresa especializada em extratos de plantas na Suíça. Desde então que a produção é feita no país ao qual mantém ligações familiares, a Bélgica. Mas são as plantas, segundo a fundadora da Herbes Folles, as “grandes heroínas”.

As beldroegas foram uma das grandes surpresas, detentoras de propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e ricas em ácido alfa-linolénico, da família dos ómega 3. Por sua vez, as urtigas estão carregadas de carotenóides, proteção eficaz face aos raios UV. Já o sabugueiro, planta que cresce à beira da estrada, surge também como importante fonte de antioxidantes. Chicória, hipericão e papoila completam a lista de ingredientes notáveis. À exceção da manteiga de murumuru, proveniente do Brasil, todos os outros são de produtores europeus.

Diáfano, Névoa e Mimo, os três primeiros lançamentos da marca © Aline Macedo

Sem fragrâncias sintéticas, conservantes artificiais, óleos minerais e petroquímicos, nem as embalagens da Herbes Folles (“ervas loucas” em francês) foram deixadas ao acaso. São frascos de vidro, tubos de cartão reciclado e etiquetas feitas a partir de resíduos de fibras de cana de açúcar. A sustentabilidade é um dos pilares fundadores da marca. Mariana estuda neste momento a possibilidade vir a proporcionar o serviço de refill aos seus clientes.

Mariana não tem dúvidas: o segmento tem crescido e olhos vistos, com um interesse crescente dos portugueses pela cosmética natural, entre outras soluções para eliminar químicos de bens consumíveis. Crescer no mercado nacional é, por isso, um dos objetivos, mas não o único. Além da loja online e de quatro pontos de venda físicos em Lisboa e um na cidade belga de Liège, a empresária, atualmente dedicada em exclusivo à Herbes Folles, quer apostar em marketplaces como a Fair Bazaar para expandir a marca. Isso e, claro, explorar novas ervas. O próximo passo é fechar uma nova fórmula para um protetor solar.