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Uma hora, 60 minutos, 3.600 segundos para a história. Por mais ingrato que pudesse parecer, a grande ascensão da Seleção de andebol poderia ter no outro lado da moeda a sua queda. E porquê? Porque um dos grande méritos de Paulo Pereira desde que assumiu o comando foi não só juntar da melhor forma em campo duas das melhores gerações nacionais aproveitando também o trabalho dos clubes (sobretudo do FC Porto) mas também incutir um espírito de conquista e ambição como antes não havia. Assim, e se em 1997, em 2001 e em 2003 as ambições nacionais eram sobretudo passagens à fase seguinte, agora o cenário tinha mudado. E foi no encontro com a França no Europeu do ano passado que essa metamorfose ganhou forma para aquilo que a Seleção é hoje.

Histórico: Portugal vence ex-campeã mundial e olímpica França no arranque do Europeu de andebol com Quintana gigante na baliza

Apesar do triunfo por 12-11 ao intervalo contra a constelação de estrelas com Dika Mem, Nikola Karabatic, Luc Abalo, Fabrègas ou Melvyn Richardson, poucos acreditavam na surpresa. Aconteceu mesmo. Portugal apresentava a sua “nova face” numa vitória por 29-26 a que se seguiriam outras também elas pouco esperadas à partida contra Suécia ou Hungria. Agora, num Mundial que, um pouco como o futebol, junta apenas mais duas/três seleções além das europeias nas discussões (neste caso o Egito, o Qatar e a surpreendente Argentina), chegava a hora da verdade. Depois das vitórias com Islândia, Marrocos e Argélia, a Seleção perdeu de forma inglória frente à Noruega um jogo onde podia ter pelo menos segurado o empate e arrancou a melhor exibição com a Suíça, adversário que criou muitas dificuldades a adversários teoricamente favoritos. Seguia-se a França. E contas muito lineares.

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Depois do triunfo da Noruega frente à Islândia muito mais apertado do que se pensava, o cenário montado era o seguinte: se Portugal ganhasse por um ou dois golos, passava em segundo; se Portugal ganhasse por três a seis golos, passava em primeiro com a França em segundo; se Portugal ganhasse por sete marcando 33 ou mais golos, passava em primeiro com a França em segundo; se Portugal ganhasse por sete marcando 32 ou menos golos, passava em primeiro com a Noruega em segundo; se Portugal ganhasse por oito ou mais golos, passava em primeiro com a Noruega em segundo; se Portugal empatasse ou perdesse, estava eliminado do Mundial. E é aqui que regressamos à frase inicial desta crónica: uma hora, 60 minutos e 3.600 segundos para a história, tendo em conta que a melhor posição da Seleção em Mundiais era o 12.º lugar no ano de 2003.

“Estamos um pouco fatigados. Isto está a uma semana de terminar e há alguma fadiga acumulada, quer nos atletas quer no staff, mas é um cansaço que dá um gozo tremendo. Temos feito excelentes jogos, já ganhámos quatro em cinco. Acho que o andebol de Portugal está no bom caminho. As três televisões que estão cá da Noruega quase todas me fizeram a mesma pergunta, que era se vamos tentar ganhar por mais de cinco, que é o resultado que interessa à Noruega. Fico muito contente por ter toda a Noruega à espera do que vai acontecer no jogo entre a França e Portugal”, confidenciava Paulo Pereira na antecâmara do encontro de um adversário que avaliou por um percurso a duas velocidades, “eficaz quando tinha de ganhar e diferente nos outros jogos”.

Os primeiros minutos mostraram não só as características que o jogo teria mas também aquilo que Portugal devia fazer para roçar o mais possível a noite de sonho que pretendia: na defesa, “secar” as transições rápidas e travar a primeira linha fortíssima com Dika Mem, Kentin Mahé e o surpreendente Timothey N’Guessan; no ataque, ter um jogo paciente, a fazer cruzamentos duplos tentando depois espaço de remate para os laterais ou no espaço do pivô, e aproveitar todas as falhas técnicas ou ataques não concretizados para procurar a rapidez dos pontas. Na teoria, pelo menos, deveria ser assim. No entanto, Portugal falhou em três aspetos fundamentais que colocaram o jogo com quatro golos de vantagem (11-7) aos 17 minutos, já com um desconto de tempo pedido pelo meio.

Apesar das duas vantagens que teve a 1-0 (Alexis Borges em ataque organizado) e 3-2 (Diogo Branquinho, em contra-ataque), a Seleção encontrou em Timothey N’Guessan o grande e inesperado problema que não conseguia contrariar na lateral esquerda gaulesa (quando marcou o quinto golo pessoal e o nono da França numa das poucas ocasiões em que Paulo Pereira não escondeu de forma bem visível a sua frustração); nunca teve nesse período um Quintana nos dias em que se agiganta apesar de ter travado um livre de sete metros; e revelou grandes problemas não só em rematar bem da primeira linha mas também em falhas técnicas que davam golos ao adversário. Por estes pontos, a França chegou a ter avanços de quatro, equilibrados por um período melhor sem continuidade.

André Gomes e Miguel Martins, com dois golos de grande nível, colocaram o resultado em 12-10 e Portugal ainda reduziu para apenas um de diferença. Problema? Se no início era o ataque a disfarçar as carências da defesa, no final era a defesa que tentava esconder uma série de falhas e precipitações no ataque. E, em paralelo, se com todos os elementos em campo havia dificuldades, com menos um Portugal fez um parcial positivo. Após uma longa fase sem marcar, a Seleção chegaria ao intervalo de novo a perder por quatro (16-12) mas com Quintana a ter mais eficácia na baliza, sinal de que o ataque teve um eclipse quase comprometedor antes do descanso.

A abrir a segunda parte, logo a abrir, a França teve uma falha técnica e Diogo Branquinho marcou. Parecia que estava ali um sinal de que era possível, de que o jogo estava muito longe de se encontrar resolvido. No entanto, e logo nos lances seguintes, as bolas na trave de Fábio Magalhães e Rui Silva em vantagem numérica mostraram uma realidade distinta, com Portugal a afundar-se em erros próprios sem ter também aquela “estrelinha” que marcou o último Europeu e a vitória diante da França nessa competição. A França teve mérito nas soluções encontradas para fintar de forma constante a defesa nacional mas houve também muito demérito da Seleção na forma como falhou nos momentos chave do encontro e como não geriu as emoções nas fases de adversidade.

Essa foi uma das maiores diferenças entre França e Portugal: a maturidade competitiva. Portugal pode sonhar tão alto como a França, pode ambicionar ir tão longe como a França mas tem ainda um caminho a percorrer. Existe muita qualidade, existem indicadores de evolução muito interessantes mas longe do projeto há muito estruturado de seleções não só como a gaulesa mas como a Noruega, a outra apurada. No entanto, e se o Mundial chegou ao fim depois de uma derrota por números que seriam complicados de antever no arranque do encontro (32-23), os Heróis do Mar, a alcunha que representa esta equipa que tinha terminado o último Campeonato da Europa no sexto lugar, nem por isso – assim se saibam aprender com os erros passados para ganhar no futuro.