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As falhas técnicas em ações ofensivas que mereciam outro desfecho, algumas decisões desproporcionais da dupla de arbitragem, a bola de Rui Silva no poste no último segundo. A entrada fulgurante de Humberto Gomes no jogo com a Noruega, com seis defesas em dez remates, não foi suficiente para evitar a derrota por um golo que, apesar de ter valido zero pontos, deixou uma “lição” (ou mais uma prova) a Portugal: o nível desta Seleção subiu tanto nos dois últimos anos que até a defrontar um vice-campeão mundial e terceiro classificado no último Europeu ficou a ideia de que a diferença entre as equipas conseguia ser esbatida. E foi a partir deste ponto que Paulo Pereira começou a preparar o encontro frente à Suíça, onde a vitória era fulcral na luta pelos quartos do Mundial.

Humberto abriu a porta, os erros atiraram a vitória pela janela: Portugal sofre primeira derrota no Mundial com bola no poste a fechar

Apesar de ter perdido os três últimos jogos com os helvéticos nos pormenores, Portugal surgia com um ligeiro favoritismo em 2021 sabendo que continuava a depender de si para seguir em frente para a fase a eliminar da competição no Egito, tendo para isso de vencer pela primeira vez na Ronda Principal para depois discutir numa verdadeira “final” um dos dois primeiros lugares do grupo III com a França, um dos encontros mais aguardados desta fase até pelo surpreendente triunfo nacional na primeira jornada do último Europeu. E a Seleção não falhou, conseguindo em muitos períodos do jogo a melhor exibição neste Campeonato do Mundo que acabou com um triunfo por 33-29. Em cinco jogos, Portugal ganhou quatro e já igualou o número de triunfos em fases finais de 2003 num total de oito encontros realizados entre a primeira e a segunda fase dessa prova.

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Portugal teve a melhor entrada em jogos deste Mundial, chegando ao 3-1 com dois golos fantásticos de primeira linha antes de se deslumbrar e falhar um passe de costas para Diogo Branquinho num ataque rápido que poderia ter dado ao ponta a oportunidade de chegar aos três golos de avanço em menos de quatro minutos. A Suíça fez o empate, teve posse para passar para a frente mas mais uma defesa de Quintana evitou essa situação entre dois remates nos postes da Seleção que baixaram a eficácia ofensiva. No final dos dez minutos iniciais, Miguel Martins voltou a marcar o seu terceiro golo e colocou o conjunto nacional na frente por 6-5 contra uma equipa helvética que ia ficando dentro do jogo graças aos golos consecutivos com 100% de eficácia de livres de sete metros.

Paulo Pereira nunca tinha estado atrás no marcador mas percebia que Portugal podia disparar nessa fase diante de um adversário organizado, competente mas que até pelos encontros anteriores no Mundial mostrara que estaria ao alcance da Seleção apesar da vitória com a Islândia a abrir a Ronda Principal ou a derrota tangencial com a França na primeira fase. O jogo ofensivo melhorou sempre com Miguel Martins em destaque, a segunda linha começou a ser servida de outra forma com Iturriza mais em jogo mas a defesa não acertava nos movimentos de falso segundo pivô da Suíça, não permitindo vantagens superiores a um golo (10-9 a meio do primeiro tempo). No entanto, e num dos momentos chave até ao intervalo, Portugal não só aguentou bem a exclusão de João Ferraz como conseguiu tirar partido da vantagem numérica de seguida, chegando ao 12-10 como no início do jogo.

Ainda houve um contra-ataque bem travado pelo guarda-redes suíço a remate de Iturriza mas Portugal chegou aos três golos de vantagem (15-12), o que levou os helvéticos a arriscarem o 7×6 para tentarem algo de novo que fosse solução para as dificuldades no ataque quando defendiam em simultâneo Salina, Alexis Borges, Gilberto Duarte e João Ferraz além dos pontas. Ao intervalo, a Seleção saiu na frente por 17-15, tendo como principais destaques o inevitável Miguel Martins pelo que jogou e Victor Iturriza (cada vez mais evoluído) pelo que marcou.

Com Pedro Portela, Belone Moreira e Rui Silva a entrarem no jogo, e sobretudo com um Fábio Magalhães em plano de destaque após alguns remates falhados no primeiro tempo, Portugal conseguiu impor um ritmo mais rápido que o favorecia e chegou aos quatro golos de vantagem num contra-ataque do lateral após perda de bola da Suíça no ataque (22-18). No entanto, o 7×6 dos helvéticos ainda deixou tudo em aberto para os minutos finais, reduzindo para 25-23 com o inevitável Schmid a somar golos atrás de golos de primeira linha ou de sete metros.

Mais uma vez, e no momento em que Portugal mais precisava para serenar (que depois até foi em demasia, com ataques falhados entre jogos aéreos que não correram bem), voltou a aparecer o experiente Humberto Gomes que, do alto dos seus 43 anos, somou defesas importantes para nunca se perder um avanço de pelo menos duas posses de bola até cinco minutos do final, quando Pedro Portela falhou um livre de sete metros e a Suíça falhou da ponta a possibilidade de fazer o empate a 30. O encontro estava na fase decisiva e Portugal não tremeu depois desse falhanço helvético, marcando por António Areia de livre de sete metros e por Portela num contra-ataque para fazer o 32-29 que quase sentenciou uma partida que terminaria com toda a justiça no final em 33-29.